A Saúde Mental e a Universidade

No decorrer da história, as manifestações contrárias ao poder político e aos costumes eram fáceis de ser julgadas e punidas. Afinal, as regras foram feitas pela sociedade, que também estabelecia formas para exigir respeito. Mas, as transgressões individuais causadas por atitudes fora dos padrões comportamentais, considerados normais, provocavam medo e desconfiança e eram tratadas como loucura, bruxaria, satanismo, enfim anormalidades.

A sociedade evoluiu e com os avanços do conhecimento e da tecnologia é possível chegar mais próximo do ser humano, com maior clareza e precisão para analisar e entender seu comportamento sem medo ou superstição. A Psicologia busca compreender as emoções, a forma de pensar e o comportamento do ser humano. Embora existam diversas áreas e linhas de atuação, a Psicologia busca o conhecimento e o desenvolvimento humano, individualmente ou em grupo.

Nesta entrevista, o psicólogo César Gustavo Moraes Ramos fala sobre Saúde Mental e o papel da Universidade na formação profissional

Foto: Márcio Di Pietro

Nascido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, 33 anos, formado em Psicologia e mestre em Ciências Criminais pela PUC do Rio Grande do Sul, César mora no Tocantins desde 2009, quando assumiu a Coordenação do Curso de Psicologia do Ceulp/Ulbra. Com atuação nas áreas da educação, direitos humanos, clínica, segurança, gestão pública e na parceria com empresas nas avaliações das instituições, César gosta de música e faz questão de apreciar os sons analógicos dos discos de vinil.

(En)Cena – Quais os conceitos de Saúde Mental e Transtorno Mental?

César Ramos – Quero fugir dos conceitos da Organização Mundial da Saúde ou outros órgãos de saúde. Saúde Mental é um bem estar físico e social. É quando nós estamos bem com nós mesmos e com a comunidade a que pertencemos. O transtorno mental seria uma ideia de sofrimento psíquico. Na realidade, o transtorno mental apresenta-se em uma série de patologias, mas nós não precisamos trabalhar sempre com o  conceito de patologia. Podemos trabalhar com o conceito de sofrimento que implica uma grande mudança na percepção dessa temática.

(En)Cena – Como uma pessoa descobre que está com algum tipo de transtorno mental?

César Ramos – Nossos códigos patológicos – CID-10 e DSM – pautam uma série de procedimentos para identificar pessoas com transtornos mentais, eles trazem vários tipos de sintomas catalogados, como por exemplo: questões de movimentos estereotipados, de percepção ou alucinações. Mas hoje, para identificarmos uma pessoa com transtorno ou alguma patologia, nosso olhar deve estar mais focado para o âmbito do sofrimento e da adaptação dos espaços que ela ocupa. Na realidade nós vamos ter que perceber o quanto uma pessoa cria elementos que dificultam a convivência dela em sociedade ou de pessoas que vivem com ela. Temos que tomar muito cuidado com a questão do etnocentrismo, devemos recordar que o conceito de patologia não é asséptico e recebe interferências que vão desde questões sociais, antropológicas, históricas até desdobramentos que as inovações tecnológicas proporcionam. Mas a questão do sofrimento psíquico pode ser resumido a grosso modo da seguinte maneira: É o momento que nós começamos a ter atos ou situações que nos causam prejuízos nas diversas áreas da nossa sociabilidade.

(En)Cena – A psicologia tem alguma relação com a filosofia?

César Ramos – A psicologia nasce neste intrincado, neste caldeirão que vai desde a fisiologia até os estudos culturais. Ela é fruto tanto da filosofia quanto da biologia. E isso reflete muito na formação do profissional, por exemplo, a faculdade que estudei, no Rio Grande do Sul sofreu uma forte influência do movimento geopolítico que ocorreu na Europa depois da Segunda Guerra Mundial. Houve uma migração muito grande de pensadores para o sul da América Latina. Porto Alegre devido a sua proximidade com Buenos Aires e Montevidéu, recebeu uma influência muito grande da psicanálise que está próxima da filosofia e do estudo cultural. É diferente de outras regiões no Brasil que sofreram uma influência grande dos estudos desenvolvidos na América do Norte que estavam mais próximos do âmbito da biologia.

(En)Cena – Com a Reforma Psiquiátrica, amparada pela lei 10.216/2001, que modificou o enfoque da Política Pública da Saúde na questão da Saúde Mental, quais foram as mudanças que a Universidade teve que fazer em sua grade curricular?

César Ramos – As principais mudanças foram identificar as problemáticas do modelo asilar e do modelo hospitalocêntrico na questão da Saúde Mental. Vivemos assim até os anos 80 e 90 no Brasil. Hoje passamos para o modelo de atenção psíquico-social, onde a pessoa portadora de sofrimento não é isolada de sua comunidade, não é desmantelada dos seus vínculos e principalmente não é observada pela patologia. A patologia é parte integrante dela e não o principal elemento de sua identidade.

Na universidade, o Curso de Psicologia passou por uma grande mudança, marcada em 2004, onde se reformularam as diretrizes curriculares nacionais. O Curso de Psicologia passa a ser um curso generalista. Antes a formação em psicologia no Brasil era pautada pelas grandes escolas de pensamento que cada universidade adotava. Era como se todas as multiplicidades de áreas e âmbitos da psicologia fossem observadas por apenas um tipo de lente, um formato de óculos. Hoje temos o desafio de instrumentalizar o aluno com inúmeras lentes para que ele possa perceber qual o óculos mais se identifica.

Foi este marco de 2004 que fez acabar com esta cristalização das verdades, onde cada universidade seguia uma corrente e estavam mais próximas das escolas de pensamento do que realmente da multiplicidade de áreas e de oportunidades que um profissional da psicologia pode ocupar.

Situando a questão da Saúde Mental devemos perceber que tal política acompanha um movimento maior, uma mudança de perspectiva do Sistema Único de Saúde onde nós, brasileiros, durante muito tempo investimos nas altas complexidades. A nossa referencia era o hospital, o distanciamento do paciente, o deslocamento dele. Assim criamos nossos laboratórios, tiramos as pessoas das ruas e as colocamos – com discurso humanista – dentro de um espaço onde vamos tratá-las, mas manipulando-as como se fossem objetos.

Essa mudança sai da idéia de uma medicina voltada para alta complexidade e para outra que começa a se pautar na prevenção e na atenção básica.

(En)Cena – A matriz curricular do Curso de Psicologia do Ceulp Ulbra contempla a realidade da Saúde Mental?

César Ramos – Temos os estágios, que é oportunidade dos estudantes trabalharem dentro das políticas publicas em Saúde Mental, nos Caps, na rede integrada do Sistema Único de Saúde. Temos as disciplinas iniciais e finais que colocam o aluno em contato com estas instituições. Temos disciplinas exclusivas para a temática mas não podemos esquecer que esse tema deve ser transversal porque pauta a psicologia pela perspectiva dos Direitos Humanos. A diferença está na mudança de olhar a partir deste marco institucional que é a Lei 10.216/2001, os movimentos sociais que desencadearam esse marco causaram um impacto muito grande na nossa formação do profissional de psicologia.

César Ramos em atividade como Coordenador do Curso de Psicologia do CEULP/ULBRA

Foto: Márcio Di Pietro

(En)Cena – Como o curso está atuando em relação ao mercado de trabalho. Existe alguma política de inserção do aluno no mercado de trabalho?

César Ramos – A universidade se divide em ensino, extensão e pesquisa. O mercado de trabalho está cada vez mais fluído, cada vez mais acelerado, aliás, aceleração é uma das principais marcas do nosso espaço-tempo, da nossa contemporaneidade. Cientes disso notamos, por exemplo, que no inicio do curso de psicologia há 11 anos atrás nossos alunos eram absorvidos pelo mercado na gestão de recursos humanos, no recrutamento e seleção pelas consultorias empresariais. Hoje percebemos que o nosso aluno é mais absorvido nas políticas publicas de assistência social, onde ele vai trabalhar num centro de assistência social, num centro especializado com questões de violência, de abandono, etc. Todavia as possibilidades são diversificadas temos egressos desenvolvendo atividades em todas as áreas clássicas da psicologia.

