Vida Líquida: consumo, velocidade e lixo na era da incerteza

A vida líquida, assim como outras obras de Bauman, traz uma reflexão apoiada na revisão de alguns conceitos (como cultura, progresso, amor, medo, consumo) presentes e em constante mutação na sociedade atual. São vários livros permeados pela mesma premissa: o mundo líquido-moderno. Há fôlego para tantos desdobramentos de uma mesma temática? Sinceramente, não sei. No momento, estou preocupada com “a parte que me cabe deste latifúndio”, vamos, então, à Vida Líquida.

The Deluge by Gustave Doré

E aconteceu que passados sete dias, vieram sobre a terra as águas do dilúvio.
Gênesis 7:10
E expirou toda a carne que se movia sobre a terra […]. Tudo o que tinha fôlego de espírito de vida em suas narinas, tudo o que havia em terra seca, morreu.
Gênesis 7:21-22

A palavra ‘vida’, segundo uma das definições apresentadas no dicionário Oxford, pode ser compreendida como o período entre o nascimento e a morte. Então, refletir sobre a vida líquida é compreender como se dá o movimento das variáveis, os elementos em trânsito entre as entradas e saídas dentro de um período de tempo que marca uma determinada existência.

Para Bauman, “a vida líquida é uma vida precária, vivida em condições de incerteza constante” (p.8). Mas, parece-me que a vida sempre foi assim, uma série finita de incertezas permeada por artifícios capazes de produzir um sentimento relativo e breve de estabilidade.  Mas, por que essa fluidez parece agora tão mais evidente?

Talvez seja porque as inovações tecnológicas, os governos, a mídia e o mercado produziram um ambiente em que é cada vez mais fácil “apagar, desistir, substituir”. E a velocidade com que isso ocorre é que dá à vida esse caráter inconstante. É como se cada pessoa estivesse eternamente à procura de algo que possa ser seu novo objetivo ideal (uma espécie de Santo Graal), mesmo sem compreender porque havia buscado o já ultrapassado objetivo que ainda tem em mãos. Assim, a rapidez com que as variáveis mudam é condição necessária e, quem sabe, suficiente para a sobrevivência no mundo líquido-moderno.

A velocidade com que o indivíduo transita entre o amor e o desapego, entre a relevância e o descaso, entre o moderno e o ultrapassado, entre o essencial e o desnecessário provoca um aumento exponencial do lixo. Cada pessoa carrega consigo seu lixo particular, que precisa ser despejado em algum lugar. E isso acontece através da ajuda dos mais diversos meios, desde terapias e pílulas mágicas até religião e sistemas educacionais.

Crédito: http://www.mymodernmet.com/photo/trash-flower

O lixo é o principal e comprovadamente o mais abundante produto da sociedade líquido-moderna de consumo. […] Isso faz da remoção do lixo um dos dois principais desafios que a vida líquida precisa enfrentar e resolver. O outro é a ameaça de ser jogado no lixo. […] A vida talvez seja sempre um ‘viver-para-a-morte’, mas, para os que vivem na líquida sociedade moderna, a perspectiva de ‘viver-para-depósito-de-lixo’ pode ser a preocupação mais imediata e consumidora de energia e trabalho. (BAUMAN, p. 17, 18)

Essa preocupação com esse estado fluido que constitui a vida em sociedade não é uma novidade. No século XIX, por exemplo, Karl Marx já mostrava em suas reflexões, especialmente em sua principal obra – “O Capital” -, uma inquietude em relação ao caráter instável e extremamente dinâmico do capitalismo. Mostrou que através das inovações tecnológicas (e a tecnologia, para ele, era considerada um elemento endógeno das relações produtivas) era possível criar monopólios temporários, que seriam responsáveis por mudanças substanciais na dinâmica do sistema.

