Um causo da Educação… e Saúde Mental

NOIS MUDEMO
(Texto parafraseado)

“O ônibus da Transbrasiliana seguia tranqüilo pela BR-153, com destino a Porto Nacional. Era abril, mês das últimas chuvas. Havia no céu, uma lua enorme, pra nenhum amante por defeito. Baixo o generoso luar, o verde cerrado era um presépio encantador, todo poeta e místico.

Porém, estava cheio de amargura. O encontro que havia tido naquela tarde, aquele jovem sofrido, envelhecido precocemente, a dura memorização de um fato que parecia tão bobo… Procurei adormecer. Não consegui. Percorrendo com meus olhos a paisagem enluarada, esta não era nada para mim além de fundo de um acontecimento estúpido e traumatizante.

Era o primeiro dia da semana e as aulas haviam começado. A escola era de subúrbio, as classes de ambos os sexos com alunos atrasados. Havia uma criança maior, quase um jovem, magro, alto, cabelos crespos, desconfiado, um pouco assustado, tímido.
_ Porque não veio antes? Perguntei ao garoto.
_ É porque nois mudemo onti, fessora. Nós veio da roça.

A turma riu.
_ Não se fala “nóis mudemo”, garoto! Devemos dizer: “Nós mudamos, viu?”.
_ Viu, fessora!

No intervalo do lanche os colegas zombaram do garoto: Oi, nóis mudemo! Até amanhã, nóis mudemo!

No outro dia, a coisa se repetiu: risos, cochichos, piadas.
_ Bom dia, nóis mudemo! Como vai, nóis mudemo?

Já em casa, à tarde, o menino conta:
_ Não vô mais pra escola, Pai!
_ Ó xente! Pru quê, meu fio?

Após escutar o filho, o pai pensou e disse.
_
Meu fio, nun vai deixá a escola pru modi uma bobagem dessa! Não dá bola pras gozação da garotada! É assim mesmo, na cidade. Depois eles esquece.

Mas não esqueceram.

Dei falta do menino na quarta-feira. Ele não foi no resto da semana e nem na segunda-feira. Foi quando percebi que nem sabia o nome dele. Procurei no diário de classe. O nome era Lúcio. Lúcio Rodrigues Barbosa. Encontrei o endereço. Uma tarde fui lá. Era longe, um barraco apertado, um dos últimos casebres cobertos de telha de amianto.
_ Boa tarde, Senhor. Está o Lúcio?
_ Não, senhora. Ônti ele foi pra casa do meu irmão no Sul do Pará. É fessora, ele não agüentou as humilhação da mininada. Eu tentei fazê ele não saí da escola, mas não adiantou. Nóis não tem veis na cidade. Nóis num sabe falá certo. Agora ele ta socado naquele buraco…

Ó meu Deus! As mãos trêmulas sobre a cabeça baixa.

Eu não tinha experiência, estava confusa e não sabia o que dizer, apenas engoli em seco e me despedi.

Procurei a diretora e contei o que se passou.
_ Liga não! Essa gente é assim mesmo.


Faz dezessete anos que isto aconteceu e não me lembrava mais, pelo menos eu não.

Em uma tarde quente, numa lugarejo à beira da Belém-Brasília, eu estava prestes a pegar o ônibus, quando alguém me chamou. Olhei e vi, um rapaz mal vestido, encostado num poste, acenando e sorrindo pra mim, com a barba rala, magro, amarelo, curvado, parecia doente.
_ Quê, moço?
_ A senhora ta lembrada de mim, fessora?

Olhei pra ele. Tentei recordar. Vi passar sob minha cabeça os longos anos de dedicação ao magistério. Não conseguia lembrar. Um pressentimento ruim me invadiu.
_ Não me lembro, moço. De onde me conhece? Fui sua professora? Qual seu nome?
Fiz tantas perguntas, ele me respondeu arrasando-me:
_ Eu sou Nóis mudemo, fessora.

Meu Deus! Tremi.
_ Sim, moço. Estou me lembrando. Como se chama mesmo?
_ Lúcio Rodrigues Barbosa.
_ O que houve com você Lúcio?

O rapaz desatou a falar, contando-me recordações sofridas.
_ O que aconteceu? Ah! Fessora. Dizê o que não aconteceu é mais fácil. A vida foi dura pra mim. Fui garimpeiro na Serra Pelada, fui bóia fria, trabalhei numa fazenda desse tamanhão como escravo durante um tempão. Dormi no chão, passei fome, tortura, levei bala quando fugi. Tive tudo quando doença. Até fui pra cadeia. Nóis da roça, ignorante, as veis fazemo uma farta danada. Eu num devia tê ido embora da escola, fessora, mas não agüentei as piada dos colega. Eu sabia que num ia aprendê fala qui nem eles. Que pode fazê? Até hoje não sei. A escola não é feita pra gente que nem eu.
_ Meu Deus! As falas daquele garoto me deixaram angustiada. Foi muito pra mim. Sem conseguir me controlar, comecei a chorar compulsivamente. Como pude ser tão idiota e cruel? Abracei o rapaz, ou o que sobrava dele, e ele me olhou desconcertado.

A buzina insistente do ônibus fez o rapaz recuar serenamente.
_ Chora não, fessora!! A curpa não é da senhora.
_ Como? A culpa não é minha?  Deus do céu!

