Manicomialidade versus Organização popular revolucionária: uma batalha sangrenta!

Eu não costumo falar muito sobre lutas em meus escritos, não sou do tipo que curte muito o MMA, sei do Anderson Silva por causa do clipe da Marisa Monte, mas hoje eu decidi encarar o clima de coluna de esportes, e vou falar um pouco sobre essa que promete ser uma grande luta. Vou falar um pouco sobre cada uma das lutadoras, e depois comento sobre o que nos aguarda neste grande combate.

Manicomialidade

Ela é uma verdadeira máquina de guerra! Uma espécie de Golias, cruel e sanguinolenta, gosta de esmagar as cabeças de suas adversárias e de seus adversários. Sozinho, ninguém pode contra ela, a cabeça de um ser humano cabe em sua mão, e ela gosta de socá-las contra o chão como se fosse um coco, cujo recheio só se alcança depois de quebrá-lo. O seu modus-operandi é muito simples: classificar as pessoas como anormais, graças à diversidade de seu modo de funcionamento, e nomear essa anormalidade como “doença mental”. A partir disso, domina-se o corpo da pessoa “doente” sob o argumento de que este controle é necessário para a cura, e também sob o de que uma pessoa mentalmente doente não tem condições de definir seu próprio destino. Com isso, este corpo se torna fonte de lucros, pelas mais diversas vias, que vão desde a comercialização de remédios em grande escala, até o recolhimento de fortunas através de manicômios lotados e desumanos. A manicomialidade é uma forma de fazer dinheiro sobre preconceito, e nada tem a ver com saúde. Também é uma forma excelente de calar vozes destoantes, e não é à toa que o reitor Rodas, da Universidade de São Paulo, buscou firmar convênio com clínica particular para atender à comunidade universitária que esteja sofrendo de transtornos mentais e vício em drogas. A manicomialidade facilmente esmaga a cabeça de quaisquer estudantes, docentes e técnico-administrativos que ousem serem vozes destoantes dentro do império uspiano, não é difícil argumentar que um manifestante é um doente mental e, portanto, deve ser, para seu próprio bem, compulsoriamente internado.

Na lógica individualista de sociedade em que vivemos, e ainda mais com as dificuldades que as famílias vivem para atender financeiramente aos desejos que lhes são provocados todo dia pela publicidade, não é de se espantar que as famílias queiram se livrar das doenças, e que se internem os doentes mentais. Mas nem sempre é assim, muitas internações são tentativas de cuidar da saúde do paciente. A manicomialidade faz parte de uma lógica maior de saúde, em que a causa da doença é BIO-médica, ou no máximo, biopsicossocial (onde o social é apenas mais um dos vários fatores genéricos e abstratos), uma lógica em que um lado é paciente, e o outro lado é agente da saúde do paciente. Lógica em que, de preferência, o médico é o agente e os demais profissionais de saúde devem auxiliá-lo em sua missão superior de cura. Nessa lógica, uma pessoa doente é paciente, é passiva, não tem voz sobre o destino de seu próprio corpo, de seu próprio tratamento, quem manda é o profissional de saúde, em especial o médico. A manicomialidade, não por acaso, ficou identificada com a psiquiatria, e existe uma psiquiatria conservadora, que de fato é manicomial.

O seu nome vem justamente dos já citados manicômios, que são casas de horror, feitas para trancafiar os loucos, cujos corpos estão inadequados ao mercado de trabalho, e transformá-los em dinheiro de alguma forma, ou calá-los quando suas vocês são inconvenientes. Com o tempo o manicômio começou a inventar que era um hospital, e claro que o nome dele tinha que reivindicar a autoridade de uma especialidade médica, aí ele virou “hospital psiquiátrico”. Ganhou uma inimiga chamada Luta Antimanicomial, que às vezes dorme no ponto e luta contra os manicômios, como se a queda das paredes de um manicômio fosse derrotar a manicomialidade. A manicomialidade é um valor social, é um sentimento que é colocado no peito de cada um de nós desde o nascimento, convencendo a uns de que devem temer ou controlar os loucos e drogados (ou temer e controlar ao mesmo tempo!), e convencendo a outros de que são inferiores por ser loucos ou drogados, e que como doentes mentais que são, devem se deixar controlar, abrir mão da posse de seus corpos. Quando a Luta Antimanicomial está esperta, ela enfrenta a Manicomialidade, e não se restringe apenas ao nível da desconstrução civil (luta contra os manicômios, contra os prédios, contra as paredes). A Luta Antimanicomial quer que os manicômios acabem, que sejam substituídos por “serviços substitutivos”, formas de atendimento à saúde das pessoas que, de fato cuidem da saúde, sem aprisionar. Mas é preciso lutar para que fora dos muros dos manicômios, seja nos serviços substitutivos, seja na cidade e na sociedade, não haja manicomialidade.

