orvalho

Culto à Essência

Pensamentos clamam pra serem ouvidos e infância de pé no chão grita à memória saudosa por um tempo doce que nunca mais… Nesse momento, sons de cristais invadem o instante sem cerimônia e, na mais profunda contemplação, me fazem ouvir poesias de uma Terra Sonâmbula e o vento zunir entre as frestas das janelas trazendo enlevo ao coração confuso pelo amanhã. Não muito longe dali, ondas furiosas quebram na areia em moto perpétuo reafirmando a magnitude da dor… A noite é alta, a lua cheia e o peito se aperta para além do limite. Pra onde vão afinal todos que amamos? Onde se esconde o tempo que nos consome e devora tudo aquilo nos que é caro? Sei não minha mãe. Sei que saudade é coisa dura e dói demais.

Peço então silêncio, quero ouvir o sussurro de amores mágicos que habitaram meu corpo em delícias profanas e eternas, mas que se foram pra sempre; quero o riso ainda criança de meus filhos amados na memória da alma que, nesse exato instante, chora por só poder tocá-los na tela morta de um monitor qualquer; quero ouvir mãe no fogão de lenha ralhando com minha fome pueril e pai recitando poesias que me ensinaram a ser homem sensível à beleza. Não tem distância mais longa nem tempo mais demorado que a saudade.

Silêncio! Proíbo por decreto toda tecnologia que emburrece e condena ao ostracismo a potência criativa do ócio assim como a beleza sensual das bromélias. Basta de virtualidade, preciso urgente do encontro de corpos que dividam dor e alegria na obscura estrada, de fluidos que se fundam com prazer e entrega absoluta.  Preciso de música que carregue o espírito e penetre a carne com sons que arremetam a outros universos. Preciso da textura da pele suada, do cheiro líquido do cio e da febre rubra de lábios que se sugam. Preciso da seiva da vida e do toque das mãos pra não fenecer aos poucos no paraíso da ciber-mediocridade.

Silêncio, por favor, pago o que for pelo hectare de um bom silêncio e pelas salas das casas libertas do altar onde reina diabólica sua majestade televisão. Preciso de gente desejosa que se nota, se devora, se inveja e conversa coisas que valham a pena até o raiar do dia, sem a catarse costumeira dos destilados, entorpecentes e caixas de som que berram porcarias erotizadas, repetitivas  e sem valor.

Silêncio, quero ouvir a juventude tendo algo pra contestar e Cazuza pedindo uma ideologia pra suportar viver… Preciso do silêncio, nada mais que o silêncio das tardes vagabundas e noites de lua onde, deitado na rede, toco inutilmente as estrelas com as pontas dos dedos. Preciso dos amanheceres ao lado de bons amigos, onde olhos se olham e o hálito da pele se faz presente até que a aurora exploda o manto negro da noite em espetáculo magnífico de contemplação.

Silêncio! A natureza chama, reclama e avisa. Nada de eficiência, praticidade, explicação ou lógica. Só o que for essencialmente humano, só contemplação à magnitude do orvalho e à pequenez da existência. Só solidão da boa, só e simplesmente só o silêncio…

Médico Psiquiatra com pós graduação pela Universidade Complutense de Madrid-Espanha e Servizio di Saluti Mental de Trieste-Itália; especialista em psiquiatria pela AMB e ABP. Mestre em Ciências da Saúde pela UNB.
Autor / Co-Autores: