Mentes Perigosas: risco é real de psicopata viver a seu lado

Autora do best seller “Mentes Perigosas” e de outros títulos de grande impacto editorial, como “Mentes Consumistas”, “Mentes Inquietas” e “Bullying”, com mais de 1,5 milhões de livros vendidos, a psiquiatra carioca Dra. Ana Beatriz Barbosa Silva veio a Palmas recentemente, a convite da Laica – Liga dos Amigos do Idoso, Criança e Adolescente, para a palestre “Mentes Perigosas”, num evento de cunho beneficente, realizado no Cristal Hall e que contou com o  apoio do Ceulp/Ulbra (curso de Psicologia) e da GEP Livraria, dentre outros.

Reprodução do livro
Reprodução do livro

A Dra. Ana Beatriz é médica graduada pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro), com pós-graduação em psiquiatria pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), e é professora Honoris Causa pela UniFMU (SP). Preside a AEDDA – Associação dos Estudos do Distúrbio de Déficit de Atenção (SP), e é diretora de uma clínica que leva o seu nome, no Rio de Janeiro, além de escritora, palestrante, conferencista, e consultora de diversos meios de comunicação, sobre variados temas do comportamento humano. Em Palmas, a Dra. Ana Beatriz concedeu uma entrevista exclusiva ao Portal (En)Cena, cuja íntegra segue abaixo.

(En)Cena: Em linhas gerais, qual a tônica da palestra “Mentes Perigosas”?

Ana Beatriz: O meu foco foi sempre trazer o conhecimento científico, de caráter técnico, para uma linguagem abrangente e basicamente para o público leigo. Mantenho um rigor científico, mas uso uma linguagem que aproxima este conhecimento do grande público. Eu acredito que se você pega um conhecimento, sistematiza-o mas não tem capacidade de propagá-lo, ele fica na estante. E um livro tem de sair da estante, pois ele é uma obra que não se realiza em si; isso só ocorre quando ele começa a circular pelas mãos dos leitores, daí o conhecimento começa a se propagar. A palestra “Mentes Perigosas” é baseada eu meu livro homônimo. E o objetivo é fazer com que mais pessoas conheçam sobre a psicopatia, de forma clara e abrangente.

(En)Cena: Fale-nos um pouco mais sobre o livro “Mentes Perigosas”.

Ana Beatriz: É um livro do final de 2008 e início de 2009. Já passou por uma revisão, e veio para falar sobre psicopatia. Durante muito tempo as pessoas não tinham uma noção exata do que se tratava esse transtorno, e normalmente associavam-no com uma doente mental. Porque o nome psicopata dá esta dubiedade. Mas diferente do que o nome possa indicar, a psicopatia é antes de tudo um transtorno de personalidade, ou seja, é uma maneira de a pessoa ser, no seu funcionamento cerebral.

(En)Cena: Explique-nos com mais detalhes como funciona este funcionamento cerebral do psicopata.

Ana Beatriz: A pessoa já nasce com uma tendência a agir com quase 100% de razão e nenhuma emoção. E o que significa isso? Que são pessoas absolutamente frias, calculistas e que não consideram o outro. Ou seja, não têm o sentimento da empatia, não se colocam no lugar do outro. Não têm remorso ou arrependimento. São pessoas que basicamente veem no outro não alguém, mas um objeto de uso. E objeto de uso para quê? Para três funções específicas: status, poder ou diversão.

(En)Cena: Então a pessoa já nasce psicopata? Esta é uma condição apriorística?

Ana Beatriz: Na psicopatia legítima, sim. Mas existem gradações, não há dúvida. Eu falo no livro e nas palestras, de que tudo no comportamento tem um grau. Temos que pensar o comportamento humano como aquela luz que tem o dimmer. É o conceito do espectro, os tons… você tem desde o mais leve, passando pelo moderado e, enfim, culminando no mais grave. Dentro da psicopatia vamos ver que os mais graves seriam o que todo mundo mais ou menos já ouviu falar, já conhece, que são os serial Killers. São pessoas com uma enorme indiferença afetiva – sem a capacidade de vincular a existência do outro…

Entrevista ao (En)Cena, na Livraria GEP – Foto: Douglas Erson

(En)Cena: Mas de que forma eles se apresentam? Como eles “transitam” socialmente? Há variações, também, no comportamento?

Ana Beatriz: Nunca se percebe quando se cruza com um psicopata. Ele não é aquela pessoa que tem cara de mau, muito pelo contrário. Todos são extremamente sedutores e dissimulados. Para se ter uma ideia, a falta de empatia – que é essa capacidade de você se colocar no lugar do outro, sofrer pelo outro – é tão grande que existem estudos recentes – e eu nem coloquei ainda na última revisão de “Mentes Perigosas” –, de pouco mais de um mês atrás, que indicam que os psicopatas são capazes de não reagir quando alguém boceja perto. Esta reação (de bocejar quando alguém também o faz) é instantânea, pois o cérebro associa o sentimento do outro e se contagia. É tamanha a indiferença com o outro que não há a empatia nem o bocejar. Então não esperem do psicopata aquele cara mal trajado ou alguém com cara de vilão. Pelo contrário, ele vai ser alguém que entra na vida das pessoas sempre de forma benquista.

(En)Cena: E existe um padrão de “ataque”?

Ana Beatriz: Sim, eu costumo dizer que existe o “171 afetivo”, que são aqueles homens que vão a lugares estratégicos seduzir mulheres, por exemplo em aeroportos, locais turísticos, etc. É muito comum você ver aqueles homens que ficam ali esperando uma mulher sozinha, ou mesmo duas ou três mulheres, para que eles possam seduzir. E todo bom psicopata se apresenta para você exatamente como você quer que ele seja. Não podemos esquecer que o psicopata é quase que exclusivamente razão, e sem nenhuma emoção. Então ele sabe o que você está pensando.

(En)Cena: Então todo psicopata é absolutamente zero de emoção?

Ana Beatriz: Depende da gravidade. Daí voltamos para aquela ideia de gradações. Mas sempre temos que pensar o psicopata como alguém que tem um cérebro que funciona quase que com a emoção zerada, e com a razão quase a 100%.

(En)Cena: Os dados gerais apontam que 4% da população mundial tem algum nível de psicopatia. Há dados específicos sobre o Brasil?

Ana Beatriz: Não, não temos. O Brasil se baseia muito nas pesquisas que são realizadas nos Estados Unidos, na Inglaterra, na Austrália e principalmente no Canadá, onde você tem o psicólogo Dr. Robert Hare que revolucionou os estudos e pesquisas em psicopatia. Ele conseguiu desenvolver, dentro dos sistemas penitenciários, um check-list, que chamamos de escala Hare – em homenagem a ele, obviamente – onde se é capaz de diferenciar os presos que são psicopatas dos presos não psicopatas. Então se chegou ao número de que 20% da população carcerária é psicopata. E 20% destes 20% respondem pelos crimes mais pavorosos e hediondos que a gente possa imaginar. A reincidência dos psicopatas também chega a ser de duas a três vezes maior do que a dos outros presos. Então se você for espremer isso tudo, estamos falando em diferenciar os presos recuperáveis dos não recuperáveis, porque hoje estão todos juntos. O sistema penitenciário, hoje, não tem a função que deveria ter, que é recuperar os recuperáveis. Pelo contrário, os recuperáveis acabam se tornando soldadinhos dos psicopatas.

Fonte: R7

(En)Cena: Então, por tudo isso que a senhora nos disse, é quase que uma situação de irreversibilidade em relação à psicopatia.

Ana Beatriz: Olha, até hoje não há nenhum indício de recuperação. É importante destacar que há pessoas que têm atitudes psicopatas de forma isolada. O transtorno de personalidade é uma maneira de ser. Então quando for feita uma avaliação, ela sempre será do conjunto da obra, não de uma atitude isolada. Por exemplo, há casos em que uma pessoa ensandecida pelo ciúme tem uma atitude psicopata. Peguemos o caso de um homem que tem um ataque de ciúmes e machuca sua companheira. Isso, isoladamente, é uma coisa grave, uma lesão corporal. Mas se o modo dele ser, no geral, não é assim, e ele demonstra arrependimento real, a gente não pode dizer que ele é um psicopata. Os estudos mostram que 25% dos agressores de mulheres são psicopatas, ou seja, a grande maioria não é. E daí você vai ver que estes 25% são aqueles agressores contumazes, recorrentes. Quando se puxa a ficha desses caras eles já foram denunciados não sei quantas vezes, e só muda de mulher e de Estado. E como não há, ainda, a comunicação entre as polícias de forma mais eficaz, neste país gigante que é o nosso, fica difícil identificar estas pessoas já de primeira. Porque o diagnóstico de psicopatia se faz do histórico de vida da pessoa. Por exemplo, um psicopata de 20 anos já tem uma ficha corrida. Pode até ser que não haja uma ficha criminal, mas ele já tem uma história para contar. Já vai aparecer gente para descrever que, desde criança, dada pessoa já fez tentativas de estupro, ou que na adolescência já começou a roubar, etc.

(En)Cena: E na infância, é possível identificar alguns traços?

Ana Beatriz: Aí há um cuidado a mais sobre este assunto. Por exemplo, é muito comum que os pais presenteiem seus filhos com bichinhos de estimação. E é muito capaz que a criança acabe machucando-os, pela ânsia de brincar, já que têm enorme energia. Mas é muito fácil perceber que a criança que tem sentimento, que tem sensibilidade, ao machucar o seu cachorrinho, por exemplo, e ver que ele está sofrendo, ela fica extremamente ressentida, ela fica muito mal. Eu já vi uma criança que chegou para mim e disse: – “Eu machuquei o meu cachorro sem querer, foi sem querer. Ele vai morrer?”. Ou seja, há uma ânsia de se justificar. Uma criança que não tem essa percepção, ela não vai ter a mesma reação. Pelo contrário, ela vai sentir certo prazer com isso e vai tentar repetir. Na série Dexter, por exemplo, o pai chega para o filho ainda criança (o personagem principal, o psicopata Dexter Morgan [Michael C. Hall]) e pergunta se foi ele que matou o cachorro da vizinha. Depois de um tempo insistindo na pergunta, ele acaba por dizer que a mãe estava reclamando muito do cachorro, que fazia muito barulho. Quando finalmente resolve dizer que matou o cão, e perguntado do por que ter feito aquilo, ele diz que queria ver como era um cachorro sofrendo, morrendo… Então até os 5, 6 ou 7 anos de idade, a criança com uma tendência à psicopatia ainda não tem a habilidade de mascarar os seus sentimentos. E se você vai perguntando, ela fala!

Eu lembro de que um casal que levou um garotinho, um filho para que eu atendesse. Na casa, eles tinham um Yorkshire e uma irmãzinha recém-nascida, de 8 meses. E um dia pegaram esse garotinho jogando talco no rosto da bebê. Quando ele foi pego, tentou se desculpar dizendo que tava colocando talquinho para trocar a fralda. Mas no nariz?! Os pais acharam aquilo estranho. Mais à frente, o flagraram beliscando a menina. Até aí, tudo bem! Poderia ser ciúmes… no entanto, num fatídico dia ele pegou o cachorrinho Yorkshire e jogou do 8º. andar. O vizinho viu aquela cena. Quando eu perguntei para ele por que havia feito aquilo, ele disse que “só queria ver como é que era um cachorrinho sofrendo e sentindo dor”. Ele falou isso de uma maneira natural. É claro que se fosse hoje provavelmente ele não diria isso, pois já desenvolveu a habilidade da mentira. Então este instinto deles (dos psicopatas) é muito claro, desde o início. Inclusive há algumas pesquisas que mostram que a partir dos 8 meses o bebê humano pode identificar a empatia. Então digamos que você pega uma criança no colo e leva até uma pracinha. Lá, se ela ver uma criança cair e chorar, na mesma hora o bebê já estabelece uma conexão e percebe que algo desagradável está acontecendo. É comum que eles comecem a chorar também. Já a criança com a tendência psicopata não tem esta conexão.

Mas é preciso ter cuidado. Por exemplo, não se faz diagnóstico de psicopatia na infância, só após os 18 anos. Por quê? Porque pode ser que a criança apresente características que sugerem que, no futuro, desenvolva a psicopatia. No entanto, até os 18 anos essas dinâmicas são nomeadas como transtornos de conduta. O cérebro passa por dois grandes momentos de amadurecimento, sendo um entre os cinco e sete anos, e outro entre 17 e 20 anos. Mas isso é só para haver um padrão, uma marcação média. Porque tem crianças que vão ter esse amadurecimento com 14 anos, e têm pessoas que nem com 28 anos vão ter. Levando-se em conta isso, em alguns países não se fala mais na questão da maior ou menor idade. O que se tenta descobrir é se a criança tem consciência do que ela fez, se ela tem capacidade de entender o que ela fez. E se ela tem capacidade de ter noção da gravidade do que ela fez.

