O Conceito de Revista em Quadrinhos e Literatura: Porque persistem as diferenças

Muitos nomes, poucos significados

Comics, mangás, gibis, história em quadrinhos ou, simplesmente, HQs. As denominações são muitas para este formato popular de leitura, mas que trazem implicitamente significados restritivos. Comics e mangá denominam a origem cultural, respectivamente revistas americanas e japonesas, de material publicado nacionalmente. Gibi e história em quadrinhos, termos nacionais, ganharam um apelo mais popular e tornaram-se os títulos designativos de qualquer narrativa que tivesse como características a ação dos personagens em esboços, balões de diálogos e direcionados ao público infantil. Infelizmente, essa limitação ideológica no Brasil não colaborou com o desenvolvimento desta peculiar forma de arte, a exemplo de outros cenários, como o europeu e o americano. As barreiras que separam este tipo de literatura com a já difundida culturalmente – do comum formato dos livros – tornam perceptíveis os preconceitos existentes com a 9º arte*, impedindo um foco mais amplo, em âmbito social e escolar, para uma visão literária.

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Na última década observamos, felizmente, a aceitação crescente dos quadrinhos nas salas de aula. Pedagogos e educadores chegaram à conclusão que as HQs são um ótimo meio para desenvolver a leitura na infância. Mas, um caminho longo para mudanças de pensamento foi percorrido, Vergueiro (2008) indica a popularização das Histórias em Quadrinhos entre o público infantil e juvenil como um dos fatores restritivos para sua exploração com função educacional; “de uma maneira geral os adultos tinham dificuldades para acreditar que, por possuírem objetivos essencialmente comerciais, os quadrinhos pudessem contribuir para o aprimoramento cultural e moral de seus jovens leitores.”

Essa crença, aos poucos vem sendo ultrapassada, promovendo na última década a criação de leis que possibilitaram a entrada dos quadrinhos nas escolas e bibliotecas.

Mais recentemente, em muitos países, os próprios órgãos oficiais de educação passaram a reconhecer a importância de se inserir as histórias em quadrinhos no currículo escolar, desenvolvendo orientações para isso. É o que aconteceu no Brasil, por exemplo, onde o emprego das histórias em  quadrinhos já é reconhecido pela LDB e pelo PCN (VERGUEIRO, p. 17, 2004).

Se por mimetismo às leis estrangeiras ou por iniciativas próprias para a adoção dessa literatura nas salas de aula, o ato foi positivo. No entanto, é notório que há uma necessidade de preparação dos profissionais da área sobre o universo dos quadrinhos. Notícias diversas pelo país dão exemplos da falta de preparo de professores e pedagogos para trabalharem este material em sala além do limite de objetos alfabetizadores para as séries iniciais.

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Dois casos graves reacenderam os debates e demonstraram claramente pontos francos não só referente ao conhecimento sobre HQs, mas também sobre o que esses profissionais da educação tomam por literatura. O primeiro foi o recolhimento das obras O Jogador, Um Contrato com Deus e O Nome do Jogo, do desenhista e escritor Will Eisner das bibliotecas dos estados do Rio Grande do Sul e São Paulo, em 2009, pelas respectivas Secretarias de Educação. Os livros foram considerados inadequados por conter citações, neste caso seria melhor usar o termo imagens, que evocam pedofilia e violência doméstica em suas páginas. O outro fato que chamou a atenção foi o recolhimento da coletânea nacional Dez na Área, Um na Banheira e Nenhum no Gol, de Waldomiro Vergueiro. Considerada de “muito mau gosto” pelo então governador de São Paulo José Serra, os 1.216 exemplares foram recolhidos das escolas municipais a qual foram destinados.

A “demonização” do gênero é gritante, tanto pela ignorância discursiva quanto pela falta de entendimento coerente e aprofundado sobre o objeto em questão. As justificativas sobre os casos listados acima levam a outras questões: o que estes profissionais consideram por literatura? Como é observado o leitor-aluno nessa perspectiva do que é ou deixa de ser politicamente correto na escolha do material utilizado nas salas de aula do país?

Uma imposição histórica

A produção da arte seqüencial no Brasil foi, e a ainda é, influenciada pelo mercado americano. Da produção à temática, essa conexão reverberou de tal modo que o mercado nacional sofreu as mesmas imposições direcionadas aos quadrinhos publicados nos EUA.

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Do surgimento na América, em 1896, ao início da década de 40, os quadrinhos evoluíram em forma e conteúdo. Seu caráter de mídia de massa adaptava-se aos poucos a nichos menores de público. O foco deixava de serem as crianças e jovens e se voltava para o universo adulto e suas infinitas representações. O escritor e desenhista americano Will Eisner foi o profissional que personificou essa transformação, e sua influência é perceptível até hoje. Suas histórias, mesmo a do super-herói Spirit – herói que ao invés de utilizar super poderes para salvar o dia, como era comum a época, tinha a seu favor agilidade e inteligência – primam por um naturalismo inédito que seguiria como principal característica em suas obras. E, talvez por esse detalhe, seus colegas começaram a ousar mais no traço e no conteúdo de suas histórias.

Após Spirit houve a ascensão de gêneros mais cuidadosamente realizados que os  super-heróis da época. Eram os policiais, o terror, o romantismo, o western, a ficção científica e até mesmo as adaptações literárias (BRAGA & PATATI, p. 86, 2006).

Logo, as tirinhas deixariam os jornais para ganharem publicação independente para atender a demanda. E Will Eisner, envolvido no processo, explicou em uma entrevista como isto aconteceu:“O pessoal do jornal queriam manter as prenssas funcionando, então juntaram várias tiras em um livro, que chamaram de comic book, e resolveram imprimir aquilo. Acontece que, em apenas um dia, aquele livrinho vendeu um milhão de exemplares. Estava descoberto um novo mercado e começaram então a ser publicadas histórias em sequência.”

A transformação que os quadrinhos sofreram a partir da década de 40 foi tão sensível e revolucionária que o próprio Will Eisner resolveu criar um termo para designar HQs com temáticas adultas, para atender um público mais maduro que estava em expansão.

Ainda na vanguarda da forma apesar da idade, Eisner cunhou o termo “graphic novel” romance gráfico, e especificou que se tratava de algo mais que um gibi bem impresso (BRAGA & PATATI, p. 89, 2006).

Mas, infelizmente, a expansão criativa dos profissionais dos quadrinhos não acompanhou a sociedade, ou pelo menos daqueles que se consideravam baluartes desta arte. Os “gibis”, independente da forma e conteúdo, eram vistos como produtos de consumo de crianças e jovens. Assim, os quadrinhos deveriam estar adaptados aos anseios não do seu público e sim dos pais e censores, que passaram a vistoriar o que seus filhos andavam lendo.

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A discussão tomou maiores proporções com o lançamento do livro Seduction of the Inoccent (A Sedução do Inocente), em 1954, de autoria do psiquiatra Fredric Werthan. Em um estudo com pacientes, o Dr. Whertan chegou à conclusão que as histórias em quadrinhos induziam jovens a violência, sexo e ao uso de drogas. Junte a isso a psicose anticomunista e o marcatismo, nas décadas de 40 e 50, para iniciar a caça às bruxas aos comics. Logo foram criados meios para controlar o conteúdo dos quadrinhos. A censura começava a tomar forma através das Comics Code – leis que regulamentavam do conteúdo às cores das revistas. Grupos religiosos e políticos passaram a perseguir tudo aquilo que representasse perigo para os valores morais e éticos americanos, com base nos argumentos do livro do Dr. Whertan. Braga (2006) relata que “As revistas policiais e de terror eram o que mais vendia, e o oportuno moralista dos formadores de opinião da época os atacou.” Iniciou-se uma perseguição àquilo que era considerado responsável pelo aumento da delinquência juvenil daquele país.

 As publicações da EC foram praticamente proibidas nos tribunais a partir de seu títulos, e muitos gibis, queimados em praça pública. O puritanismo vigente tornou ofensivo dar um título que incluísse as palavras “horror”, “terror”, “crime” e diversas no mesmo gênero (BRAGA & PATATI, p. 97, 2006).

A queda nas vendas foi instantânea. As revistas que resistiram foram adaptadas ao Comics Code, ou seja, material com histórias e traços infantilizados começaram a se tornar a face do que seria reconhecida por um bom tempo como revistinhas em quadrinhos.

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Enquanto isso, no Brasil

A odisséia a qual as publicações de HQs passaram nos EUA acabou refletindo no mercado brasileiro. Desde a empolgação inicial com este novo universo literário até as dúvidas sobre os possíveis efeitos na educação do público juvenil, todas as fases de julgamento, perseguição e censura foram imitadas.

O INEP (Instituto Nacional de Estudos Pedagógicos), do Ministério da Educação, publicou em 1944 uma pesquisa referente aos quadrinhos e seus leitores. O resultado mostra claramente como o pensamento dos formadores de opinião no Brasil mimetizou a forma de pensar americana sobre o assunto.

Além da tese da dominação cultural e do estimulo à violência promovida pelos  quadrinhos, o INEP trouxe uma preocupação a mais aos pais: segundo aquela pesquisa, quem lia quadrinhos ficava com preguiça mental e avesso a livros GONÇALO, p, 114, 2004).

Tais pesquisas, de resultados duvidosos, só concretizavam o preconceito ideológico que este tipo de literatura causava. No entanto, escritores da época, os quais tiveram suas obras literárias adaptadas para o novo formato, tinham um modo de pensar diferente dos pesquisadores.

Enquanto alguns críticos se apoiaram na tese de que a revista “prestava um desserviço” à cultura e educação de crianças e adolescentes porque as desestimulava a ler os originais, outros se mostravam defensores entusiasmados da coleção. Os escritores Jorge Amado e José Lins do Rego figuravam entre os mais empolgados com a ideia (GONÇALO, p. 284, 2004).

Mas este apoio não adiantou muito com o início da ditadura militar. A perseguição às revistas, que se estendiam a escritores, desenhistas e editoras, ganhou as mesmas proporções americanas, ceifando o desenvolvimento ascendente de um mercado que aos poucos se desvencilhava dos moldes estrangeiros.

Com o título “Proibição de revista em quadrinhos”, o jornal O Estado de São Paulo informou que, por determinação da lei, os gibis seriam classificados, para efeito de apreensão, na mesma categoria de revistas imorais e pornográficas (GONÇALO, p. 379, 2004).

Esses fatos praticamente ceifaram drasticamente o mercado nacional de revistas em quadrinhos. Os efeitos podem ser sentidos até hoje, tanto em termos de mercado quanto criativos. Enquanto nos EUA as grandes editoras criavam receitas de sucessos para manter as vendas e não provocar entidades governamentais, no Brasil, a produção ficou estagnada. O que passou a ser publicado eram revistas americanas que já haviam passado pela “peneira” da comics code e não encontravam barreiras para chegar às bancas nacionais.

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As vendas continuavam com tiragens altas, mas o que encontrávamos em grande quantidade nas bancas era material estrangeiro. A editora EBAL ainda arriscava adaptações de clássicos da literatura, como Gabriela, Cravo e Canela, de Jorge Amado, no entanto, eram publicações raras, levando em consideração a formato e o conteúdo do que era a receita do sucesso da época. A invasão dos heróis americanos, intervenções do governo e até perseguição a artistas, na década de 60, enterraram qualquer chance de desenvolvimento e perspectivas para uma arte em quadrinhos nacional nas décadas seguintes.

