Louco Para Ser Normal: sanidade ou loucura, eis a questão

“A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal”
                                                           Raul Seixas

ADAMS, Phillips. Louco para Ser Normal. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

Usualmente, adjetivamos as pessoas como loucas, normais. No cotidiano, utilizamos estas classificações, quando as pessoas desempenham comportamentos inesperados ou esperados socialmente, respectivamente. Apesar de utilizarmos estes julgamentos, não sabemos ao certo o que realmente venha ser loucura e sanidade e também porque a fronteira entre a loucura e a sanidade é tênue, o que dificulta a conceituação.

O The New York Times afirma que Phillipe Adams, o autor do livro Louco para ser normal, conseguiu transformar a psicanálise em poesia por meio da tentativa de desconceituar a sanidade e a loucura nesta produção. A fim de realizar este trabalho, o autor busca nos dicionários e nas relações humanas para explicar a construção destes conceitos.

Desta maneira, no primeiro momento, Adams traz que a palavra sanidade é uma palavra inglesa que significa “sobre o corpo saudável”. Já um dicionário inglês define o louco como “perturbado da mente, enfraquecido do entendimento, delirante sem febre, expressão de desordem na mente, dominado por desejo violento ou irracional”. Apesar de trazer estes conceitos, que de certa forma depreciam a loucura, ele entende que não somente estas características devem ser levadas em consideração, já que os sujeitos que assim os classificamos, expressam os seus sentimentos e pensamentos por meio de símbolos, sendo, pois, sujeitos livres.

Neste processo de conceituação, o autor começa apresentar características paradoxais entre a sanidade e a loucura a partir dos olhares lançados a estes conceitos, tais como:

  •  A sanidade é moderada e a loucura é o excesso;
  •  Os sãos podem conviver com as pessoas e o louco não;
  •  A loucura é teatral e a sanidade é a realidade;
  •  A loucura apresenta atos inaceitáveis e o são desenvolveu o autodomínio.

Após apresentar a maneira que o louco é descrito na literatura e nas relações humanas, Phillipe começa discutir que aquilo que temos como sanidade é algo criado e mantido pela sociedade. Sendo assim, ele sinaliza que a cultura pode vir a corromper a real sanidade. Para o autor, a loucura é o caminho a verdadeira sanidade. Já que assim se pode encontrar com as necessidades, desejos, sentimentos, pensamentos do próprio individuo. Esta experiência faz com que o ser humano possa ser autêntico consigo.

O autor define a loucura como algo privilegiado à vivência do ser humano no mundo. No entanto, a população tem medo de experimentar esta condição. E como fuga deste fenômeno consultam psicólogos, psiquiatras, padres, pastores, a fim de se ajustarem aos contratos sociais. Será que a loucura é realmente algo bom, como afirma Phillipe Adams?

Na verdade, a discussão sobre este assunto não deve ser alicerçada em valores como bom ou mal, mas deve ser percebido que a sociedade valoriza a produção de subjetividades iguais. Desta maneira, o diferente não é valorizado.

Apesar disto, a sociedade mantém projetos e discursos a favor da inclusão social, da aceitação da diferença. Sendo assim, qual o real objetivo desses discursos, se a sociedade não os valorizam?

Neste caminho, Adams e os percursores da Antipsiquiatria consideram que os reconhecidos pela sociedade com normal são cúmplices da desumanização e contra a vida. Pois entendem que o cumprimento de regras, realizados por estes, impedem de que vivam em plenitude, de se conhecerem e lidarem consigo.

A partir dos aspectos apresentados pelo autor, questiono ainda se é o são ou o louco que vive encenando, representando. O são fica cumprindo regras, reprimindo desejos para ser aceito pelas pessoas. Desta maneira, os sujeitos têm sido no mundo aquilo que os outros esperam, e não aquilo que é.

Neste sentido, Maslow cria uma pirâmide que é nomeada com o teu nome, na qual hierarquiza as necessidades humanas, sendo ela composta pelos seguintes aspectos: Fisiológicos, Segurança, Afetivosocial, Autoestima e Autorealização. As primeiras necessidades expostas dizem das realidades básicas para o ser humano subsistir, já o terceiro é a ponte de ligação entre a subsistência e o existir pleno. Além disto, o fator afetivo-social refere-se à necessidade de ser aceito pelas pessoas a fim de entrar em algum grupo. De acordo com esta realidade, o sujeito se propõe a suprimir os seus desejos para se tornar aceito pelo outro. O aspecto proposto por Maslow pode ser visualizado também nos perfis das redes sociais, visto que aquilo que é expresso nas fotos, comentários, status, tweets são as configurações que o sujeito deseja ser percebido. Ou seja, aquilo que visualizamos nas redes sociais são produções dos alteregos a fim de que sejam aceitos na sociedade ou em tribos. Afinal, quem é o são e o louco?

Aparentemente, a intenção do autor, com esta produção, é definir a loucura e a sanidade. Tenho dúvidas se realmente ele consegue fazer isto. Porém, por meio da sua escrita acredito que ele desperta no leitor questionamentos de como estamos sendo no mundo, o que realmente é loucura e sanidade. Penso, que as interrogações e reflexões promovidas, sejam importantes no processo da construção de idéias, mais do que apresentação fechada de conceitos.

Mariana Miranda
Psicóloga, especializada em Gestão de Pessoas pela UFT. Membro do Conselho Regional de Psicologia - 23ª Região.