(En)Cena entrevista Dimítri Noleto Luz Pequeno

Dimítri Noleto Luz Pequeno é membro do CAPS-II Palmas, trabalha na UNITINS (Fundação Universidade do Tocantins – Palmas) como Técnico de Nível Superior.(En)Cena – Você conhece ou já ouviu falar sobre a Reforma Psiquiátrica e sobre o Movimento de Luta Antimanicomial? Se sim, qual a sua posição a respeito?Dimítri Noleto Luz Pequeno – Ouvi falar aqui no CAPS. O pessoal fez umas frases e teve uma passeata (Dia da Luta Antimanicomial). O que eu entendo da Luta Antimanicomial – é acabar com os manicômios, tratar o usuário sem precisar de manicômio, como o CAPS trata. Da Reforma Psiquiátrica não conheço. Eu apoio, acho certo, a ideia do CAPS é boa, vem de encontro com a necessidade do usuário.(En)Cena – Você recebe algum benefício (passe-livre, programa de volta para a casa, outros)? O que você pensa a respeito dos benefícios?

Dimítri Noleto Luz Pequeno – Não recebo nenhum benefício. É válido, né? Sempre tem gente que precisa. Se existe o benefício, é porque existe a necessidade.

(En)Cena – Que tipo de entendimento você faz quando alguém lhe trata por “usuário de saúde mental”?

Dimítri Noleto Luz Pequeno – Eu não gosto não. Sei que tem preconceito e o preconceito é grande. Se eu me importar, aí que pega no pé mesmo, aí que vão me chamar de doido mesmo (risos). O preconceito é com quem não conhece o trabalho do CAPS. Por mim tanto faz, não tenho nada contra o termo usuário.

(En)Cena – Você já esteve sob regime de internação psiquiátrica? Se sim, você pode falar um pouco sobre essa experiência?

Dimítri Noleto Luz Pequeno – Já. Uma vez fiquei internado no hospital, por uns três dias. Eu não gostei não, ninguém gosta de ficar internado. Foi tudo bem o tratamento, me ajudou muito.

(En)Cena – Você atualmente faz parte do CAPS II. Qual é a sua visão sobre o CAPS? Gosta de frequentar? Está te beneficiando, ajudando em algo?

Dimítri Noleto Luz Pequeno – Tem dias que eu gosto, quando tem atividades – exercícios, passeio, dinâmica, oficina. Quando não tem nada para fazer, é ruim, porque fica um tempo muito ocioso. Tem hora que ajuda, tem hora que não (as atividades no CAPS). Ajuda pelo fato do atendimento psiquiátrico e psicológico que tem aqui. Por questões de fora, tem vezes que fico mais deprimido e não é o CAPS que vai resolver isso, são coisas que a gente mesmo resolve. O CAPS ajuda a encarar melhor as coisas, a entender o que acontece. Tem coisas que eu não consigo resolver, aí procuro ajuda no CAPS, às vezes encontro solução, às vezes não.

(En)Cena – Muitas ações têm sido desenvolvidas no sentido de promover a inclusão social dos usuários através do acesso à arte, à cultura e a emprego. Como você analisa esse contexto?

Dimítri Noleto Luz Pequeno – Quanto mais for inserido na sociedade, melhor ele vai conseguir viver. Se ele não tiver inserido na sociedade, ele não vai conseguir lidar com o problema. Isolado dentro de casa, não consegue não, até piora.

(En)Cena – Você é usuário e está inserido no mundo do trabalho como analista de sistemas. Qual a importância dessa inserção para você?

Dimítri Noleto Luz Pequeno – Eu considero meu trabalho como minha vida. Porque de lá é que eu tiro o sustento da minha casa, da minha família. Quando tem serviço que eu consigo resolver, eu gosto; quando tem algo que eu não consigo, eu tento fazer, mesmo porque eu fico sozinho no meu setor. Na Unitins não valoriza o servidor como um todo. Apesar de ter sido a psicóloga e a assistente social que sugeriram para eu vir para o CAPS, sendo que isso partiu delas.

(En)Cena – Você considera importante a participação dos  usuários, familiares de usuários e da comunidade no CAPS? Por quê?

Dimítri Noleto Luz Pequeno – Sim. Quanto mais os familiares e a comunidade participar do CAPS, menos preconceito e mais aceitação a sociedade vai ter em relação ao Caps. Minha esposa percebe coisas em mim, que eu mesmo não percebo, daí ela fala para o Drº e isso me beneficia.

(En)Cena – Na sua avaliação, o que você considera que falta para ver seus direitos de cidadania garantidos?

Dimítri Noleto Luz Pequeno – No CAPS não tenho problemas, todos os meus direitos de cidadania são respeitados. Só falta o CAPS, fazer com que o usuário possa trabalhar, inserir o usuário no mercado de trabalho.

(En)Cena – Você pode relatar um pouco sobre sua história aqui no CAPS?

Dimítri Noleto Luz Pequeno – Cheguei ao CAPS, por tentativa de suicídio, e o pessoal do trabalho me encaminhou para fazer atendimento. Na família, minha avó já teve problema mental.

(En)Cena – Qual a sua expectativa com relação a sua Saúde Mental? O que você mesmo pode mudar, para melhorar sua realidade atual? Como o CAPS pode te ajudar?

Dimítri Noleto Luz Pequeno – Eu posso melhorar ao ponto de parar de tomar as medicações. Estou muito instável ultimamente, em relação a minha melhora. Eu posso me organizar mais, porque a depressão me tira a vontade de fazer qualquer coisa, de ter ação pra vida. Tentar, lutar contra isso, né? O CAPS pode me ajudar mais, me dando acompanhamento psicológico.
Referência:

Conselho Regional de Psicologia – Rio de Janeiro. S/D. Baseado no modelo de entrevista – Disponível em: http://www.crprj.org.br/publicacoes/jornal/jornal28_julio_cesar.pdf http://www.crprj.org.br/publicacoes/jornal/jornal28_julio_cesar.pdfAcesso em: 07/11/2012 às 02:13h.