De uma maneira geral, durante os anos que se seguiram à malfadada campanha de difamação contra elas, as histórias em quadrinhos quase se tornaram responsáveis por todos os males do mundo, inimigas do ensino e do aprendizado, corruptora das inocentes mentes de seus indefesos leitores. Portanto, qualquer idéia de aproveitamento da linguagem dos quadrinhos em ambiente escolar seria, à época,  considerada uma insanidade (VERGUEIRO, p. 16, 2004).

Tal pensamento acompanhou as HQs no Brasil por muitos anos e parecia ter sido superado com o respeito que essa mídia começou a adquirir no início da década de 80. Mas, infelizmente, não foi o que ocorreu.

A Redenção, ou quase

Após vinte anos, os quadrinhos começaram a ser tratados novamente como arte e cultura. A evolução para uma temática mais adulta e a incorporação de fatos reais começou a atrair olhares de críticos e especialistas na área de Comunicação. Esse foi o divisor de águas para as HQs. A partir dos anos 80 os quadrinhos começaram, novamente, a deixar o restrito universo infantil para abarcar variadas temáticas adultas.

O despertar para os quadrinhos surgiu inicialmente no ambiente cultural europeu, sendo ampliado para outras regiões do mundo. Aos poucos, o ‘redescobrimento’ das HQs fez com que muitas das barreiras ou acusações contra elas fossem derrubadas e anuladas. De certa maneira, entendeu-se que grande parte da resistência que existia em relação a elas, principalmente por parte de pais e educadores, era desprovida de fundamento, sustentada muito mais em afirmações preconceituosas em relação a um meio sobre a qual, na realidade, se tinha muito pouco conhecimento. A partir daí,  ficou mais fácil para as histórias em quadrinhos, tal como aconteceu com a literatura  policial e a ficção científica, serem encaradas em sua especificidade narrativa, analisadas sob uma ótica própria e mais positiva. Isso também, é claro, favoreceu a aproximação das histórias em quadrinhos das práticas pedagógicas (VERGUEIRO, p. 17, 2004).

Importante notar o caminho inverso que a revalorização das HQs percorreu no Brasil. Se no mercado estrangeiro o ressurgimento se deu pela reaproximação com o público adulto, aqui, a julgar pelos fatos, ocorreu a permissão desse tipo de leitura para as crianças. O “despertar” citado por Vergueiro, de objeto histórico e cultural da sociedade contemporânea, não ocorreu aqui no ambiente escolar. Críticos e especialistas podem acompanhar a vanguarda de lançamentos estrangeiros, mas a visão restrita e preconceituosa, presente nacionalmente, impede o desenvolvimento das HQs em território nacional.

 A barreira pedagógica contra as histórias em quadrinhos predominou durante muito tempo e, ainda hoje, não se pode afirmar que ela tenha realmente deixado de existir. Mesmo atualmente há notícias de pais que proíbem seus filhos de lerem quadrinhos  sempre que as crianças não se saem bem nos estudos ou apresentam problemas de     comportamento, ligando o distúrbio comportamental à leitura de gibis                                                           (VERGUEIRO, p. 16, 2004).

Tentar controlar o pensamento dos alunos não é o papel das instituições educacionais. Sim, trabalhar ele através do diálogo e do entendimento. Ações como as que ocorreram em São Paulo e Rio Grande do Sul são o mais puro e arraigado preconceito a um determinado tipo de arte que está em voga e ascensão. Fechar os olhos para essa nova “escola literária” é passar por cima da história e seus efeitos contemporâneos.

O profissional que escolhe a rede de ensino como área de trabalho busca a priori o desenvolvimento, a construção e o respeito e não o cerceamento. E mesmo ao encontrar barreiras que reflitam suas ideologias e caráter, é necessário amadurecimento para encará-los e estar pronto para transformá-los positivamente. Segundo a escritora e especialista em literatura infantil Regina Zilberman, não é um livro ou uma HQ que irá transformar uma criança em alguém perverso.

O máximo que pode acontecer é ela se tornar mais lúcida e consciente do mundo. É ilusório e até puritano achar que um livro vai estragar a vida da pessoa. A censura pela pornografia ou por apresentar situações que a criança não entenderia é completamente ingênua’, disse (BRAVO apud ZILBERMAN, REGINA, 2009).

Então um dos problemas base desta discussão seria esconder o problema. Se nos livros há conteúdo impróprio é necessário um direcionamento. O livro pode tratar temas como pedofilia e violência doméstica, mas não é recolhendo-o que apagaremos estas disfunções sociais. No entanto, esta crise não foi acionada por causa da temática abordada nas páginas das HQs e sim por estar em HQs, último lugar que esses educadores esperavam encontrar tais abordagens. Na sua ignorância literária, estes educadores que censuraram os quadrinhos não percebem que estes e outros assuntos são retratados em livros diversos, nacionais e estrangeiros, literários e populares, presentes nas bibliotecas. E torna sensível outra problemática que mesmo não sendo o foco deste trabalho é bom ficar registrado: se os livros aceitos pelo cânone são trabalhados adequadamente em sala de aula.

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Retornando às HQs, mesmo que a entrada dessa literatura seja autorizada por lei a compor o suporte do processo educativo, agregado como objeto de ensino, não haverá o aproveitamento substancial do material se a visão sobre ele não for transformada, se o preconceito não for destruído. E é esse mesmo preconceito que não permite o desenvolvimento da arte nacionalmente. Encará-la como uma representação social contemporânea permitirá uma evolução nacional que afetará leitores e artistas positivamente.

É interessante imaginar adaptações de clássicos da literatura para os quadrinhos – vide a série Domínio Público da editora DCL. Nela as histórias são chamadas de Literatura em Quadrinhos colocando o conteúdo a favor da forma. O título é autorizado pelo cânone, que não tem detratores no meio escolar, incluindo os quadrinhos no âmbito da arte em conseqüência do material usado como texto. Mas, seja uma poesia de Carlos Drummond de Andrade ou um livro de Machado de Assis, sempre teremos ali um texto literário adaptado e não literatura tradicional.

 […] a atitude estética diz respeito a um tipo de ‘estado mental’ que se estabelece diante de objetos artísticos e que pode ser estendida para outros objetos ou situações, dentro de determinadas condições gerais, gerando então a experiência estética   (GHIRALDELI, JUNIOR, 2005).

Esta experiência estética é que deve ser absorvida e trabalhada com e pelos profissionais da educação. Se determinado autor escolhe narrar suas histórias, seja ficção ou não-ficção, utilizando desenhos ao invés da narrativa comum, isso não desmerece seu conteúdo, ao contrário, os meios utilizados para expressar seus pensamentos são um complemento primordial, peça essencial da narrativa. Não há meio para separar um do outro. Mas como elevar o nível dos quadrinhos a outros patamares se eles não são considerados arte e muito menos literatura em grande parte do meio acadêmico e educacional?

Felizmente isso não acontece com a autorização de determinados grupos e sim por representação histórica e social.

 […] a estrutura da obra de arte é a de uma peça com a estrutura da retórica, e é  ofício da retórica modificar as mentes e então as ações de homens e mulheres por   meio de cooptar seus sentimentos. Há sentimentos de várias ordens. Alguns implicam  um tipo de ação; outros, tipos diferentes. Não pode ser extrínseco à obra de arte que ela deveria fazer isso se a obra de arte e a retórica são a estrutura de uma mesma  peça (GUIRALDELLI JR., PG. 139, 2005).

Assim, já existem quadrinhos literários por causa do seu papel significativo na literatura. Chamar HQs de paraliteratura ou subliteratura atualmente por alguns estudiosos pode diminuir o conceito, mas não tira a principal característica que está intrinsecamente ligada a determinadas publicações, de que são literatura.

