Eu e as palavras

O que são as palavras?

De fato elas não são nada diante de tudo que somos e de tudo que nos cerca.

O que as palavras podem de fato fazer?

Nada, se não formos capazes de senti-las com todo ardor de nosso coração e de nossa alma.

No entanto, Rubem Alves diz: “as palavras fazem de mim, do meu corpo, tudo aquilo que o universo inteiro jamais conseguiria fazer”.

Elas fazem de mim alguém de verdade.

Alguém que busca e encontra.

Que bate e apanha.

Elas me fazem um ser humano, assim como o mistério que me criou me fez: Límpida! Cristalina! Sem máscaras e sem meias verdades.

O que de fato é um poema? Algo tão frágil e inconsequente. Assim como eu: pequena, frágil, inconsequente…

As palavras são como eu. Elas precisam de alguém para ler, recitar, compreender, sentir. Assim sou eu, ser humano, preciso de alguém que me leia, que me sinta, que me ame…

E no silêncio de uma palavra também eu me encontro, pois nesse silêncio entendo a grandeza do que eu desejo e sonho ser. No silêncio da palavra entendo que nada mais sou que algo real.

E assim, como as palavras vão se transformando, quando passada de uma boca para outra sou eu: vão me moldando a cada dia, a cada encontro, a cada desencontro. E quando penso que existo, sou uma palavra perdida no meio de tantas outras…

Assim Deus nos criou, cheios de contradições. Cheios de desejos e sonhos. Seres capazes de entender e amar e, na maioria das vezes, o que somos? Apenas seres mal entendidos, como se tivéssemos sido mal escritos no livro da vida.

Faço das palavras o que eu não faço da minha vida. E em meio a tanta contradição e confusão que sou, quero apenas encontrar a rima certa e não ser uma palavra perdida na imensidão das letras.

Ser algo diferente. Ser alguém que caminha com as próprias pernas e que segue em direção de tudo aquilo que sonha e busca.

O sentido da vida é algo que não se explica, se sente. E assim sendo, não podemos jamais querer que outro ser seja capaz de sentir o que sentimos e muitas vezes não se pode nem mesmo compreender.

Queria mesmo ter o dom de compor o poema da minha vida. Queria poder sentir assim, como sinto, quando escrevo a hora certa de mudar o rumo de tudo o que está perdido e escondido nas palavras não escritas no livro de minha vida. Porque saber quais palavras escrever, no fundo nós sabemos. O que nos impede de escrever é o medo das críticas de quem vai ler.

Acho que eu vejo a vida ao contrário e, por tantas vezes, não me sinto parte deste mundo… São nesses momentos que as palavras, mais uma vez, me fazem sentir melhor. Elas me traduzem como a nota traduz a música.

As palavras me fascinam, mas acima de tudo elas me ensinam e me fazem viver. Me fazem ir de encontro ao lugar que me aceitam como sou.

Quero que as palavras continuem me levando a sentir e a pensar e assim não serei mais uma louca, mas alguém que sempre passa de um mundo para o outro e assim um ser capaz de encontrar algo que vai além do que nossos olhos conseguem enxergar. Quero que as palavras continuem me fazendo sentir do jeito como um dia eu nasci.

Rosely Camargo
Filha de Paraíso do Tocantins, membro fundadora da Academia de Letras de Paraíso do Tocantins - ALP. Autora dos livros: Meus Rabiscos (2004) e Com os Olhos da Alma (2013).
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