Uma viagem pelos sentidos

Sim, muitos jovens tem a oportunidade de estudar em outro país e, afortunadamente, eu estou inserida nesse grupo. Daí, um dos primeiros impactos: quanta gente diferente tem por aqui (e porque não dizer quanta gente esquisita, pois, na maioria das vezes é esse estranhamento que predomina, particularmente em mim)! E mesmo sabendo que não é preciso se deslocar para tão longe para se impactar desse jeito, constando a diversidade cultural, racial, econômica e étnica que há em nosso próprio país, digo que esse impacto, de fato, se redimensiona aqui, d’outro lado do Oceano Atlântico, onde as pessoas costumam falar outra língua, comer muita batata e preservar, como podem, os resquícios do que um dia foi uma importante civilização, a celta.

Arquivo pessoal

Hoje moro num país que é uma ilha. Moro numa cidade costeira, húmida e extremamente chuvosa. Salva-me engano, em 275 dias do ano chove. Estou encerrando a minha segunda semana na Irlanda com uma efusão de sensações que ainda não encontrou todas as válvulas de escape necessárias. No entanto, sei que escrever sobre essa efusão é um caminho bastante saudável para mim. Vim para cá de avião. Vim para cá com uma tremenda sensação de suspensão que ainda não passa (ainda bem que a gripe e a dor de ouvido passaram). Aterrissei, mas meus pés ainda não sentiram o chão. E mesmo tendo levado uma queda de bicicleta em meu terceiro dia, onde pedaços de minha pele se misturaram ao asfalto, e vice-versa, o sentido do tato afeta-me, agora, de forma bastante diferente. Falta abraço, sobra mímica. Sobra vento e frio, falta abraço. Em quesito de gesticulação e interpretação, o corpo reaprende seus limites naquela velha história de dançar conforme a música. Ainda falando do tato, a pele começa a se acostumar com a textura das coisas e com a diferença que há em muitas das coisas que tocamos e que, obviamente, nos tocam.

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Só ratificando, a palavra “sentido” (não como verbo no particípio, mas sim como substantivo masculino) corresponde, em seu simplificado significado, a um conjunto de faculdades que usamospara processar (não sei se essa seria a palavra correta a usar) as sensações e percepções que temos do mundo. Didaticamente, dizemos do tato, do olfato, da audição, do paladar e da visão que, trabalhando conjuntamente, ajudam e compõe o que é chamado de processo cognitivo, embora eu prefira dizer que, quando os sentidos trabalham conjuntamente, faz mais sentido. Acredito que exploramos nossos sentidos de acordo com as vivências que temos, ou, as vivências que temos aguçam mais uns sentidos do que outros. Talvez seja só questão de explorar. Disso, compus meu texto viajando pelas sensações e percepções que tive nesses 13 dias.

Viajo agora pelo sentido da audição, que tem sido bastante usado nessa nova experiência. Escutar, ouvir. Ouvir e escutar. De novo. Mais uma vez. Quantas vezes forem necessárias para o entendimento. Quando você não sabe um idioma, a escuta é como uma pescaria: sorte a sua quando pega um peixe, ou melhor, sorte a sua quando entende uma palavra dentre as inúmeras que escuta. O bom disso tudo é que, embora pareça ter dias em que o mar não está para peixe, não há dias em que sua cesta volta vazia. Definitivamente não há. E a audição vai sendo explorada, amplificada, expandida. E de repente é possível distinguir vários idiomas, e é possível até saber que aquela pessoa que está falando em inglês é, na verdade, um brasileiro. Bom, mas como eu disse, os sentidos costumam trabalhar conjuntamente e, desse trabalho, imensa é a importância da visão.

É difícil fazer essa divisão didática para falar das impressões, mas digo asseguradamente sobre o quanto a visão tem me ajudado nessa orientação. Como muitos devem saber, a orientação do tráfego é inversa à nossa. Os volantes dos carros ficam no lado direito. A via de ida é a da esquerda e a de volta da direita. Perante o movimento do centro de Galway, olhar para todos os lados tem me livrado de alguns atropelos. E sendo a configuração da vida irlandesa bastante diferente da que eu estou acostumada, olhar me orienta, ver me fascina, ler me ajuda, e observar me ensina muito. Novos olhares são propulsores de novas imaginações e outras criatividades. Os inúmeros olhares se cruzam, se misturam. Olhares azuis, castanhos, maquiados, cansados, alegres, jovens, chorosos. Olhares diversos que guardam toda uma vida de riquezas. Além disso, diante de tanto impacto, o olhar pede, quase implora, pelo registro de tanta peculiaridade.

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Falar do olfato, assim como do paladar, é falar de uma amplidão sem fim. Mesmo no verão, para mim, o cheiro da vida aqui é cheiro de mofo. Ao falar isso, não pejoro os ares irlandeses, muito pelo contrário, os considero milenarmente abençoados e talvez por isso tenham cheiro de mofo. Mas não sufocam, abrem os pulmões. Na beira do mar, o vento dança e se renova sem parar. Há o cheiro das lindas e diversas flores, dos diversos perfumes, da grama molhada, das interessantíssimas comidas dos restaurantes. Há o cheiro dos peixes, assim como o gosto deles. Falando em gostos… ahhh… quantos gostos diferentes! Quantos temperos, quantos sabores! Quanta mistura. Não digo melhor ou pior, apenas diferentes.

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E de toda essa profusão de sentidos (agora já me refiro aos sentidos como o significado de algo), onde paradigmas vão sendo estraçalhados e reconstruídos rotineiramente, talvez uma das únicas certezas que prevaleça seja a de que eu sou apenas mais uma diferença diante de tantas outras. Hoje, sou diferença. Sou diferente. E assim vou me sentindo a cada dia: desterritorializada, ainda incomodada (faz parte), mas também animada com (e por) isso.

Ângela Marques
Psicóloga formada pelo CEULP/ULBRA. Colaboradora do (En)Cena.
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