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Motivação: a droga do século

Profissionais especializados em processos motivacionais estão se proliferando por aí. Nas empresas, consultores de RH são peças fundamentais para manter os funcionários motivados. Mas, para que eles precisam de motivação? Para fazer um trabalho que não os realiza e receber um salário que não os compensa por isso. Mesmo os que recebem bem precisam de motivação. O baixo salário nem sempre é o problema. Quando o trabalho não realiza, busca-se a motivação no pagamento. Mas, e quando o pagamento, mesmo generoso, não nos realiza da maneira que o trabalho deveria realizar? Aí é preciso buscar motivação em outros lugares. Onde? Profissionais da motivação são especialistas em inventá-las e em nos convencer de que as metas e os objetivos propostos por eles podem nos dar o sentido que buscamos em vão num trabalho estafante.

Quando o namoro está ruim, buscamos motivação na promessa do casamento. Quando o casamento está ruim, buscamos motivação nos filhos. E para criar os filhos buscamos motivação na ilusão de que com eles estabeleceremos, finalmente, a relação ideal; ilusão essa que acaba quando os filhos crescem e a relação com eles acaba sofrendo dos mesmos problemas básicos de todas as outras. A promessa do casamento nos motiva a continuar ignorando o fato de que o namoro está ruim; os filhos nos motivam a fugir da realidade de um casamento que não está dando certo; a ilusão da relação ideal é a motivação que sempre nos leva a buscar nos outros a intimidade que não temos com nosso próprio eu; e as metas e objetivos do trabalho nos motivam a acreditar que há um sentido em toda a vida que deixamos de viver para trabalhar. A motivação do namoro não está no namoro em si, pois o namoro é ruim. O mesmo vale para o casamento, a criação dos filhos e o trabalho. Consequentemente, temos uma pessoa cujo relacionamento amoroso é insatisfatório, que se entrega a um grande fardo para criar os filhos e que deixa de viver para trabalhar, mas que, no entanto, está extremamente motivada e entusiasmada com tudo isso. E facilmente confundimos a pessoa motivada com a pessoa feliz! Pois, que outra definição temos para ‘felicidade’? Estamos habituados a pensar que as pessoas mais motivadas são as pessoas mais felizes, aquelas cuja vida tem mais sentido! Para o senso-comum, a motivação é o segredo da vida bem vivida! Ela é tão importante que se fosse possível transformá-la em pílulas, todos nossos problemas estariam resolvidos! E não é justamente essa a grande promessa dos antidepressivos vendidos como água atualmente?

Quando as relações familiares, amorosas e de trabalho são insatisfatórias, que motivação pode compensá-las? E quando não se tem uma família, um lar, um trabalho, um futuro? Que motivação pode ajudar a passar por cima de tudo isso? Será possível fugirmos da violência e da destruição? Há alguma motivação que possa compensar uma vida não vivida e nos ajudar a evitar nossa própria destrutividade? Será que a pessoa motivada com a vida consegue isso?

Se a pessoa motivada é tão feliz assim, por que ela é tão ansiosa? Se é tão feliz, por que não consegue encontrar paz? Se seu interior é tão cheio de vida, por que precisa tanto da confusão e da algazarra exterior? Por que ela não consegue ficar um momento a sós consigo, usufruindo da vida abundante que existe nela mesma? Por que ela bebe, fuma e se envolve em relacionamentos sofríveis? O que ela busca senão a destruição da vida que diz amar tanto? Se a pessoa motivada soubesse viver, será que precisaria de tantas motivações? Por que é preciso ter motivações para auxiliar a vida? Por que não vivemos agora, logo de uma vez? Por acaso não temos a vida aqui, agora, em nossas mãos? Por que não conseguimos entrar em contato direto com a vida para vivê-la simplesmente? Muitas perguntas; nenhuma resposta.

Daniel Grandinetti
Psicólogo pela FUMEC em 2001, graduado em Filosofia pela UFMG em 2006 e Mestre em Filosofia pela UFMG. Atua como psicólogo clínico em Belo Horizonte. Escritor autor de quatro livros, editor do blog ‘No gabinete do Psicólogo’ e da página ‘Psicologia no Cotidiano no facebook (www.facebook.com/cotidianoepsicologia).