Histérica e Magérrima

Outro dia fiquei abismado ao ver, por indicação de uma colega de faculdade, um blog destinado a fotos de mulheres que fogem a padrões pré-estabelecidos de beleza.

Trata-se do The Nu Project, mas não o indico pra quem não quer sair da posição de comodismo, e muito menos quem não quer contestar sua realidade. As imagens são curiosas, criativas e, em muitos casos, chocantes.

A primeira coisa que me veio à cabeça ao observar o ensaio no site foi: O que diz que estas mulheres não são bonitas? Por que a gordura é tão desprezada por nossa sociedade? Qual o crime em se estar acima do peso? Em nossa contemporaneidade a falsa liberdade moralista roubou dos seres humanos até o direito sobre o próprio corpo, imprimindo em nossa personalidade uma imagem que deve ser mantida, seguida e copilada. Mas, até que ponto meu corpo representa minha identidade? Sou o que ostento, ou o que ostento se corrompeu e assumiu a forma do que sou?

É fácil perceber esse movimento social em busca do corpo perfeito, basta nós nos atentarmos para o crescente número de pessoas, nas mais variadas faixas etárias, que frequentam as academias e se matam fazendo exercícios físicos, usam anabolizantes, tomam inibidores de apetite e mergulham em dietas milagrosas muitas vezes sem preparo algum, outras vezes, apoiados em dietas e na orientação profissional de pessoas que se justificam na ciência ao proclamar: Abaixo ao gordo!

Foto: arquivo http://thenuproject.com/

Mas quem foi disse que gordura não é sinônimo de felicidade?

A imagem pré-concebida e difundida pelas mídias atuais é a de que pessoas morbidamente gordas são/estão depressivas. Essa imagem está embutida em minha cabeça quando penso em x-burguer ou em uma porção de batatas fritas, por exemplo.

Não se pode mais sentir prazer em comer?

Não existe mais felicidade, beleza e nem saúde fora de um corpo magro?

Questões que nos provocam a (re)agir. Mas, diante das maravilhas calóricas que o mercado nos oferece, ficamos paralisados e muitos de nós não consegue alcançar o peso ideal e, cada vez mais, depositamos na comida a solução para a solidão demasiada, as frustrações.

“E dale guloseimas para para os gordinhos.” O mercado discrimina, mas o mercado estimula e sustenta produtos altamente calóricos que viciam e deprimem.

Por que corpos esculturais são tão ovacionados na atualidade?

É tudo culpa de nossa sociedade que prega uma saúde vinculada a um corpo magro, e moldado por horas e mais horas de dieta e academia. “Vamos lá, todo mundo, contabilizando calorias”.

Mas…

Até que ponto o belo é magro?

Não podemos esquecer o outro lado: o dos corpos esqueléticos de pessoas que, na privacidade de seu banheiro, buscam no vômito uma solução patológica para seus problemas com a balança, vomitando até o copo d’água, muitas vezes, a única coisa consumida ao longo do dia inteiro.

E viva à bulimia, à idiossincrasia, e ao ceticismo!

Agora, perdido em meio às imagens do site, fico pensando que a mulher, por natureza, é um ser belo. Suas formas divinas, mais arredondadas ou não, são agradáveis e extremamente sensuais. A própria Vênus de Milo, imagem por centenas de anos aclamada e tida como ícone de beleza, é cheia de formas curvilíneas.

O Nascimento de Vênus, de Sandro Botticelli, c. 1485.

E o que mudou?

Fomos, ao longo das décadas, nos prendendo a estereótipos e padrões de beleza. Culturalmente, o fora do comum tornou-se aversivo, ridicularizado e corrompido. A humanidade tem se perdido em acordos culturais mudos, que pregam a discriminação e retaliação de forma ativa e cientificamente estruturada. A condição humana é hoje, tudo aquilo que é moralmente aceito. O resto é esquisito, irritante, dispensável! Aprendemos desde o berço a não conviver com o diferente. É o neoegoísmo de nossa sociedade, e porque não dizer, narcisista?

Foi o homem quem se corrompeu, e se perdeu em sua bestialidade. Em muitas situações, somos mais parecidos que nossos parentes primatas, do que esperávamos. Por vezes, até menos racionais.

O site traz fotos de mulheres que carregam mais que um corpo fora de forma. São pessoas que carregam um rosto moldado por um sofrimento que não precisa de palavras para se manifestar. O nu artístico dessas mulheres é carregado de significado.

Elas não estão exibindo seus corpos em troca de pena, nem implorando pela misericórdia de uma sociedade vil e hipócrita. Ao contrário, elas estão gritando por dignidade, direito a liberdade e ainda igualdade, sendo apenas elas mesmas.

O que o site almeja buscar com essas fotos vai muito além de uma simples aceitação social dessas mulheres. As fotografias cobiçam despertar em cada mulher a (re)descoberta do amor por si mesma, pelo seu corpo, por sua autoimagem, seja ela como for.

Meu propósito aqui também não é o de defender a obesidade, nem o de levantar a bandeira a favor dos gordinhos, longe de mim. Também concordo que se é comprovada uma patologia, a pessoa tem sim direito de buscar ajuda. Tampouco quero é o de desacreditar a ciência, mas sim, alertar a todos para questões atuais, pertinentes e que precisam ser abertamente debatidas.

Para conhecer o The Nu Project acesse: http://www.thenuproject.com

Hudson Eygo
Psicólogo, Coordenador do Serviço de Psicologia – SEPSI do CEULP/ULBRA, Coordenador da Área de Psicologia do Portal (En)Cena – A Saúde Mental em Movimento, e Colunista do Blog Psicoquê. E-mail: hudsoneygo@gmail.com
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