É uma grande luta, e a Manicomialidade não tem facilidade em esmagar a cabeça da Luta Antimanicomial, mas ela tenta. E com a cooptação de militâncias antimanicomiais por parte do governo petista (considerando que o PT outrora já foi um partido que combateu a manicomialidade, e que hoje no poder finge jogar dos dois lados pra conseguir favorecer os interesses econômicos dos empresários da psiquiatria conservadora, das comunidades terapêuticas e do proibicionismo), a Luta Antimanicomial às vezes se acomoda na “luta de gabinete”, nos enfrentamentos meramente burocráticos e institucionais, que uma vez ou outra até incomodam à Manicomialidade, mas no geral a fazem rir.

E é justamente pra ajudar a Luta Antimanicomial, minha grande amiga, minha grande companheira, minha grande amada, nesta sua luta sangrenta, que eu apresento uma parceira que pode ser a arma de guerra à altura, que a Luta Antimanicomial precisa pra derrotar a Manicomialidade!

Organização Popular Revolucionária

Se a Burocratização da Luta Antimanicomial é a Kriptonita que a enfraquece, o seu antídoto está aqui: os ricos dizem que ela é feia, que ela é baderna, que ela é uma monstra, mas ela é na verdade uma linda guerreira, quase uma Xena das causas sociais. É difícil entender de onde vem tanto poder, mesmo porque existem muitas sósias dela por aí, que lhe tiram todo o crédito! Mas quem já a viu lutando fala que não tem nada igual no mundo das lutas, e eu acho que só ela pode trazer a vitória para o nosso time, para o time da Luta Antimanicomial. Vamos entender o mecanismo das suas estratégias de luta:

A Organização Popular Revolucionária é, em primeiro lugar, uma organização, e isso é um resgate do que a Luta Antimanicomial já tem em si, durante toda a sua história. É gente se organizando pra desorganizar a manicomialidade, porque um preconceito que mantém interesses economico-políticos tão poderosos só pode ser derrotado se as pessoas se juntam, se suas diferentes experiências de vida são analisadas de maneira organizada, e se as forças de cada pessoa são organizadamente unidas, pra terem o poder de enfrentar a esmagadora de cabeças.

Em segundo lugar, ela é popular. Porque a manicomialidade atinge gente de todas as classes sociais, mas é muito mais fácil resolver os problemas dela quando você tem dinheiro. O problema é que a grande maioria das pessoas que a manicomialidade quer decapitar, são pobres, vivem em periferias, não têm condição de pagar pela assistência que lhes é negada, e mesmo as pessoas ricas cujas cabeças a manicomialidade aperta, ela aperta mais não esmaga… Se não ficou claro, a Manicomialidade é amiga dos ricos, e os ajuda a ficar ainda mais ricos, então sua inimiga precisa ser popular. A organização popular é aquela que ajuda às pessoas que a ordem vigente desorganiza, e que é feita por essas pessoas. A ordem capitalista quer o povo desorganizado, então se o povo encontra formas de se organizar, pode começar a ter forças para enfrentar essa ordem. Se a ordem capitalista é manicomial, se essa ordem faz com que vários indivíduos sofram nos seus cotidianos as exclusões e os problemas causados pela manicomialidade, a Luta Antimanicomial precisa dialogar com cada uma dessas experiências, traduzir suas contradições pra que todos esses indivíduos falem a mesma língua, e se reconheçam como um só e mesmo grupo, como uma só e mesma voz, que se reconheçam como povo, que pode lutar contra os interesses manicomiais elitistas, e por interesses antimanicomiais populares. No cotidiano dos bairros, das comunidades, das famílias e ruas, dos lares, no cotidiano dos serviços de saúde, dos CAPS, das residências terapêuticas, das escolas e praças, as diversas experiências populares vão se unificando e se organizando, a partir das diferenças e das igualdades, para lutar pelo direito de ser diferente, sem ser calado, trancafiado, excluído, desumanizado. Precisa ser uma organização popular, por entender que algo unifica os loucos e drogados com suas famílias, com os profissionais de saúde mental e com os estudantes que também se apaixonam por esta luta: o que nos unifica é a luta contra o caráter elitista da manicomialidade, que coloca acima do povo os interesses econômicos e de poder.

