Transumanismo e imortalidade em “Robocop”

O transumanismo está lidando com questões como
“qual poderia ser o futuro da humanidade?”, e
“como podemos alterar este futuro?”

 

O novo trabalho do diretor Alexandre Padilha (Tropa de Elite) – que marca a sua entrada em Hollywood – estreou com boa bilheteria no Brasil, apesar da pouca aceitação nos Estados Unidos. Robocop retrata um futuro não muito distante e já amplamente discutido pela Filosofia e pela Ciência em que a humanidade tem que conviver com “drones” não tripulados e robôs que desenvolvem as mais variadas funções. O mote é se estas Inteligências Artificiais Generalizadas (IAG)¹ podem ser usadas para garantir a segurança dos cidadãos norte-americanos, sendo que um grupo dominado pelo setor industrial defende a imediata inserção social (dos robôs e “drones”), enquanto outro grupo resiste, ao afirmar que falta às máquinas um componente tipicamente humano: a empatia.

Opositores aos planos da superpoderosa empresa Omnicorp, detentora da tecnologia, dizem que, caso as máquinas saiam às ruas para combater o crime, ao decidirem sobre a vida e a morte de seus alvos, irão basear-se em estruturas “frias”, rígidas, que não correspondem à complexa rede de elementos disponíveis no repertório humano. É daí que surge a ideia da Omnicorp de criar uma máquina híbrida com o ser humano, uma máquina que esteja a serviço da condição humana, que seja sua extensão (transumanismo²), e não um mero equipamento de apoio.

Para “fechar” as peças do enredo, surge o policial Alex Murphy (Joel Kinnaman), que milagrosamente sobrevive a um atentado, mas que só vê chances de ter continuidade na vida caso aceite o ambicioso projeto da empresa. Há, neste movimento, um dos temas mais recorrentes dentro da ficção científica e da própria filosofia, o da “humanização” da máquina. E é aí onde está o X da questão: ao abordar o tema sempre controverso das Inteligências Artificiais, o filme acaba por colocar o homem (e não a máquina) no centro das discussões.

 

De acordo com o filósofo e neurocientista do Departamento de Filosofia da Universidade de Oxford, na Inglaterra, Anders Sandberg, o uso “responsável e racional da tecnologia e a desejabilidade de mudarmos radicalmente a condição humana com a tecnologia”, o chamado transumanismo, é algo que está em franco desenvolvimento, hoje, em diferentes partes do mundo.

Para Sandberg, a tecnologia ordinária altera, em alguma medida, o modo como vivemos, mas ela ainda está atrelada a processos restaurativos (uma prótese, por exemplo, é usada para substituir um dado membro do corpo). No caso das tecnologias transumanistas, como as abordadas em Robocop, “há uma mudança da natureza humana”, já que há um esforço que incide diretamente na extensão da vida, na “transferência e reprojeção de nossas mentes, mais além ainda”, fala Anders Sandberg, em recente entrevista à Revista Filosofia Ciência & Vida. Há, no fundo, uma tentativa de se atingir a imortalidade através da tecnologia.

Em outras palavras, o transumanismo está lidando com questões como “qual poderia ser o futuro da humanidade?”, e “como podemos alterar este futuro?”. Obviamente, isso tudo esbarra em questões éticas. Entre os mais eminentes pensadores mundiais, há os defensores da contingência humana. Para eles, esta particularidade é o que, de fato, define o “ser” humano. Querer inverter esta ordem, então, seria subverter um processo que deveria – para estes pensadores – ocorrer de forma natural. O principal dos eventuais problemas seria uma nova forma de eugenia³, já abordado aqui no (En)Cena.

Peter Singer, por exemplo, defende que a busca desenfreada pelo conhecimento apriorístico – o que os teólogos dizem ser possível apenas a Deus – é, em alguma medida, uma expressão patológica; essa busca, no fundo, renega as imperfeições humanas, transformando a condição diferente “cada vez menos tolerada e suscetível de ser aceita como uma variação normal da humanidade”. Mas Anders Sandberg, ao contrário, não acredita que o avanço tecnológico e o transumanismo resultem em “uniformização” e/ou acentuação de divisões sociais. Para o pesquisador inglês, “um futuro superinteligente conteria diversidade mental”.

