A interpretação dos sonhos na perspectiva psicanalítica

Nas civilizações antigas, os sonhos tinham, como principal finalidade, revelar informações sobre-humanas, sendo que os deuses e os demônios eram os protagonistas, tendo a função de “enviar” essas informações. Aristóteles acreditava que os sonhos eram de natureza do espírito humano, diferente de qualquer natureza divina. Em outras palavras, o sonho é o produto da mente humana. A partir disso, surgem, então, duas visões discrepantes: 1ª – verdadeiras e válidas (pois tinha “propósito” de predizer coisas do futuro); 2ª – vãs e destituídas de valores (apenas, condição da mente).

Posteriormente, para Freud (1996), “todo material que compõe o conteúdo de um sonho é derivado, de algum modo, da experiência, ou seja, foi reproduzido ou lembrado no sonho” (p.49). Os sonhos são a continuação da nossa vida em estado de vigília, como se vivêssemos em um mundo paralelo. Quando sonhamos e, depois, acordamos e não lembramos é porque a fonte está além da memória de vigília. Nestes casos, o sonhador tem a impressão de que não há ligação entre o sonho e o estado de vigília. É preciso uma nova experiência para lembrar as recordações perdidas e reconstruí-las. Freud, ainda, nos diz que nossos sonhos são oriundos ou não de fatos empíricos remetentes a infância. “Nada que tenhamos possuído mentalmente uma vez pode se perder inteiramente” (FREUD apud SCHOLZ, 1996, p. 57).

O sonho é o melhor caminho para acessar os conteúdos inconscientes da psiquê humana. De acordo com Garcia-Roza (2011), os sonhos não são absurdos, mas possuem um sentido, portanto podem ser interpretados, pois são manifestações de desejos inconscientes reprimidos. Todavia, o sentido dos sonhos, a priori, é inacessível e incompreensível, tanto para o sonhador, quanto para o intérprete, isto acontece porque o conteúdo dos sonhos são distorcidos/disfarçados, devido tais desejos causarem censura.

Freud chama de Deformação Onírica, o processo no qual o sonho que recordamos após acordar é submetido a uma deformação, com o intuito de recalcar um desejo, sentimento ou pensamento que não condiz com o aceito moralmente, e que causa repúdio, sendo o recalcamento um mecanismo de defesa contra uma ameaça que pode causar sofrimento psíquico (GARCIA-ROZA, 2011). Portanto, o conteúdo do sonho que lembramos após acordar é distinto do conteúdo onírico relatado ao intérprete. O sonho recordado é um substituto deformado de um conteúdo inconsciente, ao qual se pretende chegar através da interpretação.

Os sonhos se dão em dois registros: o sonho lembrado e contado pelo sonhador (conteúdo manifesto), e outro oculto e inconsciente (conteúdo latente), no qual se pretende chegar através da interpretação. Encontrar o sentido de um sonho é percorrer o caminho que dá acesso aos desejos inconscientemente recalcados.

Segundo Garcia-Roza (2011), os mecanismos de defesa fundamentais do trabalho do sonho agem através da distorção do conteúdo latente ou restos diurnos (como, também, são conhecidos), para que o mesmo não se torne consciente. A seguir, serão descritos a Condensação, Deslocamento, Figuração e Elaboração Secundária.

A Condensação refere-se ao fato de que o conteúdo manifesto no sonho é menor do que o conteúdo latente, isto é, o conteúdo manifesto seria uma “tradução abreviada” do conteúdo latente. Ela pode ocorrer a partir de três maneiras:

1ª – Ocultando ou deformando alguns elementos do conteúdo latente;

2ª – Permitindo que apenas alguns elementos do conteúdo latente apareçam;

3ª – Combinando vários elementos do conteúdo latente em apenas um elemento do conteúdo manifesto, ou seja, representando todo um conjunto por apenas um elemento.

O Deslocamento consiste na substituição de alguma representação por outra estreitamente associada a ela em alguns aspectos, porém de maneira deformada. Ele poderá ocorrer a partir de duas maneiras:

1ª – Substituição de um elemento latente por outro mais remoto que funcione como simples alusão, de forma indireta e vaga;

2ª – Mudança do elemento latente por um elemento sem importância, ocorrendo assim, uma descentralização da importância.

Vale ressaltar que ambos os mecanismos acima citados, fazem parte do processo primário do sistema psíquico inconsciente, onde possui como característica a energia livre (princípio do prazer) desprovido de qualquer censura imposta pela sociedade.

A Figuração remete na seleção e transformação dos pensamentos dos sonhos em imagens. Esse mecanismo, por si só, é um dos responsáveis pela distorção resultante da elaboração onírica.

