Para os noveleiros de plantão e os noveleiros por acaso

Sempre que pergunto, em sala de aula, se os alunos acompanham telenovelas, a resposta é sempre negativa. A maioria afirma que não perde tempo com isso e que o que veem na TV são filmes, documentários ou telejornais. Quando admitem que sabem o nome de alguma personagem, justificam dizendo que ouviu o comentário de algum parente ou que estava passando pela sala e viu uma cena de relance, ou que zapeava e acompanhou, por alguns instantes, um trecho desta ou daquela telenovela, ou ainda que ouviu comentários no cabeleireiro!

Por muito tempo também assim me comportava. Não era admissível, especialmente para uma estudante do curso de Letras, perder tempo com telenovelas, enquanto há tantos livros para ler. Durante muito tempo tive que esconder que acompanhava a todas as telenovelas da Globo.

Por que estou colocando o dedo na ferida? Só porque eu admito ser noveleira? Também por isso.

O debate em torno da televisão, em especial das telenovelas, por muitos anos, girava em torno do fato de as telenovelas apresentarem perigo porque seus enredos melodramáticos tinham objetivo de causar manipulação, evasão e alienação. Primeiro nas mulheres, depois em toda a família, que se tornando os humanos embebidos de sonhos e de lágrimas, vazios de vontades, plenos de ilusão. Além disso, as telenovelas eram (e ainda são) consideradas o reduto de maus comportamentos, trazendo más influências aos jovens.

Mesmo com todos esses argumentos de pais e professores quanto à influência no comportamento das crianças e dos jovens, quero chamar à reflexão para alguns pontos. Pensemos em Avenida Brasil, novela de João Emanuel Carneiro e que (posso imaginar!) vocês não estejam acompanhando. Com uma narrativa rápida, personagens surpreendentes e uma direção cuidadosa de Ricardo Waddington, a novela nos faz pensar em tipos que nos cercam. Carminha, por exemplo, usando a máscara da boazinha, comete atrocidades que deixam telespectadores estarrecidos. No primeiro capítulo, rouba o “marido” e abandona a enteada em um lixão. E ainda descola um casamento com um jogador de futebol. Sim, com ares de boa moça, inofensiva e devota cristã. Isso nos mostra como nós somos ludibriados, como o Tufão é: sem perceber. O que o autor nos traz é o retrato de nosso malogro.

Como já comentou Alexandre Garcia, o malogro nosso está em cada dia, na carga tributária que pagamos, na aceitação da corrupção nas várias esferas dos poderes públicos, no comportamento no trânsito, enfim, não vou enumerar mais para não ficarmos angustiados…

Por outro lado, a telenovela traz o que a narrativa traz: momentos de imersão em outro mundo, o mundo da ficção, o mundo do possível. E é no mundo do possível e com a popularidade que a narrativa televisiva possui é que a telenovela cumpre uma função social, a função de desenvolver o senso de tolerância no espectador brasileiro.

A telenovela também dialoga com grandes narrativas da literatura universal: neste momento, Carminha e Nina estão dialogando com Luísa e Juliana, de O Primo Basílio. Basta que fiquemos atentos para percebermos as intertextualidades que se estabelecem nas diversas narrativas televisivas.

Carlos Lombardi, autor de telenovelas como Pé na Jaca e Kubanacan, comentou, no encontro do Obitel (Observatório Iberoamericano de Ficção Televisiva) de 2010, que as telenovelas giram em torno de Hamlet, Romeu e Julieta e O Conde de Monte Cristo. Hamlet (tragédia de William Shakespeare, escrita entre 1599 e 1601) conta a história do filho, que busca vingar a morte de seu pai, explorando temas como a vingança, a traição, a moralidade, a corrupção. Romeu e Julieta (tragédia de William Shakespeare escrita entre 1591 e 1595) em que o amor dos jovens é considerado arquétipo do amor juvenil. O Conde de Monte Cristo (escrito por Alexandre Dumas concluída em 1844) conta a história de um homem que, ao ser preso injustamente, conhece um sacerdote de quem fica amigo. Quando este morre, o amigo escapa da prisão e toma posse de uma misteriosa fortuna. Agora rico, busca vingar-se daqueles que o levaram à vida de prisioneiro.

Enfim, as telenovelas estão cheias desses arquétipos. Basta observarmos. Basta conhecermos a literatura para percebê-la na telinha. E ter coragem para admitir que gostamos de televisão!

Saiba mais:

BORELLI, Sílvia Helena Simões. Telenovelas Brasileiras: balanços e perspectivas. São Paulo em Perspectiva, 2001. Disponível em <http://www.scielo.br/pdf/spp/v15n3/a05v15n3.pdf>

HUPPES, Ivete. Melodrama: o gênero e sua permanência. Cotia, SP: Ateliê Editorial, 2000.

OROZ, Silvia. Melodrama: o cinema de lágrimas da América Latina. Rio de Janeiro: Rio Fundo, 1992.

SOUZA, M.C.J. (Org.) Analisando Telenovelas. Rio de Janeiro: E-papers, 2004a.

_____________. Telenovela e Representação social. Rio de Janeiro: E-papers, 2004b.

THOMASSEAU, Jean-Marie. O Melodrama. São Paulo: Perspectiva, 2005.

Kyldes Batista Vicente
Doutora em Comunicação e Cultura Contemporâneas da UFBA (PosCom-UFBA). Mestre em Letras e Linguística (UFG). Licenciada em Letras (UFG). É professora da SEDUC e da Unitins. Atua em pesquisa e desenvolve projetos nas áreas de literatura, televisão, teleficção seriada e adaptação literária. Desenvolve, com outros pesquisadores do Grupo de Pesquisa Literatura, Arte e Mídia, os projetos de Extensão “Cinema e Literatura em Debate” e “Interlúdio Literário”. E-mail: kyldesv@gmail.com