A canção como recurso terapêutico na promoção da saúde mental

Quem canta seus males espanta…é uma das muitas verdades ditas nas frases populares. Afinal, a voz é a expressão sonora da nossa personalidade e é um dos recursos mais poderosos do ego (SCOTT, 1978) e cantar desperta os sentimentos mais profundos do ser humano em que muitas vezes a palavra não é capaz de expressar. Katsh e Merle-Fishman (1985) já dizia que enquanto cantamos não nos expressamos através de um instrumento; nós nos tornamos o instrumento.

“Cantar pode proporcionar ao indivíduo uma oportunidade de expressar o inexpressível, de dar voz a um conjunto de sentimentos. Cantar músicas significativas frequentemente produz uma catarse, uma liberação da emoção, devido ao efeito da música, da letra e das memórias e associações conectadas com a canção”
(Austin, 2008 p.20)

 

O canto utilizado como recurso terapêutico em terapias não verbais (como a musicoterapia, por exemplo) visa encontrar e desenvolver conteúdos internos do indivíduo e trazer novas ressignificações a ela assim como melhorar a autoimagem, autoconfiança, autoexpressão e criatividade. Também possui um papel fundamental em resgatar memórias e emoções suprimidas e promover uma integração e fortalecimento do self.  A canção pode permitir a revisão necessária da realidade individual do paciente podendo assim recriar a sua história através do imaginário e reescrever ou ressignificar aquilo que precisa ser revivido para ser elaborado (Barcellos, 2009 p. 165). O que se deve considerar é que o canto por manifestar o que está guardado no inconsciente do indivíduo, cada um irá produzir e expressar de acordo com suas experiências e gostos sonoro-musicais adquiridos ao longo da vida.

O canto na promoção da saúde mental pode ser trabalhado de diversas maneiras de acordo com cada objetivo terapêutico. Na musicoterapia, o canto é muito utilizado nas experiências re-creativas e de composição musical a partir da história sonora do indivíduo. Para Bruscia (2000, p. 122), as experiências re-creativas envolvem executar, reproduzir, transformar e interpretar qualquer parte ou o todo de um modelo musical existente, com ou sem uma audiência com o objetivo de promover a identificação e empatia, desenvolver habilidades e de interpretação e sentimentos, aprender a desempenhar papéis específicos nas diversas situações interpessoais e melhorar as habilidades interativas e de grupo. Já as experiências de composição musical envolvem auxiliar o indivíduo a escrever canções, letras ou peças instrumentais, assim como registrar em vídeos e/ou fitas de áudio com o objetivo de promover a exploração de temas terapêuticos através das letras das canções, desenvolver habilidades de autoexpressão, planejamento e organização (Ibid, 2000 p. 127), pois “a criação de algo novo é consumada pelo intelecto, mas despertado pelo instinto de uma necessidade pessoal. A mente criativa age sobre algo que ela ama” (CARL GUSTAV JUNG).

 

 

Sendo assim, o canto utilizado como recurso terapêutico aliado com muito amor e dedicação ao próximo se mostra um recurso terapêutico de grande potencial na promoção da saúde mental. Afinal, cada indivíduo tece a sua própria trilha sonora da vida e cabe ao terapeuta trazer uma nova ressignificação a ela.

 

Referências:

AUSTIN, Diane. The theory and practice of vocal psychoterapy. Songs of the self. Philadelphia: Jessica Kingsley, 2008.

BARCELLOS, Lia Rejane Mendes. A música como metáfora em musicoterapia. 2009. Tese.

BRUSCIA, Kenneth E. Definindo Musicoterapia. 2.ed. Rio de Janeiro: Enelivros, 2000.

KATSH, S; MERLE-FISHMAN, CM. The music within you. New York: Simon & Schuster, 1985.

SCOTT, JK. Voice teachers on voice (part 3), Music Education Journal, Gollobin, B.L. and White, H., Abril 1978.

Musicoterapeuta graduada no Centro Universitário das Faculdades Metropolitanas Unidas - FMU
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