Na Elaboração Secundária ocorre a modificação do sonho, de forma que ele apareça como uma história coerente e compreensível. Outrossim, esse mecanismo faz com que o sonho perca sua aparência de absurdidade.,

O que é interpretado na psicanálise não é o sonho, mas o seu relato. Assim, para quem sonha, o sonho é ininteligível para o psicanalista, contudo, a pessoa que sonha sabe o significado do seu sonho, apenas não sabe que sabe. Isso acontece porque a censura impede de saber.

O soneto apresentado a seguir refere-se a um sonho que manifesta um desejo recalcado de um tio para com a sua sobrinha (personagens fictícios):

SONETTO DI SOGNI

De repente, surgem árvores robustas…
Tigres de olhos grandes e ardentes
Com espíritos combatentes
Duas forças numa união “justa”

Olhos caramelos desejando a vitória
Quando, então, as jaulas emergem do chão
E os outros animais fazem plantão
Tentando manter o controle e mudar essa história

Então, o tigre se metamorfoseia
Tornando-se um coelho indefeso
Assustado ao pé da cachoeira

Diante do medo, ele busca abrigo
Mas nada é coeso
Sob a vigilância iminente do inimigo

Por: Luri Maiara, Juliana Martins, Mayelle Batista e Rômulo Sousa

O sonho relatado no soneto pode parecer, a princípio, ilógico, ininteligível e desprovido de qualquer significado, podendo ser descartado como algo que não possui sentindo nenhum, bem como não possui relação com a vida do sujeito. Entretanto, esse sonho possui um riquíssimo conteúdo a ser interpretado, possuindo elementos correspondentes a desejos recalcados que podem levar a compreensão de instâncias inconscientes.

Esse desejo recalcado refere-se ao desejo sexual que um tio tem por sua sobrinha. De acordo com os valores morais que nos são repassados, principalmente pela família, e que nos são introjetados, tal desejo é visto como inapropriado, não condizendo com o aceito socialmente, considerando que se esse desejo chegar a ter acesso à consciência pode ser ocasionador de sofrimento psíquico.

Os mecanismos de defesas fundamentais que trabalham no sonho têm a finalidade de distorcer o real objetivo de desejo. Quando aparecem nos sonhos “árvores robustas”, é a simbolização da família (árvore genealógica), fonte originária de moralidade, e o mecanismo que está “ativo” é o de deslocamento, pois o objeto real de desejo é substituído por um mais remoto/indireto, mas que, ainda, mantém relação com o real. Os “tigres de olhos grandes e ardentes” referem-se ao “casal” (tio e sobrinha), simbolicamente, se desejando, enquanto os “espíritos combatentes” significam a necessidade de extravasamento dessas energias sexuais, ou seja, desejos correspondentes ao ato do sexo selvagem. As “duas forças numa união ‘justa’” dizem respeito à vontade do tio em ter uma relação de cumplicidade e desejo mutuo para com a sua sobrinha.

Os “olhos caramelos” simbolizam o olhar da sobrinha, refletindo sua inocência e aguçando o desejo pervertido de dominação do tio. O desejo de vitória destaca a vontade de, enfim, conseguirem ficar juntos. As jaulas que emergem do chão se referem à família, controlando e impedindo a manifestação dos desejos de ambos, porque são tidos como inaceitáveis e repudiantes. Os outros animais que fazem plantão significam o medo do tio de que seus desejos sejam descobertos, achando que existem pessoas à espreita, vigiando-o. O “tentando manter o controle e mudar essa história” representam à família e as pessoas da sociedade, que impõem as suas regras e valores, para controlar os desejos do sujeito.

A metamorfose do tigre em coelho mostra a vulnerabilidade do sujeito frente às repressões de seus desejos pela sociedade (a cachoeira), e o medo de julgamento da mesma. Diante desse medo, ele busca abrigo, para se esconder e se proteger de tais julgamentos, mas as coisas, ainda, parecem estar fora de coesão, então ele continua sentindo medo do descobrimento de seus desejos por sua sobrinha. A “vigilância iminente do inimigo” tem relação a esse receio insidioso de ser descoberto.

Nessa perspectiva, os sonhos se tornam, na teoria psicanalítica, um instrumento valioso para acesso à conteúdos inconscientes no setting clínico. O analisando, ao trazer elementos oníricos em seu discurso, manifesta pulsões que sua consciência condena, e, ao mesmo tempo, o inconsciente sente a necessidade de extravasamento destes conteúdos latentes que, por sua vez, encontram resistência para emergir à consciência, através da repressão. A análise dos conteúdos oníricos possibilita uma melhor compreensão das neuroses.

Rômulo Sousa
Acadêmico de Psicologia no CEULP/ULBRA; Estagiário no Serviço de Psicologia - SEPSI; Colaborador no (En)Cena - A Saúde Mental em Movimento.