Eu Desapego, quem pega?

Quanto tempo você demora para desapegar das suas coisas? Ou você é daquelas pessoas que não desapegam nunca? Adam Smith não se enganou quando afirmou que o homem é um animal que faz barganhas. Ele afirmava que a troca de coisas é uma característica humana. Smith nasceu em 1723, foi filósofo, economista e em suas pesquisas notou que cães nunca são observados trocando ossos, e que, se um animal deseja algo, a única maneira de conseguir é conquistando o favor daqueles cujos préstimos ele necessita. De fato, apenas hoje em dia podemos apreciar completamente sua alegação mais visionária, a de que um mercado é mais do que um lugar, o mercado é um conceito e, como tal, pode existir em qualquer lugar, não necessariamente apenas em um local físico.

O mercado virtual só se tornou possível com o advento da tecnologia das telecomunicações. É fato que os mercados existem há muito tempo, mas a internet potencializou e modificou algumas formas de compra e venda.

Se você procurar sobre desapegos na internet, vai encontrar muitos textos referentes aos desapegos materiais, à espiritualização, a importância de saber lidar com os sentimentos e com a morte. Acontece que a internet potencializou uma nova forma de desapegos baseado em bens e trocas materiais. São dezenas de sites e grupos em redes sociais que fazem trocas de tudo, sapatos, vestidos, calças, maquiagem, bolsas, acessórios e até ingressos de shows. Considerando que o homem sempre teve o hábito da troca, não há nada de surpreendente nesses sites. O que chama atenção é perceber como, cada vez mais, as pessoas estão praticando o desapego. E é ai que a gente se pergunta: será que, com a influência e o ativismo da geração Y, estamos desapegamos cada vez mais? E, como consequência, nos tornando mais consumistas? Além disso, é importante ressaltar que, cada vez mais esses sites e comunidades estão fortalecendo essa modalidade de comércio. Por exemplo, existe no Facebook um grupo fechado chamado Loucas por Antix’, nesse espaço, as participantes possuem um álbum chamado ‘desapegos’, nesse álbum elas comercializam e fazem trocas, por um valor mais baixo, das peças da marca de roupas Antix. Na maioria das vezes, esses participantes compram pela internet e, por algum motivo, não querem ficar com o produto. A peça que é comercializada dentro do álbum ‘desapegos’ custa um valor mais acessível do que na loja, mas se você não quer comprar, também pode sugerir uma troca. No grupo, também do Facebook, Adoro Farm, as usuárias costumam usar a peça, em média, duas vezes e já colocam no desapego. É muito comum, dentro desses álbuns, encontrar nas legendas: ‘usado apenas uma vez, troco por outra peça no mesmo tamanho’.

O consumidor também está se reinventando, existem pessoas que preferem comprar nesses sites e comunidades a comprar uma peça nova na loja. É o caso da nutricionista Angelina Ferreira, toda vez que uma marca que ela gosta lança uma coleção, ele diz que seleciona os modelos favoritos e publica nos grupos que participa uma lista com os ‘desejos’ que ela aguarda alguém desapegar. “Atualmente, raramente compro uma roupa na loja, sei que, dentro de dois ou três meses, o mesmo modelo vai estar disponível para desapego. Compro por um valor mais acessível. É uma forma de ter as roupas que eu quero pagando um preço menor”, afirma.

Além de grupos, há diversos sites dedicados a trocas e vendas de desapegos.  Ganhei do ex é um site interessante para quem quer se desfazer de peças que já contiveram algum apelo sentimental. Mas administradoras cobram uma taxa de 15% sobre o valor de cada peça que você vender. O site mais conhecido de desapegos é o Enjoei, com design mais sofisticado, há uma variedade extensa de produtos. Lá você encontra desde cosméticos até vestidos de noivas. Além de ser mais abrangente em relação ao que se restringe o site a vender. Por exemplo: eles não aceitam réplicas de peças. E caso não queira pechincha nos seus produtos é o site mais adequado, as pessoas estão geralmente dispostas a pagar mais caro do que no ganhei do ex. E não para por aí, tem também o Peguei Bode, as peça, que entre elas estão bolsas, sapatos, acessórios, joias, relógios e roupas, são de luxo e com um preço bem abaixo do mercado. As bolsas da Louis Vuitton, por exemplo, são em média mil reais e as Chanel que custam em média 13 mil, saem por 4 ou 5 mil, muitas vezes, até por menos. As peças estão sempre em boas condições, e tem muita coisa atual.

O mercado de luxo tem muito espaço para desapegos. No site Desapego chic tem bolsas como Birkin Hermes, Kelly Hermes, Chanel, Balenciaga, Prada, e sapatos como Louboutin entre outras marcas. Todos os produtos são seminovos, autênticos e em bom estado.

Mas, se seu desapego trata-se de um ingresso para um show que você comprou e, por algum novo compromisso, não vai poder ir, saiba que também tem espaço pra você nesse mundo de trocas e vendas online. O site Comprei e não vou faz desapegos de ingressos para diversos tipos de eventos. Um site simples, focado em facilitar o encontro de quem procura ingresso com quem comprou, mas não vai poder ir, da mesma forma que um mural de anúncios ou um classificado de jornal. É prático e está se popularizando muito.

A psicoterapeuta Carolina Andrade, acredita que a facilidade de desapegar sempre existiu, mas que está mais intensa devido ao novo perfil e o novo estilo de vida que as tecnologias nos condicionam. Como temos mais acesso, temos mais possibilidades e com elas, queremos experimentar um maior número de coisas num espaço curto de tempo. Por isso, não vale a pena, para muitos, ficar com uma mesma coisa por muito tempo. “O desapego é a habilidade de não apegar-se a algo ou a alguém, entendendo a natureza das posses e das relações. É importante saber desapegar, mas é importante entender que algumas coisas possuem valor, não é um valor comercial, mas sim sentimental. A geração Y e o novo estilo de vida conectado das pessoas estão configurando uma população que se importa cada vez menos. É uma espécie de banalização. Compramos e adquirimos bens, de roupas a coisas maiores, para uso imediato. E, como na tecnologia, tudo se torna obsoleto muito rápido. Com isso, o consumismo aumenta, porque queremos mais e mais. Mas, se nunca estivermos satisfeitos, onde vamos parar? É preciso refletir o modo como consumismo e o que nos satisfaz e porque queremos sempre mais. As pessoas estão perdendo a noção do consumo. Mas também estão aprendendo que trocar pode ser melhor do que acumular. Desapegar não é ruim, mas como tudo na vida, é preciso ter equilíbrio”, explica.

Mas, há quem acredita que desapegar as coisas com facilidade significa viver melhor. “De um modo geral, podemos dizer que as pessoas desapegadas são tranquilas. Já as pessoas apegadas podem apresentar diversos sintomas como ansiedade, fobia, depressão, ou seja, ou têm medo de perder ou perderam e não souberam lidar bem com a perda”, conta a universalista Ana Cláudia Perez.

E se você se perguntar: Mas qual a diferença desses sites para um e-commerce? São três diferenças básicas: alguns desses sites aceitam trocas, as pessoas já entram sabendo que não vão encontrar produtos novos, mas usados com preços bem mais acessíveis. Devido a essa política, não há garantias, não há um SAC para reclamações, geralmente você negocia com uma pessoa física e não jurídica.

É interessante observar que o desapego remete a uma forma antiga de trocas, daquele tempo em que os mercados eram assim, baseados em trocas de produtos. O criador de ovelha trocava sua lã com o plantador de batatas, o plantador de batatas trocava seu produto por leite e assim sucessivamente. Nesse contexto, sai de cena a empresa, a figura centralizadora de uma corporação e entra em jogo apenas os usuários que vão, sem intermediários, negociar aquele produto. Mas agora, eles fazem isso de qualquer lugar do mundo, basta estar conectado.

Ao mesmo tempo, toda essa história reflete um pouco no consumo exagerado que vivemos hoje. Zygmunt Bauman, importante escritor contemporâneo, diz em seu livro ‘Modernidade Líquida’, que em uma sociedade onde tudo é fluido, as pessoas buscam sua identidade não naquilo que são, mas no que consomem e exibem, esse fenômeno faz parte da fluidez na sociedade de consumo, na medida em que nada é sólido ou conserva a forma por muito tempo.

Muitas pessoas enchem o guarda roupa de coisas mais por uma questão de status. Mas lembre-se, você não é mais legal só porque tem a bolsa da moda, ou mais divertida porque comprou o sapato que é a tendência da estação. Comprar demais pode se transformar em um problema. Quer comprar aquele vestido de renda no qual você está economizando há meses? Tudo bem, desde que esteja fazendo isso por você e não pelos outros.

Por isso, desapegar pode ser muito interessante, mas doar pode ser uma ótima opção também. Não faz mal separar coisas que você não usa e doar para quem precisa. Desapegar é uma maneira de devolver para mundo as coisas que a gente não usa. Existe uma frase que diz que apego mesmo só devemos ter pelas pessoas e pelos animais. Coisas e objetos só têm valor enquanto são úteis para nós de alguma forma. Se você pensar bem, ficar acumulando tanta coisa nos armários e gavetas é uma maneira de ocupar espaço, é o mesmo que pagar aluguel, um dinheiro que não volta! Se algo já não tem utilidade, é chegada a hora de praticar o “desapego”. Afinal, o que não nos serve mais, ainda pode ser bastante útil para outra pessoa.

Karina Francis
Bacharel em comunicação social com habilitação em Jornalismo. Editora do fanzine Rockazine e pesquisadora com foco em música independente. Atua principalmente nos seguintes temas: música, internet, rock, underground e comunicação alternativa. E-mail:
Autor / Co-Autores: