Dogville

Dogville: rabiscos de uma comunidade

Lars von Trier recriou um mundo bem real, ainda que sua cidade fosse um rabisco no chão, como as cidades criadas nas brincadeiras infantis. Dogville é formada por uma pequena comunidade pós quebra da bolsa de valores de 1929, ou seja, um povo que vive o fim de uma utopia fincada nos ditames das maravilhas e da indestrutibilidade do sistema capitalista. A comunidade que reside em Dogville parece saída de algum lugar bem familiar, talvez porque as agregações humanas não sejam assim tão diferentes.

Então, em meio a pessoas fracassadas, crianças domesticadas, mulheres e homens permeados por um ideal moralizante de suas vidinhas “mais ou menos”, surge Grace. Bonita, inteligente, sensível, mas só. A comunidade se sente superior àquela criatura graciosa e a noção de grupo dá certa segurança aos indivíduos, então no momento em que Grace adentra a cidade, ela percebe-se a mercê daquele povo, aparentemente simples e acolhedor. Tom, o escritor fracassado que a conduz na cidade, é uma figura mesquinha, que na busca pela história perfeita constrói um meio de ludibriar sua pequenez e sua paixão sem limites pelo sucesso e reconhecimento. Talvez dos personagens do filme, ele seja o que tenha menos empatia com o próximo, seja o mais egoísta membro da comunidade.

Ao intervir numa comunidade, o psicólogo necessita compreender o ambiente, conviver com as pessoas, saber o que move a comunidade, seus medos, seus ideais, suas verdades e, especialmente, suas mentiras. Um ponto comum nos agregados humanos é a questão do trabalho e como se dá sua natureza. Grace, para se aproximar das pessoas, aceitou a sugestão de Tom e entregou-se a pequenos trabalhos na comunidade. Tais trabalhos, mesmo que desnecessários inicialmente, foram se tornando essenciais para as pessoas e, vale ressaltar que tal dinâmica, de certa forma, sempre aconteceu no mercado, ou seja, as necessidades são criadas por meio de ações midiáticas, da cultura etc. Ou seja, criam-se as necessidades e, a partir disso, modificam-se as estruturas da sociedade, já que o trabalho sempre foi um norteador desta. Grace se pôs a serviço da comunidade evitando enxergá-la de fato. Se um psicólogo adentrar numa comunidade com esse mesmo pensamento corre o sério risco de também ser “usado” por esta, como o foi Grace.

Na visão crua de Lars von Trier, a comunidade mostra sua face ao entender o poder que tem em mãos, ou seja, ao descobrir que Grace é uma fugitiva. Assim, os pequenos trabalhos realizados por ela são intensificados. Várias são as exigências do grupo e, como Grace está tendo o conforto de ser acolhida no seio da comunidade, mesmo sendo claramente uma “infratora”, deverá agradecer à bondade humana, por mais estranha e contraditória que esta seja.

Um outro ponto evidenciado em Dogville, até pela própria estrutura do cenário, é a questão da coletividade ser mais intensa que o indivíduo. Mesmo no interior das casas é possível ver o coletivo, então cada gesto individual se faz importante na concepção do todo. Não há figurantes em Dogville, todos estão em cena o tempo todo. Isso também faz com que uma das imagens mais cruéis do filme tenha seu horror potencializado.

No momento em que Grace é estuprada, crianças brincam nas ruas, as pessoas se alimentam em suas casas, conversam animadamente sobre assuntos corriqueiros. Mas, ninguém vê. Um observador do aspecto cinematográfico do filme poderia dizer que apesar da não existência das paredes, segundo a concepção estrutural do diretor, há um ambiente fechado, logo eles não poderiam ver mesmo. No entanto, a mensagem que permanece e que causa constrangimento é o fato de que a comunidade sabe o que acontece, mesmo que não veja o momento do ato. Mas, às vezes, os grupos se fecham diante de um fato constrangedor, pois enxergar nem sempre é uma atitude coerente em um ambiente moralista, mas enganador.

  Tom, aquele que a certa altura do filme se mostra apaixonado por Grace, sabe do estupro, mas se cala, pois ele precisa da dor para ter a inspiração ideal para seu livro. No entanto, a história que irá lhe tirar da pobreza imaginativa em que vive, não vem. Porque não há dor em Tom, já que não há empatia. Na frieza na qual ele transita pelos espaços que compõem a comunidade, permanecem sempre duas palavras no papel, mas nenhuma história.

A comunidade mostra-se hábil na especialização da tortura. O homem estúpido de outrora consegue construir uma mirabolante máquina de encarceramento para manter Grace cativa e obediente. Presa, despida de quase toda a humanidade, ela fica à disposição da comunidade. Psicólogos podem também achar que estando à disposição das pessoas, estejam fazendo o que é correto, estejam contribuindo. Mas, só há contribuição, se há entendimento das ações e do seu retorno.

Não se pode dar a um grupo o caminho de uma felicidade imaginada por você. Pode-se, no máximo, contribuir na formação de um olhar crítico, pois o psicólogo não pertence à comunidade, ele vai embora. Quem fica tem que ter sido tocado pelo sentimento provocativo da vontade de mudar, de melhorar, de enxergar suas potencialidades, mas também suas fraquezas. O povo de Dogville errou, foi de uma crueza absurda, mas Grace também contribuiu para tal horror ao enxergar um tipo de gente que só existia em sua imaginação, ao pensar que poderia contribuir com aquele povo sofrível simplesmente por ser de uma classe superior, por ter uma visão de mundo mais “complexa”.

Ao final, vimos uma Grace com ódio, pois ela teve dificuldade em entender que o espelho que refletia o mundo que ela via, só refletia sombras. E sombras deturpadas pela parca visão que ela tinha do mundo “dos outros”. Ao entender que as pessoas por serem simples e miseráveis, não são, necessariamente, nem puras, nem boas, ela sentiu ódio e daí nasceu o desejo da vingança, sentimentos tão humanos, mesmo para uma Grace que se imaginava tão superior.

O cachorro foi poupado, porque o cachorro tinha motivos para odiá-la, tinha motivos para latir com ela. Já o povo de Dogville, maltratou-a sem motivos, fez dela uma espécie de propriedade da comunidade. Grace foi explorada, violentada, tiraram-lhe a humanidade e a “coisificaram” simplesmente porque tinham o poder para tal. Grace, filha de gângster, que imaginava transformar o mundo em um local melhor, que se sentia tão diferente de seu pai, já que pensava transformar a si mesma através da vivência numa sociedade simples, não resistiu à pressão de ver um mundo diferente daquele imaginado em seus devaneios altruístas, então o destruiu, pois nem sempre é possível suportar um outro diferente daquele que foi imaginado por nós.

Um psicólogo que intervém numa comunidade precisa compreender que ele e a comunidade não são meros objetos que em dado ponto irão sofrer uma intersecção. Tanto um quanto o outro têm desejos, medos, regras morais, pré-conceitos e um conjunto particular de verdades e mentiras. O trabalho na comunidade requer um amadurecimento da ideia de que não há um salvador que irá livrar o povo do sofrimento, nem que o grupo esteja sofrendo os desígnios de um Deus (ou um demônio) cruel e implacável, mas sim de que tanto o psicólogo quanto a comunidade devem aprender juntos, devem buscar uma colaboração mútua.

Assim, quando o psicólogo partir, não estará deixando para trás uma imagem decepcionante de um povo fraco e infeliz, nem a imagem reconfortante de um povo simples que precisa dos seus préstimos e seu eterno amor. O que ficará para trás, se o trabalho for bem desenvolvido, é uma comunidade mais consciente de seu lugar no mundo, mais crítica, menos submissa e, talvez, mais humana.

Nota: Texto apresentado na disciplina Psicologia Comunitária (Curso de Psicologia / CEULP). O ensaio em questão teve como premissa a realização de uma analogia entre a intervenção de um Psicólogo em uma comunidade e a entrada de Grace em Dogville.

FICHA TÉCNICA:

DOGVILLE

Ano: 2003
Direção: Lars Von Trier
Roteiro: Lars Von Trier
Elenco: Nicole Kidman, Harriet Andersson, Lauren Bacall, Jean-Marc Barr, Paul Bettany
País: França

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.