Relações midiáticas e produções de Saúde

“A qualidade dos médicos no Brasil. A formação aqui é péssima. Não existe, em muitos cursos, nem treinamento prático adequado. E há ainda a invasão de (mal) formados em Cuba e na Bolívia “(Folha São Paulo, 2012).

“Treze mil médicos são diplomados ao ano, mas faltam profissionais” (O Globo, 2012).

“O exame realizado Cremesp prova a péssima qualidade da formação médica no Brasil. Em 7 anos 46,7% dos 4.821 alunos que o realizaram foram reprovados”(saúde web,10/2012).

Nos últimos meses temos sido bombardeados por notícias referentes aos cursos de medicina e a falta de profissionais em saúde (a mídia nomeia profissionais de saúde como apenas a classe médica). As quais nos fazem ficar indignados com a precariedade do atendimento à saúde, a falta da dignidade humana, a preocupação com o futuro da saúde do mundo, e principalmente do país.

Um dia ouvindo e vendo estas notícias, comecei a me indagar sobre as outras formações referentes à saúde, como enfermagem, fisioterapia, biomedicina, odontologia, psicologia e tantas outras, como elas andavam. Se aquele dia que a televisão havia ido visitar o hospital, se tinham enfermeiros, fisioterapeutas… no atendimento, ou ainda, se tinha faltado o plantão, apenas o médico? Certamente, deveriam ter outros profissionais, no entanto, no senso comum, “sem médico, a saúde não vai para frente”. Desta maneira, é preciso ter as 196 Escolas de Medicinas no país a fim de promover melhorias na saúde. Será necessário, mesmo?

Não quero aqui, diminuir a formação médica ou até mesmo retirar a necessidade de reflexão e novas práticas na formação acadêmica desta graduação, assim como as intervenções referentes a esta profissão. Entretanto, o que não pode deixar de levar em consideração é que a assistência em saúde não diz respeito apenas ao médico, mas é composta por uma gama de outras especialidades que se unem para cuidar da integralidade do ser humano. Compreendendo inclusive, que a saúde não seja ausência de doença para que seja cuidada como algo especificamente biológico. Mas que seja um bem-estar físico, mental, levando em consideração a autonomia, justiça, beneficência (Araujo, Brito, Novaes, 2008). Entendo que a agenda midiática utiliza destes discursos para favorecer a postergação do modelo biomédico e o hospitalocêntrico.

O modelo biomédico surge no final do século XIX e início do XX, a partir das influências da Escola de Cnido, Modelo Cartesiano, Medicina dos Tecidos e do Positivismo. Este modelo se caracteriza a partir dos aspectos do: reducionismo biológico, exclusão do psíquico e uma visão fragmentada do ser e do adoecer (De Marco, 2003).  Já o modelo hospitalocêntrico é centrado na assistência hospitalar e atenção curativa. Estes dois modelos se retroagem.

O modelo biomédico é uma ideologia que sustenta e justifica uma maneira de produzir cuidados ao paciente através de práticas medicamentosas, especialistas. Onde, medicam mais, realizam mais cirurgias e escutam e olham menos para o ser que está na sua frente. E só para lembrar, existem outras maneiras de cuidar, por mais que estejamos esquecidos.

Manter esta agenda midiática por meio da compra destes discursos é uma forma de aprovar o não-olhar do médico para o paciente. As notícias veiculadas na mídia produzem subjetividades, tanto naqueles que estão nos postos de saúde, hospitais trabalhando e os que vão nestes locais buscar saúde. Então, se vamos questionar as práticas e a formação em medicina, por quê não questionar também as outras formações que abrangem a saúde, as formas de cuidado. A saúde não se restringe à Medicina! A sociedade não pode deixar que a saúde assim se configure.

Referências:

DE MARCO, Mário Alfredo. A Face Humana da Medicina: do Modelo Biomédico ao Modelo Psicossocial. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

ARAÚJO, Arakén Almeida; BRITO, Ana Maria de; NOVAES, Moacir de. Saúde e Autonomia: Novos Conceitos São Necessários? Revista Bioética, vol. 16, n° 1, 2008.

Mariana Miranda
Psicóloga, especializada em Gestão de Pessoas pela UFT. Membro do Conselho Regional de Psicologia - 23ª Região.
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