Entrei correndo no ônibus. Os olhos dos passageiros pareciam me acusar. O ônibus se foi. Pensei na minha sala de aula, eu era uma homicida a caminho do holocausto.


Hoje sinto raiva da gramática. Eu mudo, tu mudas, ele muda, nós mudamos, mudamos, mudaamos, mudaaaamooos… hiper usada, mal usada, cansada, ela mata dentro da escola. A gramática faz humilhações com a língua materna – a língua aprendida com os pais, irmãos e colegas. Dessa forma, ela é o terror dos alunos. Ao contrário de estimular o crescimento, através da comunicação, ela reprime e oprime, com a cobrança de inúmeras regrinhas idiotas para aquela idade.

E os Lúcios da vida, os milhões de lúcios do subúrbio e do interior, presos na sala de aula. “Não é assim que se fala, menino!” Como se o professor dissesse: Você não sabe nada. Seus pais não sabem nada. Todos estão errados, seus irmãos, amigos e vizinhos. Eu sou a certa. Faça como eu! Copie-me! Fale como eu! Não seja você! Negue sua origem! Diminua-se! Despersonalize-se! Fique onde está! Seja um nada!”.

E continue indo sem arma para o matadouro da vida…”.

(BOGO, Fidêncio, O quati e outros contos. Palmas – TO, 2002, Parafraseado)

O texto conta a história vivenciada por uma professora que, imaginando estar ensinando da melhor forma possível, corrigiu seu aluno em voz alta e de certa maneira favoreceu para que os colegas o rotulassem como alguém ignorante, que não sabia falar corretamente.

Lúcio é o nome deste garoto pobre, sem instruções, advindo da zona rural. O pai, também carente de instruções, na tentativa de melhorar a vida da família, migra com esta para a cidade e tenta colocar Lúcio na escola para que este tenha uma vida melhor que a sua.

O garoto foi vítima de humilhação e de situações vexatórias por usar uma linguagem que foge da linguagem padrão. Lúcio e seu pai utilizam uma linguagem própria, materna, com características de quem não teve chances de estudar, uma linguagem sem a preocupação em usar corretamente as normas gramaticais. Vemos isto nas falas: “nois mudemo”, e “é fessora, meu fio não agüentava gozação da mininada”.

Lúcio e seu pai têm exclusivamente este tipo de linguagem porque foi assim que aprenderam com seus familiares, amigos e vizinhos, não tendo oportunidades em conhecer outra linguagem possível. Pode-se dizer que possuem uma língua materna, e como ambos não tiveram acesso a outro tipo de linguagem, uma vez que não puderam freqüentar a escola, só possuem a linguagem usual da família.

Após ser discriminado, humilhado e excluído na escola, Lúcio foi embora para o Sul do Pará, zona estritamente rural, trabalhar em atividades que não exigem nenhum grau de instruções. O garoto continuou sendo humilhado e excluído, só conseguiu trabalhos pesados, com baixa remuneração, às vezes até sem remuneração, podendo ser comparado ao trabalho escravo. Como não tinha instruções ou escolarização, não conseguiu trabalhos melhores, pois não dominava técnicas diferentes daquelas que aprendeu na roça.

Infelizmente, Lúcio pode ter sua história confundida com a de milhares de brasileiros que vivem abaixo da linha da pobreza encontrando-se em situações subumanas e completamente esquecidos pelo poder público e pela sociedade.

O personagem da história são estes brasileiros que só teriam chance de ter seu destino mudado se tivessem acesso à escolarização. Se Lúcio não se sentisse excluído na escola talvez tivesse tido uma vida diferente. Com maior escolaridade, poderia ter encontrado trabalho na cidade, ajudando sua família, ou mesmo voltado para a zona rural, certamente seria mais valorizado, teria empregos melhores e não sofreria tanto.

O exercício de nos colocarmos no lugar do outro é bastante interessante. Se eu estivesse no lugar de Lúcio, quando este foi humilhado diante da professora e dos colegas, com certeza me sentiria a pessoa pior do mundo. Seria mesmo um peixe fora d’água. Alguém que não pertencesse àquele lugar.

Lúcio foi humilhado por falar “errado” no ambiente que existe para se ensinar como se fala “certo” ou “errado”. Se realmente existisse o “certo” e o “errado” aquele deveria ser o lugar de Lúcio. Lá, ele poderia aprender o que não teve chances de aprender em toda sua vida. Se todos fossem à escola já sabendo o que se pretende ensinar, então pra que serve a escola?

Este garoto foi excluído justamente onde deveriam acolhê-lo e ensiná-lo. Porém, infelizmente, não é assim que vemos acontecer. Muitas crianças são ridicularizadas por demonstrar “não saber”, vemos isto nos inúmeros casos de alunos que não perguntam ao professor por medo da reação dos colegas, se sentem envergonhados por “não saberem”. Esta realidade é cruel e massacrante, e só contribui para aumentar os índices de repetência e evasão escolar.

Cristianne Beda de Queiroz Mendes
Psicóloga pelo CEULP/ULBRA e Historiadora pela UFG. Especialista em Educação pela Faculdade Pitágoras (MG). Estudante da Pós-Graduação em Psicoterapia Clínica do CPG (MG)