Concretude da autogestão como reinvenção das lutas de massas (ou Assim, nunca voaremos!)

O que precisamos é de um jeito de fazer democracia que esteja grudado na nossa pele, e que faça cada vez mais pessoas sentirem que sua pele pode ter o dom de emanar democracia. Talvez o nome “democracia” não seja tão bom, já esteja muito desgastado, usado para mentiras. Então vou usar outro termo, igualmente polêmico, ou ainda mais: nossas peles precisam emanar autogestões.

A autogestão, é o que me parece, é o principal problema da psicologia do artifício. Para quem não sabe, já há algum tempo que vem sendo feito esse esforço: sistematizar uma série de ideias oriundas de diversas teorias psicológicas, cruzá-las com pesquisas e diversas formas de investigar a natureza da psique, e assim formular um novo campo de conhecimento, dedicado à instrumentalização das pessoas oprimidas e exploradas para a sua libertação através da luta coletiva. Parece-me que as próximas investigações vão continuar teimando em repetir o que todas até aqui já nos disseram: que se trata de um problema de autogestão.

Quero começar a formular essa problemática, no seio da psicologia do artifício, trazendo uma questão concreta para o movimento estudantil de psicologia da UFES, para o movimento estudantil de psicologia e para o movimento estudantil da UFES (assim como, acredito, para todo tipo de movimento social e para todo o movimento socialista, hoje!): o fortalecimento e crescimento das vanguardas deve ser causa ou consequência do fortalecimento e crescimento das bases?

Hoje, ao contrário do que desejamos, temos poucas pessoas de fato implicadas na luta transformadora. O modo corrente de pensar e de viver, é fundado na ideia de que os interesses individuais são o único parâmetro possível, e que a dedicação a interesses coletivos é, ou perda de tempo, ou loucura, ou um atalho para atingir posições de status, e assim usar essas posições para atender a interesses próprios. Diante deste individualismo, vanguarda e massas estão esvaziadas. Isso não é, porém, uma condição irreversível, e a vanguarda hoje é exatamente aquele setor pequenino da sociedade que busca inflamar nas massas a vontade de tomar posição contra o individualismo e contra a atual sociedade.

Porém, há um desafio posto às vanguardas, que acho que elas não compreenderam por completo: como fazer uma multidão, composta por uma infinidade de indivíduos tão diferentes, com tantos interesses distintos, se mobilizar coletivamente em torno de seus interesses coletivos, e legitimar essa pequena elite crítica e pensante como vanguarda?

O primeiro passo, entendo eu, é justamente despir as vestes da arrogância. Precisamos entender que não temos o programa completo da transformação, que essas massas precisam ser cativadas não a comprar o programa que nós, minoria iluminada, construímos, e sim a construí-lo junto conosco. Para isso, é claro, é preciso aceitar a dura situação em que estamos: construir tal programa é trabalhoso, e à primeira vista, nenhum pouco atrativo a quem já está em cômodas posições. Portanto, nosso desafio passa por desmistificar a comodidade em que cada indivíduo das massas está inserido, e mostrar que a condição atual não só é degradante, mas pede um empenho coletivo.

Porém, esse processo de desmistificação se torna mais difícil quando a realidade aparece para as pessoas como inalterável. Quando a construção deste projeto parece ser da mesma natureza que a reforma da atual sociedade, através da política convencional (essa que todo mundo conhece cotidianamente como A política), fica muito difícil atrair as pessoas para a construção coletiva. Na verdade fica difícil até para nós, que já estamos até o pescoço de tão dentro dessa luta (nós, que somos supostamente vanguarda), participar deste processo de transformação. Por isso o que se põe como desafio é justamente isso: inventar formas imanentemente democráticas de decidir como a vida vai funcionar daqui pra frente. Eis o problema da autogestão.

Não devemos reunir as massas e depois começar a experimentar a autogestão. É através do convite para as experiências de autogestão que devemos trazer as massas ao protagonismo da transformação social.

Retomo o problema que coloquei acima. A vanguarda fragilizada que temos hoje, não deve ter como preocupação prioritária o seu próprio fortalecimento (não que isso deva ser deixado de lado! De forma alguma! Mas não deve ser o carro-chefe de sua ação!). Ao invés de se dedicar a uma autoconstrução, iludida de que, se reestruturando, ela será capaz de posteriormente fortalecer e reestruturar as massas, eu proponho outro caminho: entendo que o crescimento quantitativo e qualitativo das vanguardas deve vir como consequência “natural” do crescimento quantitativo e qualitativo das massas. Precisamos entender cada indivíduo como uma importante conquista, e entender que no convencimento político de cada pessoa, se abre o caminho tanto para seu crescimento qualitativo na luta estudantil e socialista, quanto para o convencimento político de outras pessoas a partir daí (crescimento quantitativo). Precisamos fazer da autogestão uma experiência de democracia urgente, apaixonante e compreensível para cada pessoa concreta, e não apenas um utópico e intangível objeto a ser perseguido, como se a democracia no cotidiano daquelas e daqueles que lutam fosse confinada ao campo do futuro.

Insisto que o movimento estudantil, assim como todo o movimento socialista, está confinado ao constante fracasso, caso não se reinvente neste aspecto mais elementar, que é: nunca perder a oportunidade de fazer cada indivíduo se sentir parte de uma construção coletiva, e ao mesmo tempo fazer cada contribuição individual ecoar enriquecendo, da maneira mais imediata possível, os processos coletivos.

A democracia precisa ser palpável, compreensível, precisa ter papel pedagógico ininterrupto na vida de cada uma das pessoas que o movimento socialista organiza. A autogestão precisa ser algo simples de explicar por qualquer transeunte nas ruas da cidade, porque algo vivido de fato (e não apenas teorizado) por cada pessoa em suas comunidades, em suas associações de moradores, em seus conselhos de fábrica, em seus sindicatos, em seus conselhos de escola, grêmios, centros e diretórios acadêmicos, em cada um de seus espaços vividos. A vanguarda que temos hoje, precisa sim se aperfeiçoar, precisa sim se formar politicamente, precisa sim repensar seus modelos organizativos, mas o que ela precisa se dedicar com mais afinco, é a entender que vanguarda não sabe mais do que base, que a palavra da vanguarda nunca pode valer mais do que a palavra da base, e que a base só respeitará de fato a vanguarda quando não se tratar de uma relação de obediência a uma liderança, e sim de uma relação de confiança nas pessoas que dedicam com afinco sua vida à militância. Essas pessoas são admiradas, porque admiram sua base, porque dedicam sua voz a ser voz desta base, porque fazem com que essa base aprenda o que é socialismo com a inteligência da pele (uma autogestão que paira no ar, que se faz tensa nas musculaturas, e não apenas na verbalidade). Uma vanguarda que se posiciona de tal maneira, que não perde oportunidade de fazer a opinião de cada indivíduo e de todo o coletivo ser aplicada da forma o mais imediata possível, naturalmente conquista o coração de novas pessoas para esse exercício de dedicar a vida com afinco à militância. O crescimento qualitativo e quantitativo de qualquer vanguarda, só vai ocorrer de forma saudável, se for assim.

Não estou defendendo qualquer basismo ou qualquer assembleísmo mesquinho. Precisamos apresentar para nossas bases a importância de formas indiretas, mediadas, de deliberação. Precisamos entender que, em certas circunstâncias, será necessário tomar decisões que não podem fazer a consulta individual a cada membro das coletividades envolvidas, e é por isso que delegamos a certas pessoas, em certos momentos, a função de decidir certas coisas. Porém, não podemos continuar na atual postura idiota da quase totalidade da esquerda, de achar que o conjunto da população explorada vai ver sentido em nossos rituais de militância, em que convidamos as massas à ação revolucionária, mas a grande maioria dos próprios quadros das nossas organizações, entidades, coletivos, partidos, mal participa dos processos decisórios sobre como serão essas ações. Nós naturalizamos que é “mais prático”, “mais rápido”, “mais eficiente”, “menos desgastante”, ou qualquer coisa do tipo, utilizar as boas e velhas formas de deliberação acumuladas pelo movimento socialista (e que não devemos jogar fora, enfatizo!). No entanto, acho que precisamos dar um espaço cada vez mais restrito às formas indiretas, mediadas, de deliberação, e não cometer o erro brutal de usá-las no momento em que está em nossas mãos a possibilidade “um pouco mais trabalhosa” de escutar a opinião da maior quantidade de indivíduos possível, e permitir que essas opiniões enriqueçam a formulação coletiva que buscamos. Isso educa as pessoas para a sociedade em que não seremos mais alienadas e alienados da gestão de nossas vidas.

Autogestão é um modo de gerir a vida que precisamos entender como aplicar em cada caso, e até nesse sentido vale a pena escutar as pessoas ao invés de chegar com fórmulas prontas. Que nós, vanguardas, levemos ideias, mas deixemos que as mãos das massas as moldem, ou mesmo que as descartem e as substituam por ideias trazidas por essas massas. Não estou dizendo que as ideias das massas são em si melhores do que as das vanguardas, estou dizendo apenas que o oposto não é sempre verdade, como nos acostumamos de forma viciada a acreditar, convencidos por interpretações equivocadas de algumas experiências verdadeiras.

Sim, a vanguarda tem seu papel indispensável. Sim, sua existência é inevitável, independente das muitas formas que ela possa tomar. Mas o que a psicologia do artifício tenta trazer neste momento é uma verdade sobre seres humanos, que não pode continuar sendo ignorada pelo movimento estudantil e pelo movimento socialista: ações baseadas em saberes estranhos aos nossos corpos, repelem nossos corpos. Quando nossos corpos se reconhecem em certas ações a agir, e em certos saberes, nossos corpos agem. A verdade revolucionária não está pronta, ela está sendo criada a cada nova luta travada pelo movimento socialista, e ou a gente desfaz os edifícios burocratizados de luta que alienam decisão e ação, e edifica novos instrumentos de luta, em que lutar faça sentido para os corpos das exploradas e dos explorados, das oprimidas e dos oprimidos; ou estamos destinadas e destinados a rodar em círculos, sob os comandos massageados de uma vanguarda tão desorientada quanto as massas (ou mais), enquanto achamos que estamos aprendendo a voar.


Nota: Texto originalmente publicado em: http://artificiosocialista.blogspot.com.br/2012/10/concretude-da-autogestao-como.html

José Anezio Fernandes do Vale
Estudante de psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo, membro do Centro Acadêmico Livre de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo e da Coordenação Nacional de Estudantes de Psicologia, faz parte do Coletivo Barricadas - Construindo o Rompendo Amarras, é editor-chefe do blog Artifício Socialista, e vocalista da Banda Antiproibicionista Beck Power.
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