Direito à diversidade sexual: (En)Cena entrevista Odílio Torres

O (En)Cena entrevistou Odílio Torres, 23 anos, estudante de Direção de Arte (UFG) e ativista de direitos humanos. Odílio e Liorcino(Léo) Mendes, seu companheiro, foram o primeiro casal homoafetivo a ter união estável registrada no Brasil, em 9 de maio de 2011, depois do Supremo Tribunal Federal reconhecer a união entre casais do mesmo sexo como entidade familiar.  Torres é natural de Lizarda, município que fica a 317 km de Palmas(TO). Ele e Mendes se conheceram na capital do Tocantins, durante evento realizado pela Associação Grupo Ipê Amarelo de Conscientização e Luta Pela Livre Orientação Sexual (GIAMA). Léo Mendes, jornalista, foi um dos palestrantes.

O Jornalista Léo Mendes e o Estudante Odílio Torres, 1ª Família Gay do Brasil

Odílio Torres foi aluno de Comunicação Social – Jornalismo do CEULP/ULBRA. Mas não terminou os estudos nesta área específica porque decidiu morar em Goiânia(GO), onde vive atualmente com o companheiro.

Participando de diversas organizações de defesa de direitos humanos e grupos de combate à DST’s, Torres esteve recentemente na 19ª Conferência Internacional da Aids na capital dos Estados Unidos, Washington DC.

Nesta entrevista, ele fala de ativismo gay, direitos, preconceito, liberdade. Temas que podem ser considerados transversais à discussão sobre saúde mental.

(En)Cena – Como começou a sua jornada na militância?

Odílio Torres – Eu nunca pensei em ser militante, não tinha contato direto com ativistas e nem com essas organizações que atuam no movimento LGBT, Movimento de Luta Contra Aids, Hepatites Virais, etc. Acho que meu interesse surgiu em 2010, quando eu saí pela primeira vez do Tocantins para participar da I Marcha Contra Homofobia em Brasília, a convite do meu atual companheiro, o jornalista Léo Mendes. Foi um choque! Primeiro, cultural, depois, o fato de estar no meio de tantos gays, lésbicas, travestis e transexuais reivindicando respeito e dignidade foi impactante. Nunca me esqueci daquele dia.

(En)Cena – Você faz parte de quais organizações de defesa de direitos?

Odílio Torres – Milito na ARTGAY (Articulação Brasileira de Gays), do Grupo Eles por Eles-GO. Atualmente faço parte da CAMS (Comissão de Articulação com os Movimentos Sociais), representando a Articulação de Ongs Aids do Centro-Oeste. As reuniões na Cams acontecem de três em três meses no Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do Ministério da Saúde, em Brasília.

(En)Cena – Como foi a 19ª Conferência Internacional da Aids?

Odílio Torres – Fui participar, entre os dias 22 e 27 de julho, da 19ª Conferência Internacional da Aids, em Washington DC. Nos cincos dias do evento, 23.767 participantes de 183 países se reuniram para discutir as principais questões que envolvem a pandemia, além de apresentar estudos sobre novos métodos de prevenção e cura. Segundo concluíram os organizadores do evento, o fim da Aids será possível se houver continuidade dos investimentos financeiros e dos compromissos políticos e científicos.Fui como representante da Cams (Comissão de Articulação com os Movimentos Sociais). A Conferência contou com a participação de pessoas vivendo com HIV e Aids, cientistas, ativistas da Sociedade Civil, jornalistas, convidados, como a secretária de Estado dos Estados Unidos, Hillary Clinton, a atriz Sharon Stone, o cantor Elton John. As discussões abordaram a prevenção do HIV, assistência, o estigma e o preconceito contra pessoas portadoras do vírus, públicos mais vulneráveis como: gays, HSH, (Homens que fazem Sexo com Homens), travestis e transexuais, mulheres, crianças, usuários de drogas injetáveis. A próxima acontece em 2014, em Melbourne, Austrália.

José Rayan ( Presidente da Rede de Jovens e adolescentes vivendo com HIV e Aids No Brasil), Rubens Duda ( Assessor do Eduardo Barbosa) Diretor do Departamento de DST, Aids e HV do Ministério da Saúde e Odílio Torres, da Cams ( Comissão de Articulação com os Movimentos Sociais) presentes na 19ª Conferência Internacional da Aids.

(En)Cena – Durante a repercussão de seu casamento com o Liorcino Mendes, quais foram as manifestações que recebeu ?

Odílio Torres – Recebemos muitas manifestações positivas. Mensagens parabenizando pela coragem de se assumir gay e registrar a primeira União Estável Gay do Brasil. Por causa de tanta exposição na mídia, recebemos várias ameaças de morte pela internet e por ligações anônimas. Teve muito bafafá. Saiu até noticia que eu estava morto.

(En)Cena – Vocês ainda enfrentam resistência em ambientes como trabalho, família etc?

Odílio Torres – Um pouco. Na época do casamento eu fui demitido de uma grande empresa de Telecomunicação, sem nenhum motivo. Foi muito difícil arrumar emprego depois. Acho que por causa da visibilidade e por preconceito mesmo. Minha família sofreu muito. Principalmente minha mãe e meus irmãos que deixaram de ir pra escola devido a homofobia na escola.

Odílio Torres em frente ao Memorial Lincoln em sua visita aos EUA durante a 19ª Conferência Internacional da Aids.

(En)Cena – Quais são os temas que são mais urgentes dentre as discussões LGBT?

Odílio Torres – O Combate à Aids. Discutimos muito prevenção, assistência, adesão ao medicamento, estigma, lipodistrofia (nome dado para uma coleção de mudanças no corpo, que são vistas em pessoas que utilizam medicamentos anti-HIV) e cura. Outro tema é o Projeto de Lei da Câmara nº 122/06, que visa criminalizar a discriminação motivada unicamente pela orientação sexual ou na identidade de gênero da pessoa discriminada. Se aprovado, este projeto alterará a Lei de Racismo para incluir tais discriminações no conceito legal de racismo – que abrange, atualmente, a discriminação por cor de pele, etnia, origem nacional ou religião.


Fotos: Arquivo Pessoal