Narcisismo e a depressão: quando apenas o olhar do outro “define quem sou”

“Todas as nossas palavras serão inúteis se não brotarem do fundo do coração. Palavras e ações que não dão luz aumentam a escuridão”.

Madre Teresa Calcutá

 

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Uma das patologias mais desafiadoras deste século, a depressão, resulta de interações sociais, psicológicas e biológicas, e nem sempre se apresenta de forma clara, como uma gripe ou uma conjuntivite, por exemplo. Ela lamentavelmente ainda se encontra no centro de interpretações e reações díspares já que nem todos, talvez por ignorância, consideram-na como doença. De acordo com a Organização Mundial da Saúde – OMS, atualmente há em todo o mundo algo em torno de 350 milhões de pessoas acometidas por este mal, e entre os países em desenvolvimento, o Brasil é um dos que lideram a preocupante estatística¹. Ainda de acordo com a OMS, as mulheres são mais afetadas, sobretudo porque se leva em conta o “peso” da “depressão pós-parto” nos números totais divulgados pela organização.

Diferente das conhecidas mudanças de humor que a maioria das pessoas apresenta, onde tais variações são consideradas eventos naturais, a depressão “se manifesta por um sentimento de tristeza que dura mais tempo, e que impede a pessoa de levar uma vida normal”. Sua principal forma de impacto incide, principalmente, na maneira como o doente percebe e encara a si mesmo. Na sua forma mais grave, pode levar ao suicídio.

 

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Algumas das mais comuns e recentes teorias que tentam explicar o “boom” de doenças como a depressão, acabam por apontar o atual estilo de vida pós-capitalista como o grande catalisador do problema. É o caso do incansável Zygmunt Bauman, que questiona insistentemente sobre “o que esperar de uma sociedade que ao mesmo tempo em que incentiva o constante esvaziamento dos espaços públicos, também (e paradoxalmente) desestimula os momentos de introspecção”.

De acordo com a psicóloga e professora universitária norte-americana Kristin Neff, para os desafortunados que não se dão conta desta perversa dinâmica, sobra apenas a busca desenfreada pela “construção de identidades superficialmente positivas e agradáveis” que, a cabo, mal covence o círculo de amigos. Faltaria, portanto, a criação de diálogos/estruturas internas mais autênticas, resultantes de autoanálises cuidadosas, da observação mesma das próprias demandas e contingências. É parar, desacelerar um pouco e abrir espaços para a “construção de subjetividade”².

Tanto para Kristin, que é autora do famoso livro “Self-Compassion” (algo como Auto-Compaixão), quanto para a psicanalista brasileira Teresa Pinheiro, PhD, paralelo ao crescente número de casos de depressão, há também uma “epidemia sem precedentes de narcisismo”. Os temas parecem contraditórios, mas as pesquisadoras veem muitos pontos de contato. Neste esforço para tentar ser “perifericamente especial, ser destacado diante de um mundo onde a originalidade é cada vez mais minguada”, estaria a raiz do narcisismo que pode levar à depressão.

 

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Ser para “o outro”

A perda da subjetividade, portanto, estaria abrindo espaço para uma necessidade constante de querer “provar o tempo todo a própria existência”, diz Pinheiro. Desta forma, não basta apenas estar vivo, é preciso também “reafirmar a existência”, numa espécie de ser/existir primeiramente para a aceitação do outro. “É como se precisássemos de provas de que existimos. Essas provas podem ser desde malhar cinco horas e chegar morrendo de dor para saber exatamente onde terminam os nossos músculos, como podem ser através da profusão dos ‘selfies’ nas redes sociais”, afirmou a psicanalista e pesquisadora da UFRJ.

Para Teresa Pinheiro, uma das expressões mais explícitas das “relações narcísicas” seria o “selfie”, pois ele é “uma forma de alimentar o olhar do outro e fazer com que o outro saiba que você visitou Estocolmo ou que você abraçou o Mickey. Como eu só existo pelo olhar do outro, eu preciso que o outro me veja o tempo todo” e dê o feedback. O “ser narcísico”, portanto, é definido pela pesquisadora como alguém com “pele de criança e garra de gavião”, já que aos olhos de terceiros ele aparenta ser agressivo/aguerrido/despojado, mas no íntimo é frágil, hipersensível. Teresa diz, tendo por base o trabalho realizado com jovens depressivos reunidos em um grupo de pesquisa no Rio de Janeiro, que a característica comum do narcisismo, nestas circunstâncias, é a quase ausência de lembranças do passado e pouca ou nenhuma projeção do futuro: “Para eles só existia o presente. E uma narrativa muito imagética desse presente”. A ausência dessa perspectiva na narrativa está intimamente ligada à própria perda de subjetividade, resultando assim na “dissolução de referências”.

Pinheiro diz que “sem essa narrativa, [a pessoa com depressão] passa a relacionar a imagem do ‘alguém de sucesso’ como um produto do acaso” e, neste cenário, toda a fonte de angústia e depressão está fora delas, e tudo passa pelo olhar, pela imagem e pela admissão dos outros. “Que imagem eu tenho? Como o outro me vê? O que eu posso suscitar no outro? É algo que não sei o que é, mas que me é fundamental. O que esse outro vê, como ele me vê e o que eu suscito nele é o que eu sou. Isso é o avesso da interioridade”, alerta a psicanalista.

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Futuro, cadê você?

O principal “sintoma” desta maneira de enxergar a vida é a perda da dimensão de futuro. E isso, por si só (e mesmo que a pessoa não se dê conta de forma consciente), é uma enorme fonte de sofrimento. Quando se acha que a “imagem de alguém de sucesso vai cair pronta, do céu”, que não é necessário ter um esforço (que demanda tempo) para que tal imagem seja construída, vem a frustração. “Como o futuro não acontece no dia seguinte, a pessoa se deprime. [A pessoa não se percebe] como agente da própria vida, do próprio destino”, justamente porque não permite a si mesma criar espaços para produção de subjetividade através, por exemplo, de momentos conscientes de introspecção e/ou do desenvolvimento de atitudes de inserção social mais consistentes, como a prática do altruísmo.

Aparência que gera sofrimento

Recentemente, o filósofo Luiz Felipe Pondé disse em sua coluna semanal na Folha de S. Paulo³, que “temos estragado a cabeça dos mais jovens há cerca de quarenta anos”; ele alerta para a tendência contemporânea de se tentar estender por mais tempo a chamada “moratória juvenil”. Com mais adultos inconformados em serem adultos (e diante das responsabilidades que tal prerrogativa lhes incube), muitos preferem criar – nem que seja no mundo representativo das redes sociais – aparências idealizadas, mas que de fato não correspondem à realidade de suas vidas. No fundo, causam sofrimento pela sua incongruência e pela enorme demanda de energia despendida na “manutenção” de tal exterioridade.

 

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Para a psicóloga Kristin Neff, a solução para isso seria reconhecer, reeducar e, por fim, “dosar” a forma como o indivíduo se projeta para si mesmo e para o mundo. Praticar ações que ajudem outras pessoas, ou outros seres como os animais, também é apontado como uma boa alternativa, já que favorece a diminuição de uma perspectiva imediata de “aprovação” e reconhecimento alheio. O problema não está em “gostar de si mesmo” ou, no campo das responsabilidades, de se eximir de assumir alguns compromissos. O conflito se instaura quando os padrões (comportamentais) extrapolam para o campo exclusivamente da individualidade e do egoísmo, ou mesmo da autopunição, numa espécie de tentativa de “congelar” e perpetuar a confortável fase de “Sua Majestade, o Bebê”, de que trata Freud em “Introdução ao Narcisismo”.

