Vida e Sobrevivência – O Solista

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O filme “O Solista” de Joe Wright conta o encontro entre duas vidas em nova York: um jornalista e um morador de rua. O jornalista escreve para uma coluna de um jornal americano sobre histórias de vidas, existências singulares. Ao encontrar com Nathaniel Ayers, o jornalista Steve Lopez se estranha a ponto de cogitar a escrever sobre sua vida. Do estranhamento, parte para a pesquisa sobre a vida do morador de rua baseando-se em uma informação dada pelo próprio Ayers: estudou na escola de artes performáticas Juilliard, de Nova York. De uma pista a outra o jornalista resolve se meter na vida de Nathaniel e esse o aceita, mesmo possuindo maneiras bastante diferentes de viver, cada um, a própria vida e o encontro que tiveram.

Tentarei comparar a forma de cada um se localizar e existir no mundo a partir de duas estruturas que são usadas para definir organizações. Parto do pressuposto de que as organizações são reflexos das relações do homem com o mundo, em especial reflexos da relação do homem com o próprio homem. As duas categorias que usarei serão: a estrutura linear e a estrutura matricial.

Antes de iniciar a comparação, acho importante dizer que essa minha análise refere-se ao momento de vida de quando os dois personagens se encontram. Portanto, avalio a partir de categorias que o filme ressalta e que se cruzam com as que uso para avaliar a vida de forma geral, a minha inclusive. Esse comentário é apenas para deixar claro que enquanto percebo maneiras de ser dos personagens, vejo também um fluxo na vida de cada um deles. Pois então vamos à comparação.

Lopez orienta-se pela vida em casa, com estabilidade econômica e com badalações de premiação próprias de seu esmigalhado ego. Esmigalhado, pois especializado, repartido várias vezes, portanto; além de vazio de sentido entre os diversos papéis sociais: seu casamento está suspenso e sua vida profissional entediada.  A existência de Lopez, a meu ver, funciona de forma linear: suas decisões são estruturadas sob uma única linha de subordinação e os elementos subordinadores são a razão científica, a praticidade e o utilitarismo. Suas linhas formais de comunicação são geralmente com fluxo descendente: para isso basta-nos pensar na forma como se incomoda com a vida de Nathaniel; morar na rua é simplesmente desumano e ele decide interferir na vida de seu novo amigo; o sentido descendente de comunicação é tal que, na relação com Nathaniel, o morador de rua o coloca na posição de Deus e ele a ocupa…tenho a impressão de que, às vezes, ele realmente pensa que o pode ser. Em cada sua relação, Lopez executa tarefas específicas e bem definidas, da maneira como se espera socialmente viver tais papéis sociais, de escritor, esposo, empregado e etc. Além disso, Lopez não faz ligações entre os papéis sociais; todos são bem divididos, como o seu próprio pensamento. Em suma, ele parece num movimento de vida gerado por angústia, pela inquietante falta de sentido da vida fast-food, prática e descartável. Na posição de espectador da vida, portanto passivo à vida, construiu o típico papel de adulto; vive entrando e saindo de responsabilidades; cultiva parcialmente os afetos que o mundo lhe trás; o casamento está em suspenso. Lopes cultiva suas relações no esquema fast-food, de forma prática e descartável. Junto a isso, tive também a impressão de que, no momento do encontro com Nathaniel, era um homem à procura de sentido à vida, inquietado com o próprio modo de ser.

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Nathaniel vive o pensamento em forma matricial, da matemática. A existência e o pensamento matricial funcionam não pela divisão de papéis sociais, mas por projetos temporários (cada elemento da matriz) que se conectam de forma a compor a matriz, no caso Nathaniel. As relações existentes na matriz são horizontais, verticais e transversais. O morador de rua orienta-se pelo fora da casa, pelo barulho da cidade, pela sobrevivência… seus lugares de dormir são vários. Sua referência é a composição, no caso, da música. Aprender instrumentos é o seu projeto de vida. Ficar dentro de um apartamento é simplesmente, para ele, sem sentido nenhum. Parece também procurar sentido na vida, mas sua busca não nasce da angústia, mas, antes (e a meu ver) da composição. Composições são as formas pelas quais ele se comunica. A história oficial de Nathaniel diz que ele desenvolveu esquizofrenia quando estudava na escola de artes performáticas Juilliard, de Nova York. A partir disso, a meu ver, passou a se orientar pelo universo e não pelas casas e pelos papéis sociais.

