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Futebol e Copa – quando a paixão vira negócio o povo não entra no jogo

Desde o ano de 2007, o Brasil entrou no circuito de sede e realização de grandes/mega eventos esportivos. Neste mesmo ano foi realizado, na cidade do Rio de Janeiro, o Pan-americano. Junto a isso, o nosso país foi escolhido para ser sede da Copa do mundo de futebol de 2014, e a cidade do Rio de Janeiro foi escolhida para ser sede dos Jogos Olímpicos de verão no ano de 2016.

Neste texto vamos no ater à Copa do mundo de futebol de 2014, que vem recebendo diversas críticas, desde as mobilizações de Junho do ano passado. Assim, tentaremos responder o que de fato a copa de 2014 significa para um país de terceiro mundo, com uma economia emergente, e qual o verdadeiro legado e quais as verdadeiras lições que este mega evento poderá deixar para o povo desta nação.

Bem, o que se pode observar é que, o país do futebol não é, necessariamente, contra a copa do mundo, visto que de quatro em quatro anos, milhares de brasileiros e brasileiras torcem por mais uma vitória da nossa seleção nos jogos mundiais, e torce para que os convocados possam representar bem o Brasil, frente as outras seleções de países de primeiro mundo.

Mas, o que se pode analisar, diante das manifestações que vem ocorrendo contra os gastos com a copa do mundo, é que parte do povo brasileiro, de forma “inconsciente”, tomou “consciência” do quanto os interesses sociais e essenciais – saúde, transporte, educação, cultura… – historicamente são deixados de lado, em troca de interesses da iniciativa privada.

Todas as iniciativas buscam favorecer o mercado, e ocorre com a anuência do Estado. E de que forma isso se concretiza? Na flexibilização da legislação urbanística; na parceria público-privada; na desregulamentação dos direitos sociais; na criminalização dos movimentos sociais ONGs (…) e em nome dos grandes projetos e volumosos investimentos, são definidas as obras que redesenham o modelo de cidade em nome dos interesses do capital, e de um planejamento urbano excludente. (ALVES, 2012, p.01)

A Federação Internacional de Futebol Associado (FIFA) conseguiu o que o povo brasileiro sempre lutou para ter em suas mãos, o PODER. Foi a FIFA que desde o inicio determinou quais seriam as modificações que precisariam ocorrer, inclusive alterando leis e legislações, para que os jogos pudessem acontecer, o que demonstra um total abuso da soberania do Brasil.

As consequências dessas mudanças, e das intransigências da FIFA, diante da situação social da saúde, educação, transporte, moradia, entre outros, caíram no imaginário brasileiro como uma bomba prestes a explodir, onde se demonstrou uma situação insustentável. Enquanto se exigia um “padrão FIFA” nas obras da Copa, hospitais e escolas, por exemplo, não tinham e não têm o mínimo de “padrão humano” para atender ao povo.

Mas, afinal, o que justifica de fato esse enorme gasto, que segundo os diversos Comitês Populares da Copa, vai fica na ordem de R$ 65 bilhões? Bom, além de se esperar que o país anfitrião seja o vencedor do evento, espera-se também, que, com todo investimento, a economia do país possa dar-nos resultados a curto prazo, e que possa trazer “benefícios” a sua população.

Porém, no ano de 2007, vários autores já faziam o prognóstico do que seria e para quem seria a copa de 2014 no Brasil,

Estão de voltas as promessas de melhorias na infraestrutura das cidades-sede e do país; estão de volta as garantias de que quem vai financiar as reformas e construção de estádios será a iniciativa privada (mas, claro, com financiamentos camaradas do BNDES); estão de volta as certezas quanto aos valores a serem agregados ao turismo e à economia do país; está de volta, enfim, um estranho sentimento de que quem é contra é anti-patriota e que o povo brasileiro deve se sentir agradecido à FIFA e aos envolvidos na proposta nacional (CBF, Governo Lula, governos de estados e municípios), pela oportunidade de realizarmos e “participarmos”. (SILVA e PIRES, 2007, p. 12-13)

Os megaeventos esportivos, nas últimas décadas, têm representado um importante aliado do capitalismo mundial, no que diz respeito a investimentos bilionários e lucros exorbitantes. Desde 2003, o “Relatório da Força Tarefa entre Agências das Nações Unidas sobre o Esporte para o Desenvolvimento e a Paz: Em Direção à Realização das Metas de Desenvolvimento do Milênio”, já previa o uso do esporte, agora de forma sistematizada e orientada dentro dos moldes norte-americanos, enquanto política pública de estado para atender às suas metas de desenvolvimento dentro das nações.

No quesito “Esporte e desenvolvimento econômico”, o relatório chama a atenção para o fato de que o esporte é tão importante para o desenvolvimento humano, quanto o é para o desenvolvimento da economia. Explica que as atividades econômicas relativas ao esporte envolvem, entre outros aspectos, o estímulo à fabricação de produtos esportivos, à promoção de eventos de grande porte, à ampliação do setor de serviços, além do grande interesse que desperta nas corporações midiáticas. Nesta perspectiva, defende que os programas de esportes oferecem oportunidades de emprego, assim como “estimulam a demanda de produtos e serviços”, sendo também uma “fonte importante de gastos públicos e privados”, tais como os gastos em “infraestrutura (sic) durante grandes eventos e em consumo”. (PENNA, 2012, p.18)

Dessa forma, observa-se no Brasil, que os maiores interessados em fazer com que a Copa de 2014 aconteça, que os investimentos urbanos em infraestrutura aconteçam e que a Copa e o Brasil saiam “bem na foto” perante o mundo, são os grandes investidores, representados na figura das grandes empreiteiras, das grandes multinacionais de consumo, nos grupos de comunicação e o setor imobiliário, que através do evento estão tendo a chance de enriquecerem ainda mais.

Neste momento, chamo a atenção para uma coisa de extrema importância: toda a melhoria urbana-estrutural e social que é consequência dos jogos, e dos investimentos do setor privado e público, e que poderão vir a beneficiar o povo deve ser levada em consideração, visto que são poucas as oportunidades que temos de ver ganhos reais que afetem diretamente as nossas vidas. Porém, não devemos cair no engano de que estas melhorias foram pensadas para diminuir os problemas urbanos existentes nas grandes capitais. Não se deve cair também, na fantasia de que as obras da Copa foram pensadas para atender a população e muito menos que essas melhorias mínimas vão sanar os problemas estruturais que temos.

Em um relatório do Tribunal de Contas da União em 2011, podemos verificar como estavam até então sendo tratadas pelo Ministério do Esporte as obras para a copa,

A partir da inspeção realizada no âmbito deste processo, verificou-se a insuficiência das análises técnicas e de custos das obras de estádios e mobilidade urbana relacionadas à Copa do Mundo de 2014. Observou-se então a necessidade de maior participação desta Corte nessas análises, apesar de essa atribuição não constar do rol de competências do TCU, uma vez que se trata de financiamentos concedidos pela Caixa e BNDES (…) Além disso, foram verificadas falhas no processo de acompanhamento das diversas ações relacionadas ao evento pelo Ministério do Esporte. (BRASIL, 2011).

As consequências da falta de planejamento e da falta de participação do povo já podem ser sentidas, visto que os diversos comitês populares da Copa existentes nas cidades sedes do evento, já relatam os prejuízos e os abusos cometidos contra a população. Estima-se que 170 mil pessoas serão removidas de suas casas, por causa do reordenamento urbano, principalmente no entorno dos estádios. E adivinha para onde estas pessoas estão sendo encaminhadas? Cada vez mais para as periferias, longe dos centros e da visibilidade dos turistas.

Nos países onde ocorreram megaeventos semelhantes, como china (Pequim) e África do Sul, as intervenções urbanísticas buscaram eliminar a pobreza do entorno dos estádios e a tendência com essas experiências é que a população pobre foi banida de vivencia e convivência nos centros urbanos. (ALVES, 2012, p.01)

Todos os despejos servem somente para causar boa impressão a determinadas áreas, e com isso valorizar determinadas regiões, fazendo com que a especulação imobiliária garanta lucros altos a custo do despejo de milhares de famílias.

Outro fato que merece o devido destaque é que a terceirização das obras e a urgência para cumprir os prazos de entrega, colaboraram até agora para a morte de 09 trabalhadores, tragédias que já vinham sendo anunciadas pelas greves que ocorreram durantes as construções dos estádios e que mostravam a falta de fiscalização nas condições de trabalho.

Outro problema é o superfaturamento nas obras, o que demonstrou mais uma vez a total falta de planejamento e transparência dos recursos envolvidos. Entre vários exemplos, podemos cita o caso da cidade de São Paulo, onde o Comitê Popular da Copa do estado denunciou que no final do ano de 2010 o custo do estádio do Itaquerão era estimado em R$ 530 milhões, porém, em maio de 2011 esse custo já era de R$ 1, 07 bilhões.

O que fica de legado com a Copa?

Diante de tudo o que foi colocado, a Copa, além de estar sendo um espaço para os ricos ficarem mais ricos, pode ser considerada uma aula de onde podemos tirar 02 lições para a geração de jovens, que se colocam nas ruas para criticar o sistema político do nosso país.

A primeira lição que devemos nos atentar é para o fato de que, não podemos mais cair na ilusão de que a forma político-econômica em que vivemos, pode algum dia resolver os problemas do povo. Portanto, os problemas de moradia causados pela especulação imobiliária, os problemas de transporte urbano causado pela falta de planejamento das cidades e pela falta de investimento em transporte coletivo público, os problemas na saúde causados pela falta de uma reforma no SUS, os problemas na educação causados pela falta de investimentos em escolas e universidades públicas, entre outros, sempre serão problemas atuais, se os ricos continuarem a dizer de que forma o dinheiro público dos nossos impostos deve ser gasto.

Da forma como nossa economia está organizada, os interesses da iniciativa privada sempre serão mais vantajosos financeiramente, frente aos interesses da população. Assim, fazer estádio novo vai continuar sendo prioridade frente à garantia de moradia digna para o povo.

E para não cairmos no erro de somente culpar partido político “A” ou “B” pelas mazelas históricas de nossa nação, a segunda lição que devemos nos apoiar, e que completa a primeira, é para o fato de que nosso sistema político não dá mais conta de representar o povo. As pessoas e os movimentos sociais saíram às ruas em junho do ano passado, e mostraram que precisam ter vez e voz na política, por isso a necessidade e a urgência de uma ampla reforma do nosso sistema político, devemos sair da democracia representativa e avançarmos para a democracia participativa.

O povo deve ter condições reais de eleger ao congresso pessoas que representem os negros, as mulheres, as juventudes, LGBT, trabalhadores… O povo deve ter condições de dizer de que forma quer que seja gasto o dinheiro público e quais as prioridades que temos, o povo precisa ter o poder de decidir, por exemplo, quais megaeventos querem sediar.

Atentando-se para este fato, dezenas de movimentos sociais e sindicais reunidos em uma plenária em São Paulo, em novembro do ano passado, tiraram como proposta realizar um Plebiscito Popular, durante a semana da pátria – 1 a 7 de setembro – para perguntar ao povo se o Brasil é a favor de uma nova Constituinte Exclusiva e Soberana do Sistema Político, pois só a partir dessa nova constituinte, construída com representações dos diversos setores da sociedade, sem a interferência do congresso, é que poderemos mudar as regras do jogo, e só assim o povo vai poder entrar em campo, só que agora para ganhar.

Referências:

ALVES, Mércia. Copa do mundo – de qual legado se está falando?Endereço:http://www.portalpopulardacopa.org.br/ Acessado em: <20/05/2014>

BRASIL. Tribunal de Contas da União.Dispões sobre copa do mundo de 2014. Monitoramento. GRUPO I – CLASSE V – Plenário TC 023.291/2010-9. 2011.

COMITÊ POPULAR DA COPA DE SÃO PAULO. Cartilha copa pra quem? São Paulo, 2014.

PENNA, Adriana Machado. Megaeventos esportivos no Brasil: políticas públicas para a expansão do capital. In: VII Colóquio Internacional Marx E Engels. São Paulo. 2012

PIRES, Giovani De Lorenzi; SILVA, Mauricio Roberto.Do Pan Rio/2007 à copa 2014 no brasil. Que Brasil? E para qual Brasil? Motrivivência Ano XVIII, Nº 27, p. 09-17 Dez./2006.

UZZO, Karina Gaspar; SAULE JÚNIOR, Nelson. Conhecendo o direito: proteção e garantia dos direitos humanos no âmbito de mega projetos e mega eventos – São Paulo: Instituto Pólis; Brasília: Secretaria Especial de Direitos Humanos, 2012. p. 65.

Jeffirson Ramos da Silva
Formado em Licenciatura Plena em Educação Física pela/UNEB – Campus XII. Professor da Rede Municipal de Educação de Palmas/TO. Membro do Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais – IPDMS/TO. Militante e Coordenador Nacional do Estado do Tocantins do Levante Popular da Juventude. E-mail: jeffirson@hotmail.com