O post pode ser a voz que nos libertará*

A violência está estampada nos jornais, nos portais, nos twetts nas ruas, nos meios, nos seios das sociedades. Não é, contudo, um fenômeno novo. Muito menos, acredito, resultado na nova ordem social. Infelizmente, desde que o mundo é mundo, os homens se corrompem e disputam das mais variadas formas espaços, lugares, pessoas, riquezas, poder. E, muitas vezes, essa disputa é cercada e permeada de atos de violência.

Esse texto, vale ressaltar, não é um olhar de uma especialista, muito menos a voz de um estudioso das grandes áreas que tratam da violência. È a voz de uma mãe, também educadora, que, como muitas, falava da violência apenas como ouvinte, ciente, mas jamais como sujeito violentado.

No começo do ano de 2011, meu filho de onze anos, iniciava no ensino fundamental II cheio de ansiedades, curiosidades e vontade de viver o novo. Não tinha medos, receios. Muito pelo contrário. Sempre fora amável, construtor de amizades e querido nos lugares em que passou. Junto a essas expectativas havia a ansiedade de uma nova escola que ele e eu, cuidadosamente, procuramos durante longas semanas.

Escola nova, turma nova, novas experiências. Era o que esperávamos: eu e ele. Nem tudo foi assim.

Meu filho foi agredido durante a aula de Educação Física por seis colegas da mesma turma e mesma faixa etária na quadra de esportes da escola. Era início da aula de Educação Física e o professor ainda não havia chegado à quadra. Ou seja, os alunos estavam sozinhos.  Por um descuido, ele ficou preso na quadra de futebol e um colega se dirigiu à ele dizendo: “É mole, é mole. Ficou preso!” E começou a agredí-lo. Outros cinco que presenciaram o ocorrido, no lugar de se posicionar contrários à situação, juntaram-se ao primeiro agressor e deram socos, pontapés, chutes nele que permanecia preso à rede da trave sem conseguir se defender ou soltar-se.

Não estavam eles na rua, na periferia, na escola pública, no meio de uma briga, nem em qualquer outro espaço que muitas pessoas estigmatizam para justificar a violência e a insegurança. Meu filho era linchado pelos colegas de turma em pleno horário de aula dentro de uma escola particular de bairro de classe média. Embora isso não minimiza nem amplia o fato, o contextualiza.

Após o espancamento, os agressores, subiram num palco e em voz alta o chamavam de “otário que não bate em ninguém”. Pode-se perceber que tão jovens, muitos sujeitos já sinalizam como sinal de esperteza e sabedoria o fato de querer e conseguir agredir o outro.

Ainda assim, o que mais me inquietou no ocorrido, foi o fato da escola em nenhum momento ter se pronunciado sobre a situação. Nem uma comunicação à família, nem um primeiro atendimento já que um aluno menor havia levado muita pancada. Minimizou. Era uma “brincadeira de pré-adolescentes”.

Sou informada do ocorrido pelo próprio agredido que reclama de dores no corpo e de cabeça. Resolvo levá-lo ao hospital, visto que, aquilo que não está aparentemente visível pode se configurar em algo bem grave internamente, muitas vezes. Chegando á emergência ortopédica, após alguns exames locais e radiografias, o médico identifica que há escoriações na cervical e prescreve antiinflamatório e o colar cervical imobilizador. Uso contínuo por cinco dias.

E tudo era só uma brincadeira…

Procuro a escola cheia de indignação, questionamento, ouso dizer, raiva. Sim, seria hipócrita se não dissesse que meu sentimento era de dor junto com meu filho e ódio dos agressores, dos seus pais e da escola, pois a violência não é um fenômeno simples, mas complexo. É composta de muitas variáveis, mas se fortalece às vezes, apenas por algumas. Mas, o que mais queria eram ações e respostas aos questionamentos. Talvez, por ser educadora e pesquisadora em educação, a busca pelas respostas seja tão importante quanto a apresentação de possíveis soluções:

1. Por que eu, responsável pelo garoto agredido, não fui informada, notificada pela escola do fato e convidada a ir à escola para uma conversa sobre o fato?