Foto: Reprodução TV Globo

Ana Beatriz:  Tem um caso clássico, que eu até coloquei em “Mentes Perigosas”, que é de duas crianças – à época uma de 12 e outra de 8 anos – que roubam um bebê de uma mãe que está numa sorveteria, e o levam para os trilhos de um trem e deixam-no lá para morrer. Essas crianças foram pegas depois, e em juízo, ao indagadas por que fizeram aquilo, disseram que queriam ver como era um neném explodir. Então existem graus de indiferença com o outro que só um psicopata é capaz de fazer.

(En)Cena: E nos casos daqueles jovens que realizam massacres em escolas, e que logo depois se matam?

Ana Beatriz: Neste casos, a maioria é por psicose e não por psicopatia. Porque o psicopata não se arrepende, não existe essa possibilidade. Por exemplo, já se viu determinados políticos irem para a cadeia e se matar lá dentro? (risos). Pelo contrário, têm uns que vão e ficam até mais encorpados e confiantes. Ganham viço e até a retórica melhora.

É interessante lembrar que todo psicopata se aproxima de pessoas – ele escolhe pessoas mais sensíveis – com o discurso da vitimização. Desconfie sempre de alguém que entra na sua vida e já escancara questões muito delicadas. Por exemplo, sempre digo que quando uma mulher no ambiente de trabalho, já na primeira semana, diz que foi abusada sexualmente pelo pai ou pelo tio, devemos acender o sinal de alerta. Eu já boto três pés atrás. Tenho 50 anos e já passei por muitos casos. Para uma mulher dizer que foi estuprada às vezes isso leva anos. Então se deve desconfiar destas confissões instantâneas. Isso acontece muito com mulheres tentando seduzir homens. Porque homens adoram histórias tristes, e em alguns isso gera até certo fetiche.

(En)Cena: Então, pelo que vimos até aqui, o entendimento geral de que toda criança é boazinha não passa de um mito?

Ana Beatriz: Um grande mito! Mesmo a criança que não tenha essa formação psicopática, ela tem maldade, ou atos maldosos que são normais à essência humana. A questão é saber se há o arrependimento para que haja a superação.

(En)Cena: E continuando a falar do tema ‘maldade entre as crianças’, pegando aquele caso do filme “Vamos falar sobre Kevin”, a origem [da formação psicopata] é na mãe, na criança, ou em ambos?

Ana Beatriz: Depende, porque aqui você também conta com um componente genético. E a genética não é um jugo de fatalidade, ela é, em alguma medida, fruto da probabilidade. Por exemplo, um pai e uma mãe podem não ter a menor característica psicopática, e ter um filho assim. Mas se for pesquisar na família, vamos encontrar um bisavô ou mesmo avô com estes traços. E no Brasil isso se torna ainda mais evidente. Há muito pouco tempo os nossos avós ou bisavós poderiam perfeitamente ser capatazes de fazendas escravocratas. Então a gente está sempre julgando uma relação de parentalidade muito próxima, e esquece-se dos ancestrais desta família. Outro exemplo: a mãe do traficante Fernandinho Beira-Mar foi uma das pessoas mais dóceis que se conhece. Dos filhos – que se não me engano são nove ao todo – Fernandinho é o único caso que se envolveu na criminalidade. Todos os outros irmãos são pessoas de bem, professores, pessoas batalhadoras. E a própria mãe dele era uma pessoa que tinha essa noção de que ele era diferente. É tanto que enquanto ela esteve viva, manteve uma educação e uma disciplina bem severa com ele. É importante lembrar que a educação não muda a essência, mas modula. Uma criança e um adolescente sabe o que pode e como deve fazer [certas coisas]. Se você tem um pai e uma mãe ali bem focados, para não deixar o filho se jogar para um lado e para o outro, claro que este filho melhora.

Outro exemplo: se vê por aí um pedófilo estuprar uma criança em praça pública? Não se vê! Porque ele é absolutamente maquiavélico. Ele vai friamente calcular a ação. Mas parte das pessoas ainda acha que isso é fruto de impulsos incontroláveis, e eu nunca vi um impulso que só se manifesta em meses. Impulso é impulso, concorda? Você pega um dependente de crack, por exemplo, e ele faz qualquer coisa para obter a droga, até transar com um cachorro em público. Aqui há um transtorno em que a pessoa está fora de si e sem o controle nenhum do impulso.

(En)Cena: E a predominância da psicopatia é mais no sexo masculino?