Arthur C. Danto, filosofo que escreveu sobre o fim da arte, não como algo finito mas mutável, exemplifica bem esse momento:

 Duchamp […] demonstrou que é inteiramente possível para alguma coisa ser arte sem ter a ver, absolutamente, com gosto, bom ou mau. Assim, ele coloca um fim naquele período do pensamento estético e da prática estética que era interessado, para usar um título de David Hume, em padrões de gosto. Isso não quer dizer que a era do gosto foi substituída pela era da apreciação do que não é de bom gosto. Isso quer dizer, antes, que a era do gosto foi sucedida pela era do  significado. A questão não é se algo é de mau ou bom gosto, mas o que significa. É verdade que Duchamp fez isso possível ao usar substâncias e  formas que induzem ou podem induzir a repulsa. Isso agora é uma opção. Mas  pegar ou não tal opção é, inteiramente, uma questão de qual significado um  artista pretende comunicar. Poderia acrescentar que é também uma opção,  antes que um imperativo, induzir um prazer do tipo daquele associado com a beleza. Que também é uma escolha, para os artistas para quem o uso da beleza tem significado. Não era uma opção para Duchamp, porque ele estava  engajado na ultrapassagem do gosto como imperativo artístico. Mas a rejeição também é um efeito forte para associar, em qualquer grau, ao trabalho de Duchamp, ainda que o offcolor, em alguns casos, tenha realmente provocado isso (GUIRALDELLI JR.; DANTO, p. 137,  2005).

Há uma ampla bibliografia nacional analisando os quadrinhos, ou melhor, ensinando profissionais da área da educação a lidar com os quadrinhos em sala de aula. Mas são raras aquelas que ousam ultrapassar a barreira do pedagógico para alçar uma visão literária das HQs. Vergueiro (2009), na introdução do livro de pesquisas Muito Além dos Quadrinhos, abre as portas para um universo pouco explorado nos corredores acadêmicos das universidades e escolas. Porém, dado os acontecimentos em 2009 relacionados a presença dos quadrinhos nas bibliotecas e escolas, há muito a se discutir sobre o assunto.

Não se trata de negar o papel desta literatura na educação dos alunos, mas de estender a percepção das HQs em sua forma e conteúdo como literatura contemporânea. Vergueiro (2009) continua no seu texto que “abordar histórias em quadrinhos com um viés científico representa o reconhecimento, ainda que tardio, do quanto elas podem revelar sobre a realidade em que são produzidas e consumidas.” Assim, histórias em quadrinhos não devem mais ser encaradas unicamente como produto de massa; se fosse mais algum tipo de moda específica de uma época, não teria resistido à perseguição sistemática a qual passou.

A mídia evoluiu, e como qualquer literatura é possível diferenciar as criações comuns das geniais, mas julgá-las menores por sua forma de representação é a representação da ignorância e preconceito, sentimentos tais que não podem fazer parte daqueles que são responsáveis pela estruturação da educação e iniciação cultural das crianças e jovens no contexto escolar.

BARBOSA, Alexandre; RAMOS, Paulo. Como Usar as Histórias em Quadrinhos na Sala de Aula. São Paulo: Editora Contexto, 2004.

DANTON, Arthur C.. Após o Fim da Arte. São Paulo: EDUSP, 2010.

EISNER, Will. Narrativas Gráficas. São Paulo: Devir, 2008.

EISNER, Will. Um Contrato Com Deus. São Paulo: Devir, 2009.

EISNER, Will. Quadrinhos E Arte Seqüencial. São Paulo: Devir, 1999.

GHIRADELLI JR., Paulo. Caminhos da Filosofia. Rio de Janeiro: DP&A, 2005.

JUNIOR, Gonçalo. Guerra dos Gibis. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

PATATI, Carlos; BRAGA, Flávio. Almanaque dos Quadrinhos.Rio de Janeiro: Ediouro, 2006.

Douglas Erson
É licenciado em Letras (UFT), graduando em Educação Física (CEULP/ULBRA), pós-graduado em Revisão de Textos (Universidade Gama Filho), instrutor de Yoga e Tai Chi Chuan, e colaborador do jornal O GIRASSOL.
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