Comer não é pecado

“(…) nem só de pão viverá o homem (…)”(Mateus  4:4)

 

Comer não é pecado. Definitivamente, comer não é pecado. E nem faz mal a saúde. O que faz mal, e isso nossas avós já diziam, é comer demais. E olha que, no meu caso, isso era dito há anos, muito antes dos modismos atuais que ditam formas esqueléticas para mulheres e barriga tanquinho para os homens. Lembro-me da dona Doraci, minha avó paterna, marcando sua opinião,lá pelos anos 1980, com um de seus ditados: “– Come demais seu pateta, amanhã se põe de dieta”.

De simples prevenção familiar, carinhosa e cuidadora, o alerta ao comer demais se converte, em termos religiosos, em uma atenção ao pecado da gula. Pecado este que assume diferentes formas e conotações e acabam extrapolando a preocupação inicial com o “comer demais”. O guloso não quer somente mais comida, ele quer “mais”. E o comer mais (muito mais) é só uma demonstração visível do seu querer.

E o que mais o guloso quer? Dinheiro, poder, status? Não, pois aí estaríamos falando de outros pecados, como a ganância e a vaidade. O guloso não quer “pra fora”, ele quer “pra dentro”. Ele quer algo que possa ser ingerido, engolido, deglutido, absorvido; algo que passe a ser seu sendo parte de seu corpo, de seu ser. Ele quer mais comida, sim, mas também quer, busca, precisa, anseia, por tudo que complete aquele vazio impaciente que parece ser maior do que ele mesmo.

Foto: Irenides Teixeira

“Muitos adultos encaram o alimento sólido ‘como se’ ele fosse líquido, a ser engolido em goles. Tais pessoas são sempre caracterizadas pela impaciência. Exigem a satisfação imediata de sua fome – elas não desenvolveram o interesse em destruir alimento sólido. Sua impaciência está combinada com a gula e a incapacidade para obter satisfação (…)” (PERLS, 2002).

Homer Simpson (personagem criado por  Matt Groening)

Esta insatisfação, no guloso, transforma-se naquele apetite voraz, no desejo por aquele prato especial, no ato de comer sem se dar conta do que está sendo engolido (sim, engolido, pois não há degustação na gula). Não há prazer, ainda que a busca pelo prazer seja uma das características do guloso quando busca se satisfazer à mesa. Essa satisfação não acontece pois o guloso não tem a paciência necessária para esperar que o que foi engolido seja digerido e aplaque sua fome. “Para compreender a estreita relação entre gula e impaciência, basta apenas observar a excitação, a gula e a impaciência do bebê quando ele bebe. (…) Quando os adultos estão muito sedentos, se comportam de forma semelhante, sem ver nada errado nela” (PERLS, 2002).

O guloso é sedento não somente de comida. Ele busca por atenção, afeto, carinho. Ele quer se encher daquilo que lhe faz falta, ainda que possivelmente nada lhe falte; ele não tem a paciência para esperar e poder observar que sua barriga está cheia e sua fome foi aplicada. Ainda que sua barriga, em muitas das vezes, seja sua alma e sua fome seja o nome dado à sua carência.

Daí se desprende que comer demais não é, necessariamente, sinônimo de gula. O mesmo pode-se dizer da busca pelo prazer à mesa, quando nos deliciamos com os sabores de pratos bem elaborados, quando percebemos cada um dos detalhes de sua elaboração e apreciamos os ingredientes que lhe conferem seus sabores tão específicos. Isso não é gula.  “O beija-flor, prazer dos nossos jardins, não é idealista, não beija flores. Devora cinco vezes o peso do seu próprio corpo por dia. Isto não é gula. Gula é o prazer de devorar, o puro devorar pelo devorar” (FLUSSER, 2006).

E é a esse “devorar pelo devorar” que a Bíblia chama a atenção quando alerta sobre os males da gula. “(…) encoste a faca à sua própria garganta, se estiver com grande apetite. Não deseje as iguarias que lhe oferece, pois podem ser enganosas. Não esgote suas forças tentando ficar rico; tenha bom senso! As riquezas desaparecem assim que você as contempla; elas criam asas e voam como águias pelo céu” (Provérbios 23:2-5).