Para sanar esta lacuna, Neff propõe a gradativa mudança da autoestima pela autocompaixão. “Se a autoestima implica você se julgar positivamente, a autocompaixão […] diz respeito a responder com carinho para si mesmo nos momentos de sofrimento. […] Tanto a autocompaixão quanto a autoestima têm os mesmos benefícios, mas a primeira não tem os prejuízos da segunda. Se a autoestima te abandona, te ignora ou te critica quando algo ruim acontece, a autocompaixão te dá apoio quando você sofre, sente medo, é rejeitado ou falha”, comenta.

 

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Kristin Neff diz que na autocompaixão há um melhor entendimento das limitações impostas pela vida, mas isso não deve ser confundido com um abandono dos próprios ideais ou uma falta de perspectiva em relação ao futuro. Pelo contrário. “É um convite a abraçar suas frustrações, procurar entendê-las, vê até que ponto pode avançar, se contentar quando for o caso e, claro, manter o vigor e alegria necessários para que a vida tenha sentido”, aconselha.

A receita parece simples, mas requer uma grande dose de energia e de autoconhecimento. É quase que uma dissolução das antigas projeções que, aos poucos, vão sendo substituídas por outras, menos egoístas, mais altruístas, com menos julgamentos e mais amorosidade (por si mesmo, e pelos outros). O procedimento lembra o “morrer para si mesmo”, para “renascer verdadeiramente”, como fala o místico cristão São João da Cruz. Neste processo, o maior ganho é perceber “o sentido mais amplo e valoroso da vida”.

Notas:

¹ – Mais de 350 milhões de pessoas têm depressão, diz OMS. Disponível emhttp://veja.abril.com.br/noticia/saude/mais-de-350-milhoes-de-pessoas-tem-depressao-diz-oms – Acessado em 16/09/2014.

² – Subjetividade é entendida como o espaço íntimo do indivíduo, ou seja, como ele ‘instala’ a sua opinião ao que é dito (mundo interno) com o qual ele se relaciona com o mundo social (mundo externo), resultando tanto em marcas singulares na formação do indivíduo quanto na construção de crenças e valores compartilhados na dimensão cultural que vão constituir a experiência histórica e coletiva dos grupos e populações. A subjetividade na psicologia foi conceituada a partir das inquietações do sujeito, de modo que pensadores foram levados a sintetizar a questão na contraposição entre características internas e externas. A subjetividade é o mundo interno de todo e qualquer ser humano. Este mundo interno é composto por emoções, sentimentos e pensamentos. Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Subjetividade acessado em 16/9/2014.

3 – O Chamado a salvar o mundo – coluna semanal de Luiz Felipe Pondé: Folha de S. Paulo. Disponível em http://www1.folha.uol.com.br/colunas/luizfelipeponde/2014/09/1515902-o-chamado-a-salvar-o-mundo.shtml – Acessado em 20/09/2014.

Referências:

Narcisismo e depressão, com Teresa Pinheiro. Palestra para o programa Café Filosófico CPFL Cultura (TV Cultura). Vídeo na íntegra disponível em http://vimeo.com/96594880 – Acessado em 26/07/2014.

Abaixo a Autoestima. Entrevista de Kristin Neff à Folha de S. Paulo. Disponível emhttp://www1.folha.uol.com.br/fsp/equilibrio/eq2607201117.htm – Acessado em 16/09/2014.

COMTE-SPONVILLE, André. Dicionário Filosófico. São Paulo: WMF, 2011.

O Livro da Filosofia(Vários autores) / [tradução Douglas Kim]. – São Paulo: Globo, 2011.

MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. São Paulo: Martins Fontes, 2001.

HORNSTEIN, Luis. Narcisismo – autoestima, identidade, alteridade. São Paulo: Via Lettera, 2009.

Sonielson Luciano de Sousa
Bacharel em Comunicação Social (CEULP/ULBRA), filósofo (Univ. Católica de Brasília), pós-graduado em Docência Universitária, Comunicação e Novas Tecnologias (Unitins), estudante de Psicologia (CEULP/ULBRA), especialista em Jornalismo Cultural, é editor do jornal e site O GIRASSOL, colaborador do (En)Cena e do Portal Educação, e atua como coach (SBC-SP).
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