Tem remédio para o transtorno de déficit de atenção com hiperatividade?

O tratamento de alguns transtornos ligados à atenção, principalmente em crianças, usando medicamentos não é pacífico entre os especialistas. Para estudiosos, como Roselania Francisconi Borges, é praticamente estar se preparando para abrir uma “caixa de Pandora”.

Apesar dos estudos, é preciso considerar o contexto social, a complexidade das relações humanas e até a interferência econômico-política, para identificar e tratar as reais causas dos transtornos, em especial, o do déficit de atenção com hiperatividade.

Por este motivo, o (En)Cena conversou com a psicóloga e pesquisadora Roselania Francisconi Borges, que integra o Grupo de Estudos e Pesquisas sobre o Higienismo Eugenismo (GEPHE) dedicando-se a estudos e pesquisas que convergem para o campo que faz interface entre as áreas da educação e saúde mental na saúde pública.

Foto: Arquivo pessoal Roselania Borges

Roselania escreveu o livro Hiperatividade, higiene mental e psicotrópicos: enigmas da Caixa de Pandora (2009) junto com Maria Lúcia Boarini. Também escreveu capítulos de livros e outras publicações em periódicos científicos.

A pesquisadora é graduada em Psicologia pela Universidade Estadual de Maringá (1994); Especialista em Saúde Coletiva (1996) e Mestre em Fundamentos da Educação (2006) pela mesma Instituição; Doutora em Psicologia pela Unesp/Campus de Assis-SP (2012). Atualmente é professora no Departamento de Psicologia da Universidade Estadual de Maringá.

(En)Cena – O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) é amplamente discutido e apontado como diagnóstico psicológico, em sua definição o que vem a ser esse termo?

Roselania Borges – Acredito que o TDAH é, antes de tudo, uma construção social. Na verdade esse é o termo usado para descrever o comportamento de crianças que antes eram apontadas como inquietas ou muito ativas. É um termo cunhado na sociedade contemporânea para descrever as crianças que, por diversas razões, não conseguem acompanhar o aprendizado ou o curso das atividades pedagógicas de maneira a satisfazer certo padrão de normalidade.

(En)Cena – E quando esse comportamento passou a ser descrito de forma patológica?

Roselania Borges – Na verdade esse foi, como lhe falei, um termo que foi construído há várias décadas. Nos EUA, por volta da década de 1930, pesquisadores perceberam – a partir de um surto de encefalite letárgica que acometeu crianças – que seu comportamento se tornou mais calmo quando esta população infantil foi tratada com um medicamento chamado Cloridrato de Metilfenidato) cujo nome comercial mais conhecido é Ritalina. Na época ele foi recomendado para tal acometimento. Então, a partir daí ele passou a ser utilizado com o fim de aquietar algumas crianças e as terminologias médicas foram surgindo para descrever esse fenômeno, por vezes denominado como lesão cerebral mínima e disfunção cerebral mínima. Atualmente, na Classificação Internacional de Doenças mais recente (CID-10), o termo vem definido na categoria dos Transtornos hipercinéticos, o que na realidade quer dizer o mesmo que TDAH.

(En)Cena  – Existe alguma relação entre a dislexia e o TDAH?

Roselania Borges – Alguns pesquisadores acreditam que a dislexia seja um dos fatores que são relacionados ao TDAH. Existem também aqueles que identificam uma relação entre o comportamento da criança que foge ao padrão convencional e seu ambiente familiar ou social.  Há diversas formas de interpretar aquilo que se acredita ser diferente, estranho ou patológico em uma determinada sociedade em um contexto histórico específico.

(En)Cena – É comum ver casos de pais e mães que chegam aos consultórios com os diagnósticos “prontos” de TDAH?

Roselania Borges – Acredito que é bem comum. Isso porque essa classificação já é algo amplamente difundido em nossa sociedade, seja através da mídia, seja através da própria prática da psicologia ou da área médica. Então, é cada vez maior o número de mães que dizem que a professora na escola já “falou que o meu filho é hiperativo” ou que acredita que sua capacidade de aprender está prejudicada por um transtorno de atenção.

(En)Cena – E quais são os fatores que contribuem nos dias de hoje para um aumento destas classificações?

Roselania Borges –  Vivemos em um mundo que tem uma dinâmica que demanda comportamentos simultâneos e rápidos. Então é natural ouvir música enquanto se lê um assunto em um site e se conversa em um chat. Isso também se passa com as crianças. Cada vez mais elas têm atividades que fazem com que sua atenção seja dividida entre essas várias tarefas ao mesmo tempo, em um ritmo desenfreado. Tal dinâmica, naturalmente vai levando a uma concentração ou atenção concentrada menor, especialmente naquilo que não é tão interessante para ela. Isto muitas vezes é entendido como TDAH.

(En)Cena – Além desta classificação, há uma tendência em “medicalizar” outros comportamentos subjetivos na vida cotidiana?

Roselania Borges – Acredito que sim. E muitos pesquisadores também percebem essa tendência, a da psiquiatrização dos comportamentos, como no caso do  luto por exemplo. Na nova concepção que estará em vigor no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais em 2013 (DSM V), o luto estendido por mais de três meses já passará a ser considerado como algo patológico, como evidência de depressão ou de algum outro tipo de condição médica.

(En)Cena – Essa busca por “normatizar” os comportamentos faz com que se ampliem os conceitos de loucura?

Roselania Borges – Eu diria que ocorre uma maior estigmatização da loucura. Hoje a gente até percebe certo repúdio em relação ao enclausuramento físico que era comumente aplicado ao indivíduo em sofrimento psíquico intenso ou em crise. Porém, as pessoas estão cada vez mais propensas a usar o medicamento como uma forma de enclausuramento. Existe sim uma forte intervenção farmacêutica para que aconteça essa medicalização, essa nova forma de enclausuramento. No caso do TDAH, a banalização dos critérios diagnósticos e, consequentemente, o uso exacerbado de medicação tem levado profissionais e instituições a se preocuparem com as possíveis consequências para o organismo da criança, ainda em formação. É como se estivéssemos dirigindo de olhos fechados, por um caminho ainda desconhecido.

(En)Cena – Na sua visão essa busca pelo medicamento, em supostos casos de TDAH, vem para suprir uma incapacidade ou falta de tempo dos pais em lidar com a questão comportamental dos filhos de outras formas terapêuticas?

Roselania Borges – Também acredito que sim. O remédio acaba preenchendo essa necessidade imediatista que fundamenta a maior parte dos comportamentos na sociedade atual, então a ideia de trazer o comportamento à normalidade vem de forma instantânea como se o medicamento pudesse reverter ou impedir um comportamento indesejado, e, de certa forma, “não normal”.

(En)Cena – Qual seria sua indicação para quem não quer cometer essas avaliações?

Roselania Borges – O ideal seria que procurássemos nos informar antes de fazermos avaliações apressadas. Não podemos acreditar em tudo que lemos, vemos ou ouvimos. O conhecimento não é neutro. É preciso estabelecer um senso crítico e adotar alguma resistência a essas maneiras muito fáceis e sedutoras de lidar com questões que são, na verdade, parte de um complexo tema que é a subjetividade humana. Assim, ao insistirmos em procurar soluções rápidas (em pílulas, por exemplo) para problemas complexos, podemos estar estimulando a abertura da “caixa de Pandora” que a humanidade tem em seu poder.

Hudson Eygo
Psicólogo, Coordenador do Serviço de Psicologia – SEPSI do CEULP/ULBRA, Coordenador da Área de Psicologia do Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, e Colunista do Blog Psicoquê. E-mail: hudsoneygo@gmail.com