Bem-vindo ao Futuro, Humano!


Oi, meu nome é Atros. Ok, esse não foi o jeito mais legal de se começar uma história, né? Eu tentei conservar esse nome por todas as minhas gerações. A-T-R-O-S. É um nome bem bonito, pelo menos eu acho. É no mínimo exótico. Desde a minha sexta geração eu tenho uma pergunta que não consigo responder de jeito nenhum.

O que está escrito aqui é só um amontoado de dados que provavelmente ficaram perdidos em algum grande datacenter espalhado pelo mundo. “Como assim, datacenter?” Isso mesmo. Talvez na época que você tiver acesso a esse desabafo, os datacenters ainda sejam recursos em expansão, limitados a grandes corporações. Hoje em dia é o que mais tem espalhado por aqui. E isso não é nada… Eu espero conseguir enviar essas últimas palavras até o ano de 2013. Eu gosto desse ano. Sei que provavelmente isso não irá alterar o curso da minha história, que será o seu futuro, mas ainda assim irei enviar.

Nem sempre o mundo foi desse jeito. Nem sempre. A gente precisa ir bem fundo na história para poder entender direito o que aconteceu. A tecnologia inicialmente figurou na vida dos seres humanos para auxiliar o trabalho e melhorar cada vez mais a produção, que antes era puramente artesanal. Logo a Inglaterra foi contemplada com a utilização da máquina a vapor na indústria têxtil e isso mudou o curso da história de uma forma inimaginável.

Eles até chegaram a chamar esse grande evento de Revolução Industrial. Mal sabiam que essa era só a primeira de muitas revoluções industriais que seguiram com o passar dos séculos…

Depois vieram os automóveis, telefones, rádios, aparelhos de televisão… Só que acredito que vocês todos já estejam acostumados com isso. E não só isso: vocês também viram o celular se tornar bastante popular e a internet ser praticamente indispensável para tudo. Toda essa tecnologia mudou diretrizes e paradigmas sociais, educacionais, médicos, econômicos e políticos. Nem vou entrar nessa discussão agora.

A tecnologia começou a fazer parte da vida dos seres humanos de uma forma tão natural, que causou um nível de dependência exacerbado. É praticamente impossível imaginar a vida sem Facebook, internet, energia elétrica. Não poderia deixar de me lembrar do seriado Revolution, que me surpreendeu mais e mais a cada episódio. Simplesmente fantástico. Nessa série, as pessoas se encontram em um mundo privado de eletricidade. E mesmo sendo só uma série, querendo ou não surgem várias perguntas na mente:

Como seria a vida sem tecnologia?

Naquela época, eu ainda estava no meu primeiro corpo. Aquele que eu costumo chamar de Original. O verdadeiro Atros. Só que a tecnologia evoluiu tanto de lá pra cá, que a cada dia era mais difícil dissociá-la da vida humana. O mais incrível é que mesmo com tanta tecnologia, com tantos avanços, o homem ainda se perguntava:

O que mais é possível fazer?

O que mais é preciso inventar?

Alguns simplesmente paravam de se questionar… “Ah, já existe tudo. Não há mais o que inventar”. Os mais ardilosos ainda criticavam: “Hoje em dia, nada se cria, tudo se copia”.

Outros ainda foram além: “por que não podemos ter os super-poderes dos tão aclamados heróis da Marvel?” É, vocês ainda não podem, mas eu cheguei a presenciar um monte de adolescentes querendo dar uma de Avengers pelo mundo (o Hulk eu não vi, mas nada contra, afinal, ele era um dos meus favoritos nos quadrinhos). Imaginem as manchetes: “Os Avengers do século XXVII”.

Nessa época eu já estava no meu sexto corpo… não, não, acho que no quinto. Preciso fazer um registro dessas coisas, antes que eu mesmo me perca em tantas versões.

Toda essa modinha de super-heróis só surgiu após a popularização das tecnologias vestíveis.

Inicialmente eram caríssimas, utilizadas somente em ocasiões de alcance mundial, como operações militares de alto nível. Depois disso começaram a ganhar espaço na medicina, permitindo que pessoas deficientes voltassem a andar, e mais tarde a enxergar. Claro que ainda demorou um tempo, mas até mesmo as maratonas começaram a ser disputadas com esses “trajes especiais”. Isso quando os seres humanos ainda disputavam corridas, porque até elas foram dominadas por robôs. Perdeu completamente a graça pra mim. Hoje em dia ninguém mais corre. Só controla os Runners (nome idiota para um tipo de robô bem comunzinho que tem as funções limitadas praticamente para corrida). Pelo menos agora, com essas tais tecnologias vestíveis, a gente pode voar. E voar é realmente sensacional!