E diante disso, nossa guerreira é, em terceiro lugar, revolucionária. Ela é revolucionária em seu horizonte, em sua perspectiva, porque é impossível que a Luta Antimanicomial faça uma revolução dentro da saúde mental, sem que se acabe com o capitalismo. E é justamente por isso que a Luta Antimanicomial deve ser revolucionária, e não meramente reformista. Explico-me: a manicomialidade é uma peça do quebra-cabeça capitalista que não pode ser substituída por uma peça antimanicomial, o próprio sistema tratará de fazer a nova peça funcionar dentro da lógica maior do sistema. Não tem como acabar com a máquina capitalista quebrando uma ou outra de suas engrenagens, é preciso romper de uma vez com o sistema. Lutas reformistas são inevitáveis, quando acompanhadas da luta por revolução e pelo fim do capitalismo, mas enquanto a Luta Antimanicomial priorizar uma “sociedade sem manicômios” que seja um capitalismo reformado, um capitalismo sem manicômios, o capitalismo continuará rindo da cara da Luta Antimanicomial, assim como o noivo que promete o casamento para a noiva ingênua, dizendo que ama pra levá-la pra cama. Quando a Luta Antimanicomial aceita o funcionamento burocrático, e se restringe a disputar por dentro do estado o fim dos manicômios e da manicomialidade, está agindo como se a virgindade fosse uma moeda de troca, ou algo do tipo. Acredite, Luta Antimanicomial, o Capitalismo não te ama, ele só quer te comer. A organização popular da Luta Antimanicomial PRECISA ser revolucionária, para que ela possa fazer frente a esse sistema de exploração e exclusão em que vivemos.

Com isso, quero dizer que as contradições individuais, do cotidiano de cada pessoa que a Manicomialidade tortura, tem a ver com um só e mesmo sistema, e que esse sistema e essa tortura só podem cair se cada uma dessas pessoas se juntarem, se debaterem os problemas de seus bairros, se lutarem por democracia na gestão do SUS, por mais verba para os serviços públicos de saúde, pela criação de mais serviços substitutivos, mais vagas e leitos com atendimento digno, melhores salários e condições de trabalho para os profissionais de saúde, formação de qualidade nas universidades, voltada para o pensamento crítico e não para a aceitação passiva, por escuta séria à vos dos usuários nos serviços de saúde, para que eles não sejam mais pacientes, e sim agentes de seu atendimento, por espaços de trabalho e estudo para os ditos loucos e drogados, por assistência farmacêutica digna, sem a influência das empresas oportunistas dos remédios, por legalização das drogas (não para incentivar mais uso, mas para que os usuários não se sintam criminosos, e possam buscar atendimento nos serviços de saúde, quando necessário), pelo fim do lucro sobre a venda das drogas lícitas e ilícitas (desde a maconha e o crack até o cigarro, a cerveja e os remédios, já que tudo isso pode ser produzido por empresas estatais, sem lucro e sem publicidade, sem incentivo ao consumo, para atender aos usuários, e com a verba da venda revertida para custear o atendimento no SUS), por espaços de lazer e de cultura nas comunidades, para que as pessoas adoeçam menos da mente, e para que a loucura e o uso de drogas sejam cada vez menos problemas, e cada vez mais características e escolhas de cidadãs e cidadãos livres, em uma sociedade sem manicômios e sem exploração.

São muitas as bandeiras de luta, e a luta também precisa ser muita, mas ou a gente sai dos gabinetes e da burocracia e faz a Luta Antimanicomial ser uma Organização Popular Revolucionária, ou continuaremos caminhando para a barbárie que esmaga as nossas cabeças, através da Manicomialidade, do Racismo, da Homofobia, do Machismo e de tantos outros braços e tentáculos desse grande inimigo que se chama Capital!

Toda luta antimanicomial deve ser anticapitalisma e toda luta anticapitalista deve ser antimanicomial! Quem é que vem conosco pra essa luta?


Nota: Texto originalmente publicado em: http://artificiosocialista.blogspot.com.br/2012/12/manicomialidade-versus-organizacao.html

José Anezio Fernandes do Vale
Estudante de psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo, membro do Centro Acadêmico Livre de Psicologia da Universidade Federal do Espírito Santo e da Coordenação Nacional de Estudantes de Psicologia, faz parte do Coletivo Barricadas - Construindo o Rompendo Amarras, é editor-chefe do blog Artifício Socialista, e vocalista da Banda Antiproibicionista Beck Power.
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