Pecar e Perdoar – Não existe “inveja branca”

“Se quiséssemos apenas ser felizes, seria fácil. Mas queremos ser mais felizes que os outros, então é difícil, pois achamos os outros mais felizes do que realmente são” – Montesquieu

Sucesso de crítica, “Pecar e Perdoar – Deus e o Homem na História” (Editora Nova Fronteira), do professor Leandro Karnal (Unicamp), é de uma clareza e lucidez tocantes. Em 204 páginas e com uma linguagem leve e apropriada, Karnal aproxima do grande público um tema que a priori parece espinhoso, ainda sob a égide da filosofia e da teologia, mas que é pertinente e incrivelmente presente na vida da maior parte das pessoas (os cristãos diriam que está presente em todos, tendo em vista a inclinação básica para “o pecar”). Este tema, que salta aos olhos em relação às demais abordagens do livro, é a famigerada inveja.

Como parte dos clássicos “Sete Pecados Capitais” da Igreja Católica – que delinearam e foram a base moral e ética de toda a civilização Ocidental, tal qual a conhecemos hoje –, a inveja – assim como os demais pecados – é explicada a partir da perspectiva do perdão. Desta forma, como defende Karnal, “o erro nasce com o perdão, ou a explicação pelo erro”.

E o que isso tem a ver com o nosso tempo? Karnal diz que a experiência humana – cujo ápice é a sua própria inserção no mundo real (fenomenológico) – recebe (como já defenderam vários teóricos) grande influência coletiva dos preceitos religiosos. Esta influência estaria incrustada  tanto no inconsciente coletivo quanto na formação psíquica individual.

Em que pese os alertas de que os monoteísmos de forma geral – se houver abordagem exclusivista e teísta-antropomórfica – e a ênfase fundacionista em particular, notadamente quando usadas sem refreio pelas três grandes religiões abraâmicas, geram mais dissabor que inclusão, não se pode “jogar para debaixo do tapete” as influências que tais traições ainda exercem no cotidiano da vida ocidental, seja na política, nas artes, na educação e justiça. E são muitas as boas influências. É este um dos alertas que Karnal faz em seu livro, de forma direta ou indireta. Reverbera, também e complementarmente em suas palestras sobre o tema, um assunto que a professora Rochelle Cysne (Universidade Católica de Brasília) defende com propriedade: a atual “crise existencial” do Ocidente se deve, em parte, às tentativas de execrar o cristianismo da Europa para substituí-lo pelo secularismo com realce ao ateísmo militante (ateísmo antirreligioso). Tanto Karnal – em suas exposições públicas e neste livro em questão – quanto Rochelle dizem que o grande problema é que as artes seculares e a própria ciência – no primeiro caso, uma porta voz “natural” da vontade de imanência, a partir do século “das luzes” – não estariam conseguindo impingir a mesma experiência estética que as tradições religiosas produzem. O resultado: uma sociedade desesperançada, sem conexão com aspectos teleológicos e num autocentrismo estridente. Este autocentrismo não representaria autopoiese. Antes, é uma forma de projetar-se para o mundo sem (re)conhecer a si próprio, numa escalada de “esvaziamento da subjetividade”. Daí a “enxurrada” de transtornos psíquicos supostamente típicos da contemporaneidade. Este é um tema que daria outro texto (portanto, não será aprofundado no momento), e que encontra eco na “Civilização do Espetáculo”, do Nobel de Literatura Mário Vargas Llosa, para quem “o declínio da linguagem”, que passou a sofrer com a proeminência imagética, desembocou em tal estado de coisas.

Sobre o processo de resignificação do pecado – que passa de algo execrável para tolerável, no sentido e uso comum –, a inveja também é apresentada por Karnal como algo sutil e venenoso, por isso não haveria “inveja branca”. De acordo com Karnal, que se utiliza de um humor ao mesmo tempo fino e ácido, “invejar é ter dor pela felicidade alheia. O que me incomoda não é, exatamente, o que o outro tem, mas o quanto ele é feliz com isso. Não quero a casa do outro, mas fico incomodado como ele vive bem nela”. Assim, Karnal considera a cobiça menos danosa e, em alguma medida, propulsora da ação. Ao cobiçar algo, o agente se move em direção à conquista. Portanto, o desejo de ter a mesma capacidade e/ou habilidade que outra pessoa configura-se, em súmula, numa grande diferença em relação a inveja. A cobiça, desta forma, seria até essencial para a existência.