Ao aproximar o “grande apetite” da “tentativa de ficar rico”, a Bíblia não relaciona somente dois pecados capitais.  Ela provoca a percepção de que tanto um como o outro representam o desejo de ser mais, de ter mais, de aparentar mais; desejo esse que por vezes está mais ligado ao anseio de suprir carências pessoais, internas, do que realmente atender necessidades reais. Até porque, lembrando, comer não é pecado, como também não o é desejar ser rico. O pecado, e também a patologia, está quando um e outro não se bastam e viram obsessão. Quando perdemos o foco de nossas vidas e nos deixamos levar pelas nossas obsessões perdemos também o comando de nossa própria sanidade. “Pois os bêbados e os glutões se empobrecerão, e a sonolência os vestirá de trapos” (Provérbios 23: 21).

Nesse momento, “o destino deles é a perdição, o seu deus é o estômago e eles têm orgulho do que é vergonhoso” (Filipenses 3:19). Nesse momento, deixamos de ser nós mesmos e passamos a ser o que queremos. Aí pecamos, segundo a Bíblia. Aí adoecemos, em nossa perspectiva mais terrena.

Quando a gula se torna a mãe de todas as nossas ações é porque desistimos de lutar pelo que desejamos e passamos a desejar o que está mais à nossa disposição. Deixamos de trabalhar para atingir nossos objetivos com nossas próprias mãos e aceitamos o que nossa mente nos propõe. Flusser (2006), de forma poética, lembra que “a vida em sua brutalidade luxuriosa não dispõe de órgão para a gula. Esse órgão é mental, é a mente em oposição e como sujeito realizador da natureza. Todas as goelas de todos os tigres, todas as pinças de todos os escorpiões, todos os braços de todos os pólipos são instrumentos inocentes e inofensivos, se comprados com a mente em sua oposição à natureza e em sua ânsia gulosa de transformá-la em ‘realidade para a mente’”.

Mas se a gula é um pecado tão, digamos, pessoal e se o maior mal que a gula faz é ao próprio “pecador”, por que tanta importância lhe foi dado ao ponto de torná-la um dos pecados capitais? Scliar (2005) nos aponta as razões históricas para tal: “A ascensão do cristianismo, na Europa, coincidiu com um período de pobreza e fome. A vida era curta, brutal, desalentadora; a única coisa que sustentava os seres humanos era a esperança de uma recompensa no Céu. Em contrapartida, havia o Inferno para punir os pecados. Quais os pecados? Uma lista foi elaborada, e ali estava a gula. Por uma razão facilmente compreensível: embuchar-se de comida em meio aos famintos era, no mínimo, um ultraje”.

Scliar também descreve que a gula se aproxima de outro pecado por uma questão, assim, anatômica: “(…) diferente de outros pecados, a gula tem uma expressão visível: a pança. Os doutores da Igreja não deixavam de chamar a atenção para a proximidade entre o ventre e os genitais: a gula levaria à luxúria, à prática pecaminosa do sexo”.

Ah, a pança e a tendência geral de ligar a gula à obesidade e de transformar o gordinho ou a gordinha em seres pecaminosos que, aos olhos de muitos, além de gulosos ainda conseguem ser preguiçosos e irresponsáveis. Nem tanto ao Céu nem tanto a Terra. Nem todo obeso é guloso, nem todo guloso é obeso. Vale lembrar que muitos obesos assim o são por muitos motivos além de um constante ataque desenfreado aos pratos. Aspectos fisiológicos podem estar relacionados ao aumento de peso que foge ao controle.  Entretanto, quando existem elementos psicológicos que levam o obeso a alimentar-se sem controle, tem-se aí aquela situação anteriormente descrita em que a gula se apresenta como patologia ou como expressão sintomática de algo mais profundo.

 

 

De qualquer forma, ao nos depararmos com aquele desejo incontrolável por aquele prato que sabemos que não precisaríamos atacar, percebemos que Roberto Carlos é que estava certo ao indagar: “será que tudo o que eu gosto é ilegal, é imoral ou engorda?”
Fontes:

BÍBLIA SAGRADA

FLUSSER, Vilém. A história do Diabo. 2ª ed. São Paulo: Annablume, 2006.

SCLIAR, Moacyr. O olhar médica: crônicas de medicina e saúde. São Paulo: Ágora, 2005.

PERLS, Frederick S. – Ego, Fome e Agressão: uma revisão da técnica e do método de Freud. São Paulo: Summus Editorial, 2002.

 

Fabiano Fagundes
Bacharel em Psicologia. Graduado, Especialista e Mestre em Ciência da Computação pela UFSC. Professor dos cursos de Ciência da Computação, Sistemas de Informação e Comunicação Social do CEULP/ULBRA