2. Mesmo após a confusão, por que a escola não deu os primeiros socorros ao meu filho? Ou mesmo, ligou imediatamente ao responsável, anunciando o fato e solicitando encaminhamento médico?

3. Por que os pais dos agressores, assim como eu, não estavam lá no dia seguinte ao ocorrido para serem notificados, chamados à atenção e serem sinalizados,  informados e discutidas possíveis medidas?

4. Por que não houve nenhum tipo de punição para os alunos num caso de agressão gratuita e tão covarde?

5. Qual ação preventiva a escola pode tomar para que situações semelhantes não aconteçam?

6. Como os responsáveis dos agressores agem e reagem em situações como essas?

Foram muitas as questões e as indignações. E nenhuma resposta efetiva. Ouvimos que foram “só” escoriações. Mas, poderia não ter sido “somente”. Não era só brincadeira. Aliás, não era brincadeira. Brincadeira de bater pode ser feita no videogame, onde é possível realizar catarse das emoções contidas sem machucar ninguém. E, embora, pudesse entrar na seara da discussão de games e violência, essa não é a intenção. Mas lá, sim, pode. Mesmo que algumas instituições digam que não. A transposição do ato na tela e nas ruas não é direta, imediata e linear.

Bom, mas o que tivemos foi muito transtorno, nenhum atendimento digno, nenhuma solução, nenhum diálogo franco e honesto. Pelo contrário, boa parte dos agressores riram quando viram o colega que eles agrediram com um imobilizador. Com o total descaso da Instituição, inclusive impossibilitando um encontro que sugeri acontecer com os pais de todos os envolvidos no caso, para discutirmos ações educativas que tratassem da violência, resolvi não calar.

E ai, posts como este me libertaram. Vozes inconformadas somaram-se à minha. E o que era uma situação resolvível, passível de discussão, virou omissão e, a partir do descontentamento coletivo dos que nos conhecem e indignaram-se, tornou-se assunto da mídia e da justiça. O caso virou pauta de jornal local e na internet e, efetivamente, o Ministério Público e a vara cível foram acionados.  Uma rede constituiu-se em torno do fato e as vozes somadas trataram de discutir nos espaços o caso do meu filho. Infelizmente, não o único. Muitos outros, mais graves, aconteceram e acontecem diariamente. E, acredito, que nessas situações tudo o que não deve ser feito é calar, esconder, silenciar. Temos que tornar público e vísivel. A violência, de nenhuma ordem, pode ser mascarada, encoberta e escondida.

As crianças, os adolescentes precisam também serem, informados, conscientizados dos erros que cometem, e por quê não, punidos, não com agressão de nenhuma ordem, mas por meio de ações educativas e orientações dos pais e da escola. Nenhum ator social pode recusar-se ou omitir-se a isso. É papel nosso.

Minimizar os fatos, tratar todos de forma banal e normal, infelizmente, parecem ser rotina em algumas Instituições de Ensino. Nossas   instituições de ensino estão cheias de violência em todas as esferas. Não há escala para violência, em minha opinião. Agressão é agressão e tem que ser discutida e punida como tal.

Garotos que se juntam para agredir um colega, um companheiro de turma e sentem prazer com isso, não são diferentes dos que agrediram mendigo em São Paulo ou tocaram fogo no índio em Brasília. São apenas, ainda, garotos e covardes. Mas, ainda, possíveis de serem educados. A escola não pode desprezar isso.

*Inspirado no verso da música Amanhecerá de O Teatro Mágico

Pedagoga e Mestre em Educação e Contemporaneidade pela UNEB. Doutora em Educação pela UFBA. Professora do Instituto Federal Baiano. Pesquisadora do GEC Grupo de Pesquisa Educação, Comunicação e Tecnologia.