Quase Deuses

A morte é uma coisa modesta pra se viver com ela dia após dia.
Vivien Thomas

Vemos a morte todos os dias e mesmo assim ela nos assusta sempre.
Dr. Alfred Blalock

O filme “Quase Deuses” é baseado em uma história real e traz reflexões importantes no campo das ciências humanas, pois esboça as contradições de uma sociedade, as relações de trabalho e capital, a questão racial, o espaço urbano, o antagonismo rico e pobre numa sociedade de classes, o poder do conhecimento (ciência).

“Quase Deuses” se passa em Nashville na década de 1930 e narra a história de amizade de Vivien Thomas (1910-1985), afro-americano e hábil marceneiro e do Dr. Alfred Blalock (1899 – 1964), norte-americano e habilidoso cirurgião.

Eles são duas pessoas diferentes em níveis de classes sociais e cor. Os caminhos deles se cruzam quando Thomas é demitido com a chegada da Grande Depressão. Ele foi demitido porque estavam dando preferência para quem tinha uma família para sustentar. Com a crise, os bancos faliram e isso o fez perder as economias de sete anos, que ele guardou com sacrifício para fazer a faculdade de seus sonhos, Medicina.

Na década de 1930, a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque (em 1929) gerou uma grande depressão econômica, o que contribuiu para aumentar a segregação (econômica e social), devido às altas taxas de desemprego e uma grande queda na produção industrial.

 

 A luta por condições iguais do trabalhador perpassa de forma explicita o enredo do filme, a exemplo dos professores negros que querem ganhar igual aos brancos, bem como, um dos protagonistas – Vivien Thomas – que recebe seu salário inferior à sua função técnica. No filme há evidências de que as afinidades entre as pessoas são determinadas pelas suas condições de vida, classe, etnia entre outros. Como expõe o irmão de Thomas, “só os pobres têm uns aos outros” fazendo alusão que mesmo perdendo todas as suas economias, o que lhe restava é a família a sua condição de pobre (classe).

Em todo enredo do filme a segregação racial é apresentada de forma bem determinante na sociedade americana.

Os negros sentavam-se na parte detrás dos ônibus; além disso, nos bares, lanchonetes, bairros, banheiros, espaço público entre outros, havia a marca da segregação. O conflito racial está presente e é muito forte no filme, ainda que essa temática não seja a sua premissa principal. Permite-nos inferir que, o conflito ou o preconceito racial, impediram muitos americanos de demonstrarem que poderiam fazer a diferença, caso tivessem tido uma chance como a do personagem Thomas.

O Dr. Blalock conhece Thomas no Hospital, lugar em que conseguiu emprego para ser zelador no Laboratório de Cirurgias Experimentais Vanderbilt. Esse laboratório utilizava de cães para experimentos médicos e a atividade de Thomas era manter o canil limpo e os cães bem tratados. Mas, ele não abandonou a sua paixão pela medicina e curioso, em busca de conhecimento, ele, entre um afazer e outro, devorava os muitos livros de medicina que se encontrava no laboratório.

Isso atraiu a atenção do Dr. Blalock que observava, atentamente, a vontade de Thomas em aprender. Com isso, o Médico pediu que Thomas pinçasse os tubos de ensaio. Primeiro com a mão direita e depois com a esquerda. Ele, com segurança, além de pinçar os tubos, conseguiu colocá-los em seus devidos lugares. Foi promovido. Thomas passou a ser assistente nas cirurgias experimentais do Dr. Blalock.

O Cirurgião percebe em Thomas mais que um simples homem negro, mas uma pessoa de grande talento e de fácil aprendizagem. Quando Blalock se tornou cirurgião-chefe do Johns Hopkins Hospital, levou consigo Vivien por causa de sua paixão por medicina e habilidade com os instrumentos cirúrgicos.A relação dos dois extrapola a profissional e começa uma forte amizade.

Onde você vê riscos, eu vejo oportunidades.
Dr. Alfred Blalock

Na América racista de sua época, Thomas, que era negro, causava reações de indignação nos médicos do Hospital ao circular de jaleco branco. Afinal ele não passava de um faxineiro. Ele, por ser negro e não diplomado, não podia nem mesmo entrar no centro cirúrgico. Usar branco era sinônimo de conhecimento, de poder. Tornavam esses médicos “quase deuses”.  Thomas, autodidata, por meio da observação, estudo e dedicação, aprendeu e contribuiu com técnicas inovadoras na medicina. A parceria de Thomas e o Dr. Blalock resultava em desenvolvimento e aperfeiçoamento de instrumentos para cirurgias cardíacas.