 

 

De acordo com Sandberg, a extensão da vida com a ajuda de tecnologias “é moral e pragmaticamente importante”. Ele argumenta que o processo irá alterar sobremaneira a sociedade, “mas vai levar um bom tempo para as experiências de laboratório passar a ser utilizadas em terapias de fato”. De qualquer forma, se comparadas às mudanças que ocorrem de maneira “natural”, quando houver a consolidação das IAGs, estas transformações passarão a acontecer numa velocidade estrondosa.

Mas o próprio Sandberg admite, também, que o mundo (Physis4) demonstra constantemente que “tem mais poder computacional do que nossos cérebros – segue que nós devemos esperar surpresas”, para explicar que, apesar de defender uma emulação do cérebro por softwares, esse “melhoramento” pode enfrentar barreiras na contingência geral expressa na vida. Esse é, portanto, um desafio a ser superado num futuro muito distante.

 

 

Em suma, há em toda esta discussão levantada tanto pelo filme quanto por filósofos e pesquisadores (como os do Departamento de Filosofia da Universidade de Oxford), uma tentativa de que o “contínumm mental” (o que alguns, sobretudo influenciados pelo Cristianismo, vão chamar de alma) não fique à mercê apenas de especulações metafísicas. Procura-se, no fundo, criar mecanismos tecnológicos para que se possa preservar indefinidamente tais estruturas (mentais). O objetivo é ambicioso e ainda conta com muitas incertezas. Afinal, como já apontava Michel de Montaigne, é “muita arrogância o homem querer apossar-se irrestritamente dos atributos da criação”. De verdadeiro, no momento, só há o fato de que a vida é bem mais dinâmica e imprevisível do que se possa imaginar, e que a morte, essa sim, é ainda uma certeza absoluta.

Notas:

¹- IAG significa Inteligência Artificial Generalizada; trata-se de inteligências que podem dar conta e solucionar uma ampla gama de problemas variados, e que possuem um desempenho semelhante ou superior ao humano nessas tarefas.

²- Transumanismo

³ – Galton definiu eugenia como “o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente”. Fonte: Wikipédia – disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Eugenia acesso em 23/03/2014.

4– Physis, segundo os filósofos pré-socráticos, é a matéria que é fundamento eterno de todas as coisas e confere unidade e permanência ao Universo, o qual, na sua aparência é múltiplo, mutável e transitório. Fonte: Dicionário de Filosofia. MORA, José Ferrater – São Paulo: Martins Fontes, 2001.

REFERÊNCIAS:

SINGER, Peter. Fazendo compras no supermercado genético. Disponível emhttp://moodle2.catolicavirtual.br/mod/url/view.php?id=553145  [com senha]. Acesso em 29/08/2013.

MONTAIGNE, Michel de. Ensaios – Livro II – Montaigne (Disponível emhttp://moodle2.catolicavirtual.br/mod/resource/view.php?id=554550  [com senha]. Acesso em 21/08/2013.

ROBOCOP. Disponível em http://www.cinemais.com.br/filmes/filme.php?cf=5371 – Acessado em 23/03/2014.

Prospectos da pós-humanidade: entrevista com Anders Sandberg. Revista Filosofia Ciência & Vida, Ano VII, número 90, janeiro de 2014, páginas 5 a 13.

FICHA TÉCNICA:

ROBOCOB

Elenco: Gary Oldman, Michael Keaton, Abbie Cornish, Jay Baruchel, Joel Kinnaman, Samuel L. Jackson
Direção: José Padilha;
Duração: 108 minutos
Classificação:  12
Gênero: Ação Drama Ficção Científica Policial
País: Estados Unidos da América

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).