Pesquisa científica ou critério de competitividade?

Ciência, Tecnologia e Inovação. Essas são as palavras da moda, utilizadas em qualquer tempo e espaço. Sinônimos de desenvolvimento e industrialização no meio empresarial, no meio acadêmico esse conceitos muitas vezes se restringem a critérios de competitividade. A força científica do nosso país é bastante expressiva e têm gerado excelentes resultados, frutos do esforço de renomados pesquisadores. No entanto, existe o efeito negativo herdado do capitalismo, que é a produção em alta escala de artigos elaborados simplesmente para garantir um espaço no mercado.

A utilização da tecnologia para garantir eficiência na produção e destaque frente a concorrência, não é um privilégio apenas da indústria, mas também das universidades e institutos de pesquisas, e tem ganhado força significativa nos últimos anos. Muitos encontraram nas plataformas digitais uma alternativa para dominar os desafios impostos pelas instituições e atingir a tão almejada meta quantitativa. O desespero e a preocupação com os números deixaram de ser exclusividade da matemática para serem os motivos da inquietação e angústia de alguns cientistas.

O reflexo desse novo cenário nem sempre é favorável ao desenvolvimento científico e tecnológico de um território. Se por um lado a pesquisa científica, responsável pela socialização do conhecimento e aprendizado, torna-se cada vez mais limitada dentro das universidades, por outro, se transforma em estratégia para as novas instituições de ensino que atuam num mercado extremamente competitivo.

A ciência sempre foi a base no processo de inovação das instituições, mas hoje, além de ser a reponsável por criar valores, é também o ponto chave na avaliação entre instituições de ensino. Deixou de ser reconhecida como recurso essencial para o aumento da eficiência e geração de conhecimento tanto em empresas como universidades, para ser vista como um dado quantitativo para o mercado e os chamados órgaõs reguladores da educação no país.

Nesse contexto o meio acadêmico é transformado por uma revolução, não a do conhecimento, poque esta já aconteceu. O nome mais adequado seria “Revolução dos Papers” que induz um aumento significativo nas produções científicas, gerando um efeito negativo em relação à qualidade do que está sendo produzido, ou melhor, reproduzido. Transita nesse cenário professores e acadêmicos angustiados, frustrados, cansados, doentes.

Seria este o caminho? Publicar por publicar, apenas para manter o emprego, disputar o melhor currículo lattes, ter a insituição uma boa avaliação para continuar suas atividades? A concorrência é acirrada e as exigências aumentam ainda mais! Mas em meio a essa turbulência acadêmica e capitalista, onde está a essência do conhecimento?

Se os professores continuarem a estimular os alunos a publicar em qualquer revista simplesmente para contar pontos, chegar à um momento em que a  tal “ciência” estará estampada nos outdoors. E em consequência, perderá sua razão principal de ser, que é promover o avanço da humanidade e os resultados gerados a partir das vocações dos pesquisadores em benefício da sociedade.

A pesquisa deve ser estimulada, a fim de desenvolver competências essenciais capazes de criar e sustentar uma posição de destaque frente aos concorrentes, já que estamos falando de um mercado acirrado. E se os resultados da ciência transbordam os limites da universidade, gerando benefícios para a sociedade, é natural que a pesquisa seja publicada em revistas renomadas e conceituadas a fim de ser disseminada em outras localidades. Eis a diferença entre qualidade e quantidade.

Professor do Departamento de Economia e Relações Internacionais – UFSC. Bacharel em Ciências Econômicas (UFT), Mestre em Política Científica e Tecnológica (UNICAMP), Doutorando em Engenharia de Produção (UFSC) e Informação e Comunicação em Plataformas Digitais (Universidade de Aveiro e Universidade do Porto).