Karnal acrescenta que a inveja é uma espécie de “pecado avergonhado”, tendo em vista que boa parte das pessoas pode até admitir publicamente que vive pelo (impulso ao) sexo, pela comida ou mesmo pela vaidade estética. “Mas você já encontrou alguém que diga que é muito invejoso? Já esbarrou com uma pessoa que reconheça que não pode ver a felicidade alheia que já cai em dor mortal como todo invejoso? Acho que não”, provoca o professor da Unicamp. E isto ocorre, segundo Karnal, porque

A inveja nunca é boa, ou usando uma expressão duvidosa, nunca é “branca”. A inveja é sempre destrutiva, sempre terrível e sempre “ruim”. Não existe inveja boa. O que pode ser menos danoso é um tipo de cobiça muito especial. (KARNAL, 2015, p. 68)

Desta forma, a existência de uma “cobiça branca” no tecido social é algo desejável. Age de modo semelhante ao estado dionisíaco executado por tempo determinado e observado de perto. Esta cobiça pode ser propulsora de boas mudanças e geradora de progresso.

A inveja, prosseguindo, é algo corrosivo, pois quem inveja não consegue perceber o esforço que o interlocutor fez para chegar a tal patamar. Esta assertiva leva a outros desdobramentos, como o fato de que o período pós-moderno pode acabar por influenciar reações de inveja, já que exorta os indivíduos a saírem do âmbito do privado para se projetarem, incessantemente, no ambiente do público, sobretudo através da comunicação por redes. Ainda assim, diriam os existencialistas, há uma vontade-base que depende exclusivamente de quem inveja. Em outras palavras, o invejoso tem condições de, por si só, decidir parar de invejar.

Karnal diz que ao optar pela inveja, o invejoso torna-se um cego espiritual (e aqui ele não se refere a “cego religioso”), num frenético jogo de comparações com o mundo externo. Desta forma,

O centro do olhar do invejoso é o outro. Em linguagem moderna, falta psicanálise ao invejoso; ele não tem senso crítico sobre si e nem conhecimento das suas limitações. Em linguagem filosófica, o invejoso não cumpre o mandamento socrático de conhecer a si mesmo. (KARNAL, 2015, p. 69)

Leandro Karnal aponta para as prováveis raízes da dor causada pela inveja. “Ela dói porque ela me reconhece menos. O que o outro parece conseguir de forma tão fácil, eu não consigo ou não tenho” (KARNAL, 2015). Há, portanto, uma pressão psicológica provocada pela falsa ideia de que o invejoso foi “excluído dos eleitos”, num desgaste interno que é lento e ressentido. Isso leva a outra investida, não menos danosa: a de “querermos nos parecer bem e felizes sempre”, para pelo menos de forma superficial – através de “likes” em postagens, por exemplo –, ter o prazer de receber o feedback e a aprovação do mundo. Esta é uma dinâmica que poderia ser a causa de algo ainda mais sério, o narcisismo patológico. Zizek já apontou para este caminho em um de seus últimos escritos.

Por fim e em resumo, a inveja aponta para um duplo caminho. Se por um lado ela age como uma “entorpecedora” da alma, ao obstruir os próprios referenciais – em decorrência da aflição com a condição do outro -, por outro lado ela desencadeia uma quase patológica necessidade de se apresentar para o mundo de forma superficial e aparentemente impecável. E haja energia para manter tantas “máscaras”! Sobre tema semelhante, certa vez Jung já advertiu que “quem olha para fora, sonha; que olha para dentro, desperta”.

No fundo, Leandro Karnal tenta, através de “Pecar e Perdoar”, despertar o máximo de pessoas de uma suposta letargia contagiante que ronda o contemporâneo. Trata-se de um livro atual e instigante.

FICHA TÉCNICA DO LIVRO

PECAR E PERDOAR – DEUS E O HOMEM NA HISTÓRIA

Autor: Leandro Karnal (Unicamp)
Publicação: Editora Nova Fronteira
Páginas: 204
Temas: História, Teologia, Filosofia, Vida Cristã

REFERÊNCIAS:

KARNAL, Leandro. Pecar e perdoar – Deus e o Homem na História. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2014.

VARGAS LLOSA, Mario. A civilização do espetáculo: uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura; tradução Ivone Benedetti. Rio de Janeiro: Objetiva, 2013.

ZIZEK, Slavoj. Problema no paraíso: do fim da história ao fim do capitalismo; tradução Carlos Alberto Medeiros. Rio de Janeiro: Zahar, 2015.

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).