Wild – Livre: uma jornada de autoconhecimento

 

Com duas indicações ao OSCAR:

Melhor Atriz (Reese Witherspoon), Melhor Atriz Coadjuvante (Laura Dern)

A Dor – tem um Elemento de Vazio –
Não se consegue lembrar
De quando começou – ou se houve
Um tempo em que não existiu –

(Emily Dickinson in “Poemas e Cartas”)

“Wild” (Livre) é baseado no best-seller autobiográfico de Cheryl Strayed, publicado em 2012, dezessete anos depois que a autora vivenciou os eventos narrados no livro. Em 1995, Strayed iniciou uma caminhada solitária pela Costa do Pacífico nos EUA, percorrendo um total de 1,8 mil quilômetros (a pé). O filme estrelado por Reese Witherspoon e dirigido por Jean-Marc Vallée (deClube de Compras Dallas) apresenta de forma não linear os acontecimentos que culminaram nessa jornada e especialmente a viagem solitária e árida de uma mulher fragmentada demais para suportar a vida em um ambiente doméstico.

Há vários precipícios na Costa do Pacífico, mas talvez o que fica mais evidente desde o início é o precipício psicológico vivenciado por Strayed. Um abismo se formou de maneira abrupta em torno de sua aparente sanidade após a morte de sua mãe, a pessoa mais importante da sua vida. E para suportar a vida sem ela, Cheryl descontruiu a pessoa que ela tinha sido até então e iniciou uma queda vertiginosa em um precipício de relações fugazes e drogas, que resultou, inclusive, no fim do seu casamento.

 

“Se sua coragem negar-lhe, vá além de sua coragem.” (Emily Dickinson)

A difícil vivência do luto é um dos pontos evidenciados no filme. Alguns pesquisadores têm tentado definir as diversas fases do luto relatando sobre um período inicial de dormência que pode levar à depressão e, depois, a uma fase de reorganização e recuperação. No entanto, segundo Zisook e Shear (2009) em pesquisas recentes sobre o luto tem-se evidenciado o quão variáveis e fluídas podem ser essas experiências, pois elas podem diferir consideravelmente na intensidade e abrangência a partir de grupos culturais ou, mesmo, de pessoa para pessoa. Acrescentam ainda que até agora nenhuma teoria sobre as fases do luto tem sido capaz de explicar como as pessoas lidam com a dor da perda, por que elas experimentam diferentes graus e tipos de angústias em momentos diferentes, e como ou quando elas ajustam suas vidas sem seu ente querido. Mas, talvez, a resposta para isso esteja no sentido que cada indivíduo dá ao seu luto, assim, por mais universais que sejam alguns sofrimentos e algumas dores, há sempre particularidades que merecem ser observadas.

 

“Depois que me perdi na selvageria do meu luto, encontrei o caminho para fora da floresta”. (Strayed)

 

A decisão de parar, de tentar equilibrar-se novamente mesmo diante do peso da ausência (e as cenas das tentativas de suportar o peso da mochila gigante em suas costas são uma metáfora disso), foi criando forma e se solidificando através da lembrança da filha que ela um dia havia sido. Nessa decisão, as palavras calculadas e vazias do psicólogo que a atendeu não surtiram efeito.

Em seu manual do luto, o psicólogo resumiu em linhas gerais a dor vivida pela paciente, mostrando-lhe a fragilidade do seu estado a partir das suas atitudes. Mas, às vezes, palavras são apenas um amontoado de letras suspensas em um universo sem significado. Nesses momentos, o silêncio pesa, mas acalma. O silêncio, para ela, foi o elemento necessário para manter seus pés em movimento sobre o chão. Foi em busca do silêncio, de manter-se viva (e não simplesmente leve), que ela iniciou a jornada.

“Levei anos para ser a mulher que a minha mãe criou.”(Strayed)

Strayed tinha se transformado em um caos emocional, mas não estava indiferente, nem apática. E, de certa forma, foi isso que tornou possível uma reação. O filme poderia cair muito facilmente em uma mera e vazia encenação de alguma história de superação apresentada em um livro de autoajuda, mas salva-se graças aos recursos de feedback que ajudam a mostrar a natureza fragmentada da personagem em sua busca por reconstruir uma história na qual pudesse viver. Ela não é uma pecadora que se redime de seus pecados ao final, nem um herói solitário que sabe exatamente aonde quer chegar. Sua vida é um amontoado de acontecimentos, muitas vezes confusos e aleatórios. O final de sua caminhada é renovador porque, no silêncio e na solidão, ela conseguiu, finalmente, reconstruir a pessoa que foi, ou a pessoa que na lembrança que ela inventou ela deveria ser.


FICHA TÉCNICA DO FILME

LIVRE

Título Original: Wild
Direção: Jean-Marc Vallée
Roteiro: Nick Hornby, Cheryl Strayed (memoir “Wild: From Lost to Found on the Pacific Crest Trail”)
Elenco Principal: Reese Witherspoon, Laura Dern, Thomas Sadoski
Ano: 2014
Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.
Autor / Co-Autores: