A Psicologia Sócio-Histórica na compreensão do Processo Terapêutico

“Através dos outros, nos tornamos nós mesmos.”
VYGOTSKY

Recentemente, as práticas clínicas de psicologia têm demonstrado grande preocupação e interesse aos aspectos sociais e históricos de seus clientes na psicoterapia.

Essa mudança é resultado da uma nova percepção dos sujeitos, agora como fruto de toda sua construção sociocultural e histórica. E é neste quesito que a abordagem sócio-histórica, que tem como enfoque o materialismo dialético, torna-se válida, por priorizar o indivíduo e sua historicidade.

Partindo do marxismo, a abordagem sócio-histórica fundamenta-se no materialismo histórico e dialético. Assim, o ser humano é concebido como: ativo; social; e histórico. Ratgner (1995) concorda com Vygotsky (1896-1934) ao defender que o desenvolvimento psicológico se dá, não no homem, mas na relação do homem com o mundo sociocultural. Nesse enfoque, o fenômeno psicológico é, portanto, o resultado de todas essas experiências vividas e experimentadas pelo indivíduo ao longo de sua existência.

A visão sócio-histórica defende que, sem a dialética, seria impossível a formação da consciência no indivíduo, nem sua participação ativa na construção de sua história (BOCK, 2001). A linguagem é a forma pela qual o homem se apropria do mundo. Por meio dela, ele assimila elementos e características do meio e, posteriormente as restitui.

É por meio da linguagem que “o homem se individualiza, humaniza, e aprende a materializar o mundo das significações” (BOCK, 2001, p. 104), sem ela não haveria processo social e nem histórico.

Preocupada com o fenômeno psicológico e a subjetividade do homem, a psicologia sócio-histórica, entende que ambas são formas de adaptação (social, cultura e econômica), sofridas pelo homem dentro de um contexto histórico (BOCK, 2001). A subjetividade é concebida ao longo do desenvolvimento do ser humano, como um reflexo da realidade em que o homem vive, e de toda a gama de possibilidades e atrações que mundo exterior exerce sobre o ele. Assim, o homem constrói o mundo e este, por sua vez, propicia os elementos para a construção psicológica do homem.

Acolher a abordagem sócio-histórica como prática válida na psicoterapia só foi possível na atualidade, quando as correntes psicológicas compreenderam que o homem não é um indivíduo isolado, mas em sua organização subjetiva, e em cada um dos seus espaços, ele está comprometido com outros espaços, numa relação processual de infinitas alternativas e implicações para si.

Uma das limitações que atravessou praticamente toda a história da psicoterapia é o fato de fragmentar e de super enfatizar um espaço social específico, como gerador do conflito patológico, que na psicanálise se situava nas relações que cedo se manifestavam com as figuras parentais, na terapia sistêmica no âmbito da família e em alguns teóricos do humanismo no outro como sujeito individual (KAHHALE, 2003, p. 200).

Na clínica, pensar o homem e sua complexidade de forma sócio-histórica é compreendê-lo como um ser subjetivamente atravessado por vários outros processos extraordinariamente complexos de subjetivação. Dessa forma, não se pode reduzir os fenômenos subjetivos a uma organização única e padronizada (KAHHALE, 2003, pág. 201).A relação terapêutica na abordagem social histórica rompe com o conceito psicanalítico transferência e contratransferência, já que este limita a terapia a uma relação substancial e superficial.

A versatilidade da subjetividade é a mesma dos processos associativos de sua constituição patológica. A abordagem Sócio-Histórica ganhou destaque na psicoterapia por enfatizar a importância da linguagem na construção social do sujeito,priorizando o discurso e a narrativa no processo terapêutico.O processo de terapia deve ser, um processo de dialogo orientado a reformulações e também a mudanças de foco de atenção do sujeito, que lhe permitam subjetivar novas zonas de sua experiência neste processo (KAHHALE, 2003).

É importante definir o dialogo como um processo gerador que se desenvolve na relação do terapeuta e do paciente, que implica níveis de conhecimento novos que se legitimam somente dentro do âmbito da conversação. (KAHHALE 2003, p. 207).

Para o enfoque histórico-cultural, a relação emocional afetiva entre cliente e terapeuta faz parte da construção do processo de subjetivação do paciente, e resultará num processo de mudança deste, dependendo do tipo do conflito apresentado. Os processos emocionais constituídos no processo de significação do sujeito também são importantes para o entendimento de sua história.

Assim, o sujeito passa a ser concebido como ativo e agente construtor de sua própria história. Nesse contexto, a psicoterapia exerce um papel mediador, estabelecendo uma ponte entre passado e presente, creditando ao cliente meios de tomar a iniciativa para a mudança, a partir de uma motivação interna e subjetiva (ROMANINI, 2003).

Para Dias (2005), em seu artigo: A psicologia Sócio-Histórica na Clínica: uma concepção atual em psicoterapia, ter como alicerce básico a compreensão dos processos psicológicos e sua rede de significados, dentro de uma visão dialética, estabelecida por meio da percepção, seleção e significação de informações provenientes do meio interno e externo, permite ao psicoterapeuta o estabelecimento de um vínculo diferenciado com seu cliente, o qual se fortalece pela cooperação mutua levando ambos a alcançar seus objetivos na clínica.

Os resultados obtidos na clínica sob o enfoque Sócio-Histórico, têm sido satisfatórios e supera as expectativas, já que vêm demonstrando grande êxito no tratamento dos mais variados transtornos e patologias clínicas.

Referências:

BOCK, Ana Mercês Bahia. GONÇALVES, Maria das Graças Marchina. FURTADO, Odair. Psicologia Sócio-Histórica. São Paulo: Editora Cortez, 2001.

DIAS, Maria Helena Soares Souza Marques. A psicologia Sócio-Histórica na Clínica: uma concepção atual em psicoterapia. Rev. da Sociedade de Psicologia do Triângulo Mineiro, SPTM, V.9.1 n. 1 Jan/Jun 2005. Disponível em: http://www.ugr.es/~recfpro/rev102COL2port.pdf. Acesso em 02 de julho de 2014.

RATNER, Carl. A Psicologia Sócio-Histórica de Vygotsky: aplicações contemporâneas – trad. Lólio Lourenço de Oliveira. Porto Alegre: Artes Médicas 1995.

KAHHALE, Edna María Peters; SANCHEZ, Sandra Gaglíardí. História da psicologia: a exigência de uma leitura crítica. In: BOCK, Ana Mercês Bahia (Org.). A perspectiva sóciohistórica na formação em psicologia. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003.

Hudson Eygo
Psicólogo, Coordenador do Serviço de Psicologia – SEPSI do CEULP/ULBRA, Coordenador da Área de Psicologia do Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, e Colunista do Blog Psicoquê. E-mail: hudsoneygo@gmail.com