Desse encontro, os dois personagens modificam-se. Lopez fica maravilhado com a vida e a existência de Nathaniel. Dá glória por conhecer uma pessoa que consegue vivenciar de maneira tão visceral a arte e a contemplação da vida, satisfeito, materialmente, com aquilo que ele consegue carregar nas costas. Nathaniel vive o encontro com Lopez da mesma maneira como o faz com a música: visceralmente, não com os seus órgãos, mas sendo um órgão apenas do sistema orgânico maior chamado planeta Terra.

Minhas tergiversações, aqui expostas, partem do pressuposto que oriento-me, pelo menos supostamente, por “maneiras de ser” e “jeitos de pensar” que dão um sentido ao meu pensamento e que, a depender de como essas linhas ligam-se, o tal sentido pode ser vivenciado como único (daí a nação de sujeito) ou como divergente ou como múltiplo ou como outras infinidades de outras “maneiras de ser” componentes desse peculiar espécime: o Homo Sapiens ou Homo Faber (não importa a nomenclatura, no fim é isso mesmo o que nos fica: os nomes e não as pessoas). Enfim, o ponto em quero chegar é que pus-me a pensar em “jeitos de pensar” que orientam e, ao mesmo tempo, são orientados pelo todo integrado que é a pessoa de Nathaniel. Nesse exercício do pensamento, orientado pela simples questão “Como?” e por um processo indescritível que insistimos chamar “empatia”, cheguei a formulações gramaticais e sintáticas. Ou seja, estive preocupado com a relação que se faz entre o sujeito e qualquer parte do predicado, nas possíveis “maneiras de ser” e “jeitos de pensar” que suponho existir não somente em Nathaniel  (e que por isso me ligo a ele) como em qualquer pessoa que possui o desenvolvimento e condições suficientes para conceber um habitat em que se sente, cada uma à sua maneira, a segurança ou insegurança no mundo, mesmo que o habitat seja a Terra inteira ou mesmo o universo. Aliás, o estado de saúde deveria ser definido a partir da sobrevivência e não da vivência (uma “maneira de ser” que supera, em outras formas, a sobrevida: aquela que tenho quando cumpro apenas as minhas funções básicas de comer, beber, urinar, cagar, transar e dormir – essa lista é a minha). Acho isso, pois, quando o definimos por um tipo de vivência, ensinamos e somos ensinados que devemos achar na vivência a nossa sobrevivência, sem nos ensinar contudo a sobreviver que é anterior à vida. Não há sobrevivência sem cultivo para termos o que comer e beber, temos que ter certas ordens para a cagança e para o urinol, o sexo garante a sobrevivência, independente da questão do prazer e da Ética humana que discute o como devemos lidar com animais e objetos.

Se os supermercados fecharem muita gente morre de fome; as nossas milhares de emoções (coisas da vida e não da sobrevida) conseguiram dominar até a agilidade do nossos estômagos e intestinos que nem cagar e beber sabemos fazer mais de maneira “natural” e não sintomática; o sexo é condição única e primeira para a sobrevivência, independente da vivência sob a qual se reveste; buscar mais segurança para dormirmos se relaciona menos com o que proibimos e punimos do que com o que e como educamos. São poucos os que confiam dormir a céu aberto, são os donos das ruas, vivem nelas, tanto cuidam quanto degradam-nas, degradam talvez o mesmo tanto que nós que vivemos em casas, mas facilmente cuidam mais.

Resumindo, não sabemos sobreviver e isso é essencial para a vida. Por isso a sustentabilidade é realmente uma forma política e filosófica de pensar e existir, tendo em vista a junção entre uma vida que pode ser prática, mas não rápida, pode ser bela e trágica e não somente dramática, pode ser mais sincera (digo pelo fato de os papéis que se guardam e que se registram, em cartórios e etc. serem de uma veracidade muito maior do que as promessas e acordos que faço no mundo com o meu corpo próprio presente); enfim, a vida pode ser sim com condições básicas pra todo mundo sem tanto sofrimento, sem tanta correria e sacanagem, é assim que penso um mundo que seja sustentável: onde todos cultivam e reciclem, cagando e bebendo portanto, dormindo bem, na hora que quiser, quando quiser, no cumprimento de deveres que são firmados no ingresso ao mundo do trabalho doméstico e não doméstico que deve ocorrer já na infância, compondo, nos ambientes diversos, espaços de cultura infantil com o incentivo à cultura oral e comunicacional no sentido de existirem práticas de comunicação como modos de ser e não com o objetivo de jeitos de ter as coisas, ou seja, com o incentivo ao professor-iniciador. Gostamos de coisas!!!!!!!! Sabemos classificá-las com um grau de maestria, obsessão, pedância e arte inigualáveis, pois únicos na Terra com essa incrível habilidade de gostarmos muito de coisas, parafernálias em geral. E nisso tudo o que há que conte, por exemplo, sobre como somos pais? As pessoas não falam como são pais, as experiências que mais vejo nos cinemas e livros são frustradas e eu quero ser pai. Ainda bem que meu pai e minha mãe são exemplares e, por eles, oriento-me nessa vivência que ainda terei em minha vida, ou seja, não sei o que fazer, mas sei em quem confiar; urino e cago o que tenho pra urinar e cagar, durmo menos do que quero, mas descanso com o que durmo; cultivo mal, mas iniciante ao menos. E sobre as questões sexuais não me cabe expor, mas vou muito bem, obrigado. Posso viver no mundo da lua, mas meus pais e a vida me ensinaram a sobreviver. Nunca fui um estudante aplicado, mas aprendi, aprendo e aprenderei viver e sobreviver. Encerro esse parágrafo aqui apenas para voltar ao filme. Como eu disse, tergiversei.

O “jeito de pensar” que, na verdade é meu, mas que acho que também esteja em Nathaniel é resumido pelas seguintes afirmações: se um inseto morre dentro de um lugar fechado e artificial eu também posso morrer; uma bituca de cigarro suja o planeta e, portanto, o quanto mais rápido tirarmos, melhor; o fato de Lopez lhe prometer dar cordas de violino e não cumprir é um absurdo, pois promessa só se encerra depois que se cumpre e o corpo que promete é a prova única e insubstituível para aquele mesmo corpo que promete. Achei que essas maneiras de pensar são bastante viáveis em meu mundo de dentro da casa. Nathaniel vive “jeitos de ser” que buscamos viver e encontrar sentido, mas não nos entregamos, pois nos entregamos a outros. Eu, aos de escritor. Ele, de regente na e da cidade.

Portanto, gostaria de escrever somente mais uma coisa: o filme é muito interessante para se discutir a Reforma Psiquiátrica norte americana, chamada Psiquiatria Comunitária (que, mesmo que atualmente criticada, compõe a base histórica, técnica e conceitual da Psicologia Comunitária). A concepção de Lopez quanto à possibilidade de tratamento psiquiátrico para Nathaniel (o tratamento descrito com detalhes por Lopez resume-se a um conjunto de administração de drogas por 15 dias para que Nathaniel enxergue o desvio em que vive, tanto social quanto pessoalmente, adoentado tanto de uma forma quanto de outra). O grupo morador de rua, nos EUA (podemos ver isso claramente no belíssimo filme “Como dividir os sonhos”), é considerado um grupo doente cujas regras devem se desfazer em prol de regras socialmente mais aceitas, no caso as médicas, as psicológicas e as etiquetas. E, da mesma forma que um doente é reabilitado a partir da vida em conjunto com os grupos hospitalares que reproduzem as regras dos grupos de fora, os grupos sociais também devem promover o mesmo movimento uma vez que a doença, na Psiquiatria Comunitária, adquire um status social além de biológico. Deve-se tratar o paciente e sua família e tais famílias são as que compõem os grupos adoentados. (A essa crítica ver com mais detalhes em Joel Birman e Jurandir Freire Costa no artigo “Organização de instituições para uma Psiquiatria Comunitária”).

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Existem milhares de análises possíveis para esse filme. Essa é a minha. Assista ao filme e conte a sua própria história.


FICHA TÉCNICA DO FILME

O SOLISTA

Diretor: Joe Wright
Elenco: Jamie Foxx, Robert Downey Jr., Catherine Keener, Rachael Harris
Produção: Tim Bevan, Jeff Skoll, Eric Fellner, Patricia Whitcher
Roteiro: Susannah Grant
Fotografia: Seamus McGarvey
Trilha Sonora: Dario Marianelli
Duração: 109 min.
Ano: 2008
País: EUA/ França/ Inglaterra
Gênero: Drama
Cor: Colorido
Distribuidora: Paramount Pictures Brasil
Estúdio: Dreamworks / Universal Pictures
Classificação: 12 anos