 Numa época cheia de preconceitos e dificuldades, o processo da pesquisa e da cirurgia cardíaca foi um marco na medicina moderna. Isso porque o coração, naquela época, era considerado intocável e inoperável. O Dr. Alfred assumiu a missão de pesquisar uma solução para uma doença conhecida como “Síndrome do Bebê Azul”. Essa síndrome também é conhecida como Tetralogia de Fallot, onde o coração da criança possui um defeito que acarreta grande dificuldade de oxigenação do sangue, com isso o bebê adquire uma cor arroxeada (cianose) e sofre de falta de ar. Thomas, movido por sua paixão, desafiou a ciência e o preconceito dos médicos e contribuiu com as suas ideias para a resolução do problema.

 

Ao lado do Dr. Blalock foram os primeiros a realizar cirurgias no coração de pessoas vivas no maior Hospital dos Estados Unidos, o conceituado Hospital Hopkins. O Dr. Blalock repetiria o procedimento em outros pacientes, mas com Thomas de pé num banquinho atrás do médico, vendo tudo por sobre seu ombro e dizendo-lhe o que fazer.

Mesmo assim, o reconhecimento de suas conquistas/descobertas no campo científico, que deveria ser irrestrita e acima de tudo não discriminada, ecoou com as marcas simbólicas no homem que era negro, de periferia, sem curso superior. O reconhecimento para sociedade, americana, burguesa, obviamente deveria ser branca e “civilizada”.

Como era de se esperar, os créditos pelo sucesso das intervenções cirúrgicas ficaram somente com o Dr. Blalock. A parceria de Thomas e o Médico perdurou por quase 40 anos e só muitos anos depois o trabalho de Thomas foi reconhecido. Após a morte do Dr. Blalock, em 1964, Thomas permaneceu Hospital por mais 15 anos trabalhando no Laboratório. Somente em 1976, Thomas foi condecorado com um título de Doutor Honorário, mas  devido a restrições, ele recebeu um título de Doutor em Direito e não em Medicina. Thomas também foi nomeado para o corpo docente da Johns Hopkins Medical School como Instrutor de Cirurgia.

Além de narrar a trajetória de Thomas e do Dr. Blalock, o filme toca num ponto que merece a nossa atenção: o modo como a  religião lida com o avanço da ciência. Esse é um conflito da época que perdura até hoje. Temos religiões que não permitem que a ação do homem interfira na vida (a exemplo de uma transfusão de sangue). Ainda, temos os grupos fundamentalistas, que a partir de uma “guerra santa” explodem a si e aos outros em nome de “Deus”. Além disso, temos o crescimento e expansão das “doutrinas” religiosas são cada vez maiores. Mas qual é a causa desse crescimento? Talvez, pudéssemos pensar se este crescimento é advindo da fé e religiosidade ou uma opção pela ausência de perspectivas na vida, pela falta de referência, entre outros motivos que podem ser oriundos de uma estrutura social desigual, excludente, racista, machista etc.

 

 De modo geral, o filme traz elementos significantes que vão além de uma grande lição de humanidade, pois é baseado na história real de duas pessoas que são bem distantes no tocante à formação cultural, política e econômica, mas que tem como princípio usar do conhecimento para salvar vidas.

”Quase Deuses” nos faz refletir sobre as nossas atitudes, nossas ações, nosso comportamento em relação aos “outros” e ainda em como ler a realidade a partir de um contexto específico, mas que não está deslocado do geral. Assim, observamos as relações políticas, econômicas, culturais, sociais, religiosas e principalmente no campo científico, sem perder de vista as dimensões do particular (individual) e do coletivo (sociedade). Ou seja, um esforço qualitativo para ver e ler os fenômenos sociais, as intersubjetividades e os sentidos dos sujeitos.

 

FICHA TÉCNICA:

QUASE DEUSES

Título original: Something the Lord Made
Gênero: Drama
Elenco: Alan Rickman, Mos Def, Mary Stuart Masterson, Kyra Sedgwick, Merritt Wever
Direção: Joseph Sargent
Duração: 01h50
Ano: 2004

Irenides Teixeira
Psicóloga, Fotógrafa, graduada em Publicidade e Propaganda com mestrado em Comunicação e Mercado. Doutora em Educação pela UFBA (2014). Atualmente é professora e coordenadora do Centro Universitário Luterano de Palmas nos cursos de Comunicação Social e Psicologia.  E-mail: irenides@gmail.com