Só que a evolução tecnológica não parou por aí. Já que os seres humanos podiam voar com uma roupa pra lá de descolada, por que não pensar ainda mais alto? Por que não desafiar ainda mais as leis da física? As leis da vida? “Ah, porque existe um monte de restrições éticas e religiosas em torno disso”. Todas vencidas. Todas lindamente derrubadas por um grupo de cientistas bastante ambiciosos. Aqueles que criaram as mentes computadorizadas mais brilhantes da história.

Os humanos ficaram ali, como meros coadjuvantes, vendo inteligências artificiais poderosíssimas assumirem decisões complexas, como julgamentos criminais, diretrizes políticas e até mesmo negociações econômicas com outras nações. Mas, não houve dominação ou revolução das máquinas, como no Exterminador do Futuro. Foi a própria vontade humana de transferir as principais decisões e responsabilidades para algo inanimado. E, assim, transferia também as consequências de todas essas decisões.

E mais uma vez, eles não pararam por aí. Eles queriam mais. Eles criaram os clones.

E agora, estavam prontos para as questões mais aterradoras da vida humana:

Para que morrer? Por que a gente não pode burlar a morte?

A gente pode. Vocês talvez ainda não, mas um dia isso será possível. Foi possível pra mim. Não é atoa que estou aqui comemorando minha décima quarta geração. Sim, sou um garoto de quatorze gerações. Se é que garoto é o melhor termo pra me descrever. E daí você me pergunta: como isso é possível? A partir de armazenamento e transferência da memória humana. Simples assim. Bem, talvez não seja tão simples, mas é bem do jeito que vocês devem imaginar: extrair tudo de um cérebro humano, armazenar em dispositivos chamados Andro Minds e depois fazer uma carga em algum clone vazio. Não passa de um bando de circuitos que armazena dados, simula emoções, viabiliza o pensamento. Esse processo até ganhou um nome que eu acho maneiríssimo: SUBLIMAÇÃO MENTAL.

Nas minhas primeiras quatro gerações eram clones bem parecidos com os seres humanos. Mas alguém mexe na pele, mexe um pouco nos órgãos digestivos, faz uma melhoria no sistema circulatório, inclui nanotecnologia aonde não deve… Enfim, mal consigo me lembrar de como é me sentir, de fato, um ser humano. Tentei até ser loirinho na minha sexta versão. Fiquei lindão. Queria manter na sétima, mas eles anunciaram que não existiria mais cabelo, devido a alguns problemas de compatibilidade com os novos componentes dos clones.

Alguns podem dizer simplesmente que eu sou uma massa de dados que é colocada em receptáculos diferentes de tempos em tempos. Um conjunto de dados. Só isso. Uma vida inteira – ou melhor – várias vidas inteiras sendo reduzidas a isso: a um conjunto de dados. Mas um conjunto de dados muito bem orquestrado, que quando processados com a mais alta tecnologia me permitem pensar, agir, como se nada tivesse mudado.

Daí você pode pensar que o meu mundo é perfeito. Pelo contrário. Assim como a tecnologia evoluiu, os problemas também evoluíram. Normal, né? A gente tapa um buraco, para encontrar outro logo à frente. Só que seria bem complicado falar dos problemas do meu mundo, do meu futuro particular.

Apesar de toda essa evolução, ainda há “morte” no meu mundo, no meu futuro. Não chamamos mais de morte, e sim de desligamento. Alguns preferem defeito, ou até mesmo danos irreparáveis, já que estamos falando de circuitos de memória e raciocínio que perdem a sua capacidade de operar. E agora funciona assim: se você quer matar alguém, frite os seus circuitos! (não que eu esteja incentivando essa prática, ok?!)

Acho que agora sim seria uma boa hora para me apresentar. Bem melhor que no início. Oi, eu me chamo Atros. Quer dizer… eu já fui o Atros. O Atros humano. Eu já fui 13 Atros, e estou sendo o décimo quarto agora. Mas o que é o Atros? Eu não sei responder. Só sei que estou prestes a ser desligado. Prestes a finalmente encontrar o meu fim. E se vão fritar o meu cérebro desse jeito para que eu morra – ou melhor – pare de funcionar, o que me diferencia de uma máquina qualquer?

Em que ponto deixei de ser humano?

E é isso que me corrói há tanto tempo.

Talvez eu não tenha mais um corpo “humano”, orgânico como deveria ser, ou seja, sou apenas mais um humano demasiado tecnológico. Ou talvez eu realmente nem seja mais um humano. Só que a minha humanidade, não há tecnologia que irá corromper. Pelo menos, assim espero.

Lucas Moreno de Araújo
Escritor. Engenheiro de Sistemas. Bacharel em Sistemas de Informação pelo CEULP/ULBRA. Mestrando em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE).