WORKAHOLIC

O Workaholic

Workaholic é o termo que se usa para identificar um sujeito viciado em trabalho, uma pessoa que não vive além de suas funções profissionais. Franz Kafka, em A metamorfose, dá um exemplo curioso de um sujeito viciado no trabalho.

O senhor Samsa, vendo a renda da família comprometida com a metamorfose do filho Gregor – único mantenedor da casa – volta a trabalhar como funcionário de uma instituição bancária. O trecho diz:

“…o pai de Gregor recusava-se a tirar, também em casa, seu uniforme de funcionário; e enquanto o pijama ficava pendurado, inútil, no armário, o pai dormia completamente vestido sobre sua cadeira, como se estivesse sempre pronto ao serviço e ali apenas esperasse a voz de seu superior”.

O fato de o Senhor Samsa estar sempre vestido com o uniforme de trabalho e sempre a disposição de seu superior mostra a dedicação exagerada ao trabalho, fazendo-o ausentar-se das funções familiares e do lazer pessoal. Não tirar o uniforme nem para dormir não é uma crítica apenas ao visível, a falta de conforto, mas também à alienação do sujeito para com o trabalho, onde praticamente se desconsideram as outras faces de sua representação social.

Partindo da visão marxista, há o proletariado, que vende sua força de trabalho, e os capitalistas ou donos dos meios de produção, que são aqueles que dão condições para que esses operários trabalhem. A necessidade força o operário a se manter a qualquer custo em sua função, pois, caso seja despedido, há vários outros para o substituírem. Estamos nós reféns desse promotor de loucura?

Marmieládov, personagem de Dostoiévisk em Crime e Castigo, sofria com o desemprego e com a bebida, e isso fazia dele um escarnecido em sua casa. Ao conseguir um trabalho, passou a receber tratamento especial, e até sua mulher caprichava no visual para lhe agradar. Agora ele era digno de louvor da família. O trecho diz:

“…Antes (desemprego) só ouvia injurias: vai deitar na cama, animal! Agora andavam com mil precauções, na ponta dos pés, mandavam as crianças fazerem silêncio: Psiu! Siemiom Zakháritch está cansado do trabalho, deixem-no descançar”.

Essa situação contribui para que o sujeito esteja preso ao seu trabalho, para que ele não queira mais voltar a ser tratado como antes. A vida se torna trabalho, uma obsessão. Sua existência passa a ser para o trabalho.

O workaholic não faz distinção entre vida pessoal e profissional, o prisma do trabalho é a lente com que o sujeito vê o mundo. É como o operário de Tempos Modernos: não sabe por que faz, o que faz, não sabe o sentido de sua atividade, a finalidade do seu esforço. Sua identidade está em risco ou na verdade está mutada: José Silva, que trabalha vendendo sorvetes na porta da escola, agora se chama “Zezim do Sorvete” e o Roberto Braga, que trabalha na padaria, agora é o “Beto do Pão”.

O trabalho dignifica o homem, é um valor positivo, é o propulsor social – saudável quando moderado. O workaholic é seu escravo e está inteiramente dominado pelo espírito de sua época.


Nota: Texto desenvolvido para a disciplina Psicologia do Trabalho ministrada pela Professora Camila Brusch.

Heberth Braga
Egresso de Psicologia do CEULP/ULBRA, Residente do programa de Saúde Mental.
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