Ana Beatriz:  Teoricamente sim, mas eu tenho as minhas dúvidas. A estatística é de três homens para cada mulher psicopata, tendo em vista uma porcentagem de 4% de pessoas acometidas pela patologia. De maneira geral, a estatística é clara quanto àquele percentual que nasce com traços psicopatas. Se vai se manifestar, depende da sociedade. E estamos num momento em que a sociedade favorece para que os casos se aflorem, já que há um pico de materialismo e individualismo, onde a cultura do psicopata ou cultura da esperteza acaba predominando. Os nossos valores sociais, hoje, acabam favorecendo que esses 4% floresçam e que inclusive ocupem posições de poder.

(En)Cena: Então a política é um campo fértil para o psicopata?

Ana Beatriz:  A política é um dos campos mais atrativos para um psicopata. Porque é uma das raras profissões onde você tem poder ilimitado, diversão ilimitada, vaidade e megalomania. Todo psicopata é megalomaníaco.

(En)Cena: O seu livro foi o primeiro do gênero no Brasil? Qual o impacto que ele causa nas pessoas?

Ana Beatriz: Eu acho que sim. Ele ampliou a curiosidade do grande público para temas deste gênero. Eu fico feliz quando vejo pessoas leigas no assunto se debruçando sobre o livro e sabendo diferenciar, por exemplo, a psicopatia da psicose. Então quando há um crime e a imprensa vai à rua entrevistar as pessoas, eu vejo estas pessoas simples usarem o termo psicopata com o sentido real da palavra. Não estão falando da psicose. Também agradeço muito o contato que eu passei a ter com o pessoal do Direito. Eu converso com vários juízes que, hoje, já tem uma clareza maior sobre o tema. E “Mentes Perigosas” ainda não cumpriu a sua missão, ainda tem um longo caminho pela frente, que é poder diferenciar no sistema penitenciário os presos que são psicopatas dos que não são psicopatas. Espero sinceramente que possamos avançar sobre isso nos próximos 10 anos, para que pela primeira vez tenhamos um sistema capacitado a identificar no sentido de recuperar [os presos] os recuperáveis. Porque o que acontece hoje é um crime. Os recuperáveis são aqueles que numa rebelião são postos de cabeça para baixo, como se fosse um frango de padaria. Os que morrem numa rebelião não são os irrecuperáveis.

(En)Cena: E seus projetos futuros?

Ana Beatriz: Há menos de um ano eu lancei “Mentes Consumistas” que fala deste materialismo todo que permeia a nossa sociedade. Hoje creio que vivemos um momento em que a maior crise não é econômica, mas ética. Quanto aos projetos futuros, eu agora relanço já atualizado o livro “Bullying: mentes perigosas nas escolas”, que já foi um derivado de “Mentes Perigosas”, e estou escrevendo um livro que vai se chamar, talvez, “Mentes Agradecidas”, falando de meus 25 anos de carreira, agradecendo os melhores casos de minha vida, que são 11 no total. Também estou trabalhando num romance chamado “Horizonte Vertical”, que é uma ficção com aquela temática da “volta no tempo”, já que sou fascinada por Física e Cosmologia. Também tenho uma minissérie, “Janelas da Mente”, que são 11 episódios onde cada um abordará um tipo de comportamento. E, por fim, estou trabalhando em um grande projeto, que é uma encomenda chamada “Mentes de Fé”. Este é bem difícil, porque eu não falarei de religião, apesar de estar estudando todas as grandes religiões, mas de espiritualidade, da necessidade que a gente tem de levar em consideração a nossa dimensão espiritual, tendo em vista que contamos com a dimensão física, a mental e a espiritual. Inclusive muito dessa crise ética que assola nosso país é porque nos esquecemos de nossa dimensão espiritual, e aqui volto a falar que não se trata de religiosidade, mas de espiritualidade. Estamos muito materialistas. É preciso repensar este modo de viver.

(En)Cena: O Portal (En)Cena e o Ceulp/Ulbra agradecem a sua gentileza pela entrevista.

Ana Beatriz: Eu é que agradeço pelo espaço concedido, e me anima saber que há um envolvimento do curso de Psicologia daqui, do Ceulp/Ulbra, com temas atuais e desafiadores. É cada vez maior o número de psicólogos, mundo afora e também no Brasil, que encabeçam pesquisas de ponta sobre o comportamento humano. Isso é um avanço enorme e enriquecedor. Continuem firmes. Temos muito a explorar e avançar no nosso país.

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).