fósforo

Fósforo – Breve ensaio sobre a contenção física e a liberdade humana

A partir da leitura rápida de alguns artigos que tratam da “contenção física” em hospitais psiquiátricos, em pronto-socorro, nas salas de espera de hospitais públicos, em clínicas particulares, observei que há várias estatísticas nebulosas (porque geralmente os registros de tais ações são realizados de forma superficial e/ou são incompletos) e muitas dúvidas. Considerando o fato de que não tenho experiência no assunto e não há tempo para mais leituras, resolvi subverter a questão e tentar discutir o tema de uma maneira mais livre. Essa decisão, considerando as reflexões que estão por vir, pode se tornar um paradoxo.

Vários são os questionamentos que se formam a partir do momento que tiramos o direito de uma pessoa de mover-se, de ir e vir. Mas talvez essas indagações sejam demasiado exageradas, dado o fato de que a contenção física em situações de surtos psicóticos, de descontrole emocional, dentre outras, tenha como objetivo a manutenção da saúde da pessoa e de quem a cerca. Logo, a contenção, nesse caso, deve ser assimilada como um ato inevitável e extremamente salutar para a saúde do paciente. Mas não podemos esquecer que a “coisa contida” é um ser humano, cujas crenças e emoções estão tão conturbadas que o fazem enxergar um cenário errôneo do seu próprio contexto, levando-o a ações que não condizem com sua personalidade ou com padrões sociais e éticos pré-estabelecidos (e, em muitos aspectos, necessários à vida em sociedade).

No entanto, foi observado em uma pesquisa¹  sobre “contenção física” em hospitais psiquiátricos do Rio de Janeiro, que muitos dos casos que exigiram tal ação foram registrados depois das 17 horas, “quando os médicos da rotina já não estavam mais presentes no hospital”. Isso é um dado pouco consistente, devido à pequena quantidade de registros avaliada no artigo, mas ainda assim é uma informação que pode ser usada nas reflexões sobre esta situação.

Assim como há situações de descontrole absoluto, em que não parece existir outra possibilidade a não ser a contenção física, há também um despreparo por parte de algumas equipes que atendem tais casos de forma a evitar (a partir de medicação e diálogo, esse último obviamente mais utópico) que essa ação se torne a única possibilidade. As pessoas que são contidas ou levadas a locais de isolamento terão que conviver com essa nova realidade, ou seja, a de sua doença provocar, além do seu próprio mal, o mal daqueles que lhes cercam, de ele se tornar um perigo para si e para os outros.

Se isso se tornar um hábito, então, a questão se torna ainda mais complexa, pois depois que um nível de constrangimento é ultrapassado, algumas variáveis de impedimento são refutadas e talvez a própria consciência do constrangimento se torne uma sombra longínqua, até que desapareça totalmente.

Em Moby Dick, o livro de um homem e sua obsessão por uma baleia branca, um dos personagens tem uma epifania sobre a nossa real natureza (Melville, 1851):

Qual de nós não é escravo? Dizei-me. Pois bem; por mais que o velho comandante me ordene que vá de um lado para outro, por mais que me empurrem e me batam, tenho a satisfação de achar que está muito direito, que todas as pessoas, de uma maneira ou de outra, são obrigadas a servir, quer do ponto de vista físico quer metafísico; e assim vai passando a pancadaria universal e todos devem esmurrar-se uns aos outros e ficar contentes.

O interessante dessa constatação é a ideia de que podemos nos acostumar, de fato, com aquilo que nos parecia absurdo em certo estágio da vida. É essa acomodação com a “pancadaria universal” que temo ao fazer leituras sobre contenção física, internação em ambientes isolados etc., pois não tenho conhecimento suficiente da área para inferir se essas ações estão sendo realizadas por ser a única possibilidade dada às circunstâncias, ou por ter se tornado uma prática, ou por ambos os aspectos.

Essa inquietação vem ao encontro de um outro trecho do mesmo livro, uma constatação que sai da mente de Ahab (Melville, 1851):

Sou um fósforo. É injusto que para incendiar os outros seja preciso gastar primeiro a si próprio.  Que ousei, o que desejei, realizei! Pensam que sou louco. Starbuck acredita. Mas sou demoníaco, sou a loucura enlouquecida. Essa loucura selvagem que se acalma somente para se compreender a si mesma.

A visão da mente de Ahab é poética, mas também é especialmente triste, principalmente se refletirmos que a única alternativa que nos resta ao nos depararmos com alguém enfermo e em crise seja impedir que o “fósforo”, que já se incendeia, incendeie também os outros. Como aluna de Psicologia ainda tento compreender se há meios para fazer com que a pessoa não venha a se tornar um “fósforo”, ao mesmo tempo em que procuro digerir as palavras assombradas do grande Inquisidor de Dostoievski (1879):

Queres ir para o mundo de mãos vazias, pregando aos homens uma liberdade que a estupidez e a ignomínia naturais deles os impedem de compreender, uma liberdade que lhes causa medo, porque não há e jamais houve nada de mais intolerável para o homem e para a sociedade!

[…]

Nenhuma ciência lhes dará pão, enquanto permanecerem livres, mas acabarão por depositá-la a nossos pés, essa liberdade, dizendo: ‘Reduzi-nos à servidão, contanto que nos alimenteis’. Compreenderão por fim que a liberdade e o pão da terra à vontade para cada um são inconciliáveis, porque jamais saberão reparti-los entre si! Convencer-se-ão também de sua impotência para ser livres sendo fracos, depravados, nulos e revoltados.

O grande inquisidor faz aquilo que o define, ou seja, provoca e, consequentemente, perturba. Ele provoca um Deus que não sabe o que fazer com um conceito que, segundo o inquisidor e seus inúmeros fatos, não pode ser vivenciado por nós (as criaturas) justamente porque precisamos nos sentir cativos, contidos, guiados. Então, se nós (no sentido da humanidade) não suportamos a liberdade, por que aqueles dentre nós que são considerados loucos, desajustados, doentes mentais, provocariam nossa reflexão sobre temas como a contenção e o isolamento?

Bom, criei uma falácia facilmente refutada, ousei até equiparar termos aparentemente não passíveis de equiparação (como cativo e guiado), expandi a temática inicial, perdi o foco (contenção física) e divaguei aleatoriamente (e ingenuamente) sobre a liberdade humana e sua relevância.

Um texto sem lógica à espera do fósforo que lhe “libertará” do papel (suponha que ainda há um papel).

Parcilene Fernandes
Mestre em Ciência da Computação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Especialista em Ciência da Computação pela UFSC, especialista em Informática Para Aplicações Empresariais pela ULBRA. Graduada em Processamento de Dados pela Universidade do Tocantins. Bacharel em Psicologia pelo CEULP/ULBRA. Coordenadora e professora dos cursos de Sistemas de Informação e Ciência da Computação do CEULP/ULBRA.