Na primeira metade do século XX, o economista Joseph Schumpeter adicionou à questão da inovação tecnológica, a figura do empreendedor. O empreendedor, nesse contexto, é um dos principais responsáveis por dinamizar os processos econômicos através de inovações.  A partir disso, Schumpeter cunhou a expressão “destruição criadora”, que descreve o modo como o processo de inovação pode destruir empresas, produtos e modelos de negócio. Assim, segundo Tigre (2006), se para os economistas teóricos o problema visualizado era como o capitalista administra as estruturas existentes, para Schumpeter a questão crucial era em como ele as cria e destrói.

Sleep Elevations by Maia Flore

‘Destruição Criativa’ é a forma como caminha a vida líquida, mas o que esse termo atenua e, silenciosamente, ignora é que aquilo que essa criação destrói são outros modos de vida e, portanto, de forma indireta, os seres humanos que os praticam. […] Veem ‘as novidades como inovações, a precariedade como um valor, a instabilidade como imperativo, o hibridismo como riqueza’. (BAUMAN, p.10)

O imperativo da velocidade parece ser a tônica do século XXI. E para ser veloz tem que ser leve. Logo, faz-se necessário abrir mão de muitas coisas, e até (ou principalmente) de muitas pessoas. Em contrapartida, parece que nunca estivemos tão conectados, temos uma lista infindável de contatos em vários tipos de redes sociais virtuais. Podemos vivenciar a experiência de umablogueira na ilha de Cuba, o resgate de um cachorro em uma rodovia no México ou os últimos dias de um doente terminal.  A velha expressão “carrego o mundo nas costas” parece fazer cada vez mais sentido. A questão é: que mundo é esse? Que é pesado e insustentável, mas, paradoxalmente, leve e fora do alcance.

O Ser e o Tudo


Numbers Man by Tariq Yousef

O “tudo” que é exposto nas prateleiras virtuais infinitas talvez seja o gatilho para uma série de patologias no mundo líquido-moderno. “Numa feira global em que receitas de individualidade são vendidas no atacado” (BAUMAN, p. 29), já não basta mais ter um tênis da marca X, ou um carro do último ano, tem-se que ter a ilusão de que o tênis e o carro foram criados adequadamente ao seu perfil.

No século XX havia um limite para as prateleiras. Esse limite era o espaço físico dos departamentos. No virtual, tal limite perdeu o sentido. O mercado se mobiliza cada vez mais em produzir objetos que se adequem aos mais diferenciados perfis. Então, se você for um solitário colecionador de miniaturas em cristal de galinhas de angola, poderá encontrar na rede um ambiente para troca e compra desses artefatos, bem como aqueles que consomem um tipo de literatura bem específica também poderão fazer parte do final da cauda da curva de demanda, ou seja, mesmo poucos terão importância. Desta forma, sua individualidade será mantida, pois o mercado de nichos, conforme pode ser observado no Livro “A cauda longa”, de Anderson (2006), é tão, ou mais importante, que o mercado das massas.

Clone Man by Peter James

… quando a individualidade é um ‘imperativo universal’ e a condição de todos, o único ato que o faria diferente e portanto genuinamente individual seria tentar – de modo desconcertante e surpreendente – não ser um indivíduo. (BAUMAN, p. 26)

Essa constatação de Bauman é uma ironia provocativa à condição humana atual em relação a um de seus pontos mais frágeis e mais “preciosos”: sua individualidade. Vimos constantemente nas manifestações sociais, nas promessas de produtos das grandes empresas, nas diversas mídias de entretenimento, que somos importantes e únicos, e que o objeto X foi feito especialmente para nós, assim como o objeto Y já não é mais digno de nosso perfil cool. Em um ambiente como esse, quem ousa ser um igual, realmente, pode se tornar um contraventor. Talvez o “igual” do século XXI seja o equivalente ao sertanejo do Euclides da Cunha, ou seja, “antes de tudo, um forte”.

Querer é poder. E quando existe demanda, a oferta não demora a aparecer. Em nossa sociedade de indivíduos que buscam desesperadamente sua individualidade, não há escassez de auxílios, consagrados ou autoproclamados, que (pelo preço certo, é claro) se mostrarão totalmente dispostos a nos guiar pelos calabouços sombrios de nossas almas, onde os nossos autênticos ‘eus’ permanecem supostamente aprisionados, lutando para escapar em busca da luz. (BAUMAN, p. 28) 

Livros de autoajuda, Física Quântica para explicar a alma, seitas, religiões, empresas, Estado, mídia, partidos políticos e indústrias farmacêuticas buscam, em algum nível, ser uma espécie de guia para esse desejo tão humano da individualidade. Assim, através da fé ou da química, de discursos ou de um produto espetacular, essas entidades procuram sustentar que há relevância na existência de cada um. A questão é que esses elementos em demasia podem potencializar a existência de novas doenças, propiciando o surgimento de novas categorias de transtornos e movimentando, ainda mais, a indústria farmacêutica e outras vertentes do mercado.

Agora a questão não é somente curar-se de um mal, mas curar-se de um mal vendido e promovido como um bem.

O ser diante do tudo deseja, por uma questão de sobrevivência, salvaguardar sua identidade. Para tanto, segundo Bauman, oscila entre “as extremidades da individualidade descompromissada e da pertença total” (p. 44).  É como se tivesse que lidar com o desejo da liberdade, ainda que “assombrada pelo medo da solidão” e a necessidade da segurança, permeada constantemente pelo “pavor da incapacidade”.

Vida de Consumo

Para Bauman, “a vida líquida é uma vida de consumo” (p. 16). Assim, objetos e pessoas para manterem-se em foco precisam estar em constante movimento, o primeiro a partir de inovações incrementais, a segunda na agregação de novas competências e habilidades.

O termo “educação continuada”, tão discutido, promovido e, até mesmo, vendido por vários atores do sistema educacional ou do Governo, tem em sua base reflexões profundas que vão desde a ampliação da autonomia do indivíduo até o aviso insistente da necessidade de adequação a um mercado em movimento que envia o ultrapassado para a margem. O que é paradoxal, nesse contexto, é que algumas das maiores inovações que tivemos nos últimos tempos (relacionadas à informática, por exemplo) vieram da margem.

The Surreal Landscapes by Vladimir Kush

Precisamos da educação ao longo da vida para termos escolha. Mas precisamos dela ainda mais para preservar as condições que tornam essa escolha possível e a colocam ao nosso alcance. (BAUMAN,p. 166)

Viver deslizando por águas muitas vezes desconhecidas, já que a água é corrente e dá a impressão de que nunca estamos imersos no mesmo contexto, apesar de que tudo pareça sempre igual (Reductio ad absurdum), é viver no limite. E isso significa, em alguns aspectos, manter-se em constante autoexame e autocensura, pois o mais complexo na vida liquida é criar meios que permitam estar satisfeito consigo mesmo. Assim, na reflexão de Bauman, “a sociedade de consumo consegue tornar permanente a insatisfação. […] O que começa como necessidade deve terminar como compulsão ou vício” (p. 106).

A “síndrome consumista” é promovida ainda na infância, pois em um mundo em que a presença dos pais parece existir em fragmentos cada vez menores, por que os brinquedos e o afeto seriam permanentes?

Shopping Cart by Dran

É justamente por causa desse tempo de dedicação tão diminuto que alguns pais da modernidade líquida tendem a buscar novas formas de compensação, alimentando ainda mais o consumo e a ansiedade, o excesso e a redundância que acompanham a produção do lixo nosso de cada dia.

E não é desejo da sociedade de consumo reduzir essa ansiedade, muito pelo contrário, a ideia é intensificá-la. Assim, a renovação do desejo eterno pelo ‘novo’ continua sendo a mola propulsora do mercado e do ideal de “destruição criadora”. Para ansiedade, há medicamento. Logo, cria-se a verdade ilusória (?) de que “ficaremos bem”.

 De mártir a herói e de herói a celebridade

Martírio significa solidariedade com um grupo menor e mais fraco, discriminado e humilhado, ridicularizado, odiado e perseguido pela maioria – mas é essencialmente um sacrifício solitário. (BAUMAN, p. 58) 

Ainda há lugar para mártires no mundo líquido-moderno? Talvez. No entanto, ou eles vivem nas sombras, ou já estão devidamente medicados.

Um mártir, em um mercado que anseia por celebridades instantâneas ou vertentes híbridas de heróis com ganhos e perdas devidamente calculados, é apenas mais uma patologia ambulante, um conjunto de transtornos devidamente categorizado em um manual técnico da área de saúde mental.

Mas há uma outra vertente de indivíduos que borbulha nas poças contínuas da sociedade líquido moderna, construído a partir da ideia de que “qualquer pessoa que sofra é (ao menos potencialmente) uma vítima” (BAUMAN, p. 66). Essa ideia contida nesse contexto de “vitimização” desenfreada produz uma relação de mercado movida pela compensação financeira. Esse excesso é que pode gerar erro na interpretação do sofrimento psíquico ou pode ser útil para o desenvolvimento de um potencial desejo de vingança. Mas, no mundo líquido, o interessante é que a vingança seja interrompida antes do “banho de sangue”, e isso pode ser feito a partir de acordos bem elaborados.

Prepara…

“No futuro todos terão os seus 15 minutos de fama.” Andy Warhol

A celebridade parece ser um dos atores mais representativos da sociedade líquido-moderna. Tem relação com algumas variáveis: quantidade de imagens, frequência que são mencionadas, aparição em programas de TV, número de compartilhamento e curtidas em redes sociais, quantidade de visualizações de vídeos na net. É efêmera, abundante e esquecível, ou seja, a metáfora ideal do mundo líquido.

Construir arcas?

Departure of The Winged Ship by Vladimir Kush

Para sobreviver no mundo líquido-moderno, talvez novas arcas devam ser construídas. Várias são as questões que surgem para sustentar esse fato, uma delas pode ser assim formulada: render-se à coletividade da individualidade exposta em frascos ou correr o risco de ser parte do lixo descartado a cada inovação no mercado e nas relações humanas?

Segundo Adorno citado por Bauman (p. 175), “pessoas fracas e amedrontadas sentem-se fortes quando correm de mãos dadas”, e acrescenta ainda que “o mundo quer ser enganado”. Talvez essa constatação sombria de Adorno não seja refutável tão facilmente, tendo como base vários acontecimentos recentes.  No entanto, ainda é mais reconfortante refletir sobre a constatação de Bauman ao final de Vida Líquida:

 “Tão inevitavelmente quanto o encontro do oxigênio com o hidrogênio produz água, a esperança é concebida sempre que a imaginação se encontra com o senso moral.” ( p. 194)

Mas, o círculo vicioso matematicamente construído através dos medos e amores que definem a vida nessa modernidade líquida parece ser mais firme que nossas esperanças. Talvez Baudolino (ECO, 2001) tivesse razão: o que é a vida senão a sombra de um sonho que foge? 

 

Referências:

ANDERSON, Chris. A Cauda Longa: do mercado de massa para o mercado de nicho; tradução Afonso Celso da Cunha Serra. – Rio de Janeiro: Elsevier, 2006.

BAUMAN, Zigmunt. Vida Líquida; tradução Carlos Alberto Medeiros. – 2. ed. – Rio de Janeiro: Zahar, 2009.

BIBLIA SAGRADA. Sociedade Bíblica Católica Internacional. Paulus: São Paulo, 1990.

Dicionário Oxford. Disponível em: http://oxforddictionaries.com/

ECO, Umberto. Baudolino; tradução Marco Lucchesi.  Rio de Janeiro: Record, 2001.

TIGRE, Paulo Bastos. Gestão da inovação: a economia da tecnologia no Brasil. Rio de Janeiro: Elsevier: Campus, 2006.

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.