Nossa equipe de professores tem a clareza de que devemos preparar o aluno para enfrentar as dificuldades e para conseguir inclusive elaborar e empreender ações diferenciadas, porque onde existem pessoas, existe a psicologia, existe a possibilidade de trabalho. Independente do nosso olhar de mercado de trabalho o curso não está focado para o emprego, ele está focado para as possibilidades. Novamente, estamos cientes da fluidez do mercado e de que esse quadro atual irá se modificar no futuro. Pautamos muito na faculdade o protagonismo, a iniciativa, a capacidade de identificação de uma problemática e de proposição de resultados.

Nós entendemos que o aluno tem que saber as questões clássicas dos campos de área de atuação da psicologia, mas também tem que sair daqui com o instrumental para conseguir propor novos âmbitos da psicologia porque nós dificilmente vamos conseguir, enquanto universidade, suprir todas as multiplicidades de possibilidades que existem no campo de trabalho e que irão mobilizar a economia nas próximas décadas. Posso afirmar que temos agradáveis surpresas nas conquistas profissionais de nossos egressos.

(En)Cena – Saúde Mental é um tema transversal (tema transversal pode ser discutido em várias disciplinas). Quais seriam estas disciplinas que a psicologia trabalha?

César Ramos – Saúde Mental é um tema transversal porque ele faz parte da vida das pessoas, então ela vai estar incluída em qualquer área, não só na área de humanas, mas na área da saúde, assistência social e inclusive na área das exatas. Tendemos a observar na área das exatas mais o produto do conhecimento e não o processo do conhecimento que está sendo elaborado por pessoas que estão trabalhando com seus desejos, suas problemáticas, seus sofrimentos, suas alegrias. Então a psicologia pode contribuir muito com esse processo.

(En)Cena – O que o Curso de Psicologia do Ceulp Ulbra está fazendo em relação à Saúde Mental no estado e no país?

César Ramos – No município nós temos o Serviço de Psicologia (SEPSI), completamente integrado a rede municipal. É um serviço gratuito, de simples acesso, está muito bem localizado numa área central da cidade e que presta um serviço de muita qualidade. A nível estadual e nacional, nós temos ações que vão além da produção do conhecimento e da pesquisa, fazemos parte do projeto de um portal virtual denominado (En)cena, onde trabalhamos uma temática muito importante e pouco agendada na reforma psiquiátrica que é a temática cultural.  Na Reforma Psiquiátrica nós já avançamos nas proposições legislativas, nas questões políticas e arquitetônicas dos espaços, mas não avançamos muito na cultura. Infelizmente percebemos esse desafio em qualquer mídia, em qualquer publicação onde o louco ainda é visto como aquele monstro perigoso, aquele cara que comete atos bárbaros e transmite a sua loucura, aquele cara contaminado moralmente.

(En)Cena – A universidade é autista. Como a universidade se encaminha em relação aos acontecimentos do dia a dia?

César Ramos – A colocação da universidade autista representa a dificuldade de comunicação numa relação por ter seus comportamentos cristalizados, estereotipados. Trocaria esse diagnóstico, diria que as universidades em geral são exatamente como as demais instituições: esquizofrênicas. As instituições foram criadas para serem gestadas olhando para dentro, para o seu próprio umbigo. As instituições criaram estes limites, essa segregação justamente para a sua própria existência. Nosso papel enquanto gestores professores e operadores de ensino na contemporaneidade é oxigenar a instituição. Aqui no Ceulp somos muito felizes nisso, conseguimos respirar as mazelas, as dificuldades e as belezas do território – seja físico e/ou virtual – ao qual estamos inseridos.

Tencionamos e obrigamos o aluno a ir para a comunidade, ir para a rua e trazer o conhecimento para dentro da universidade, para que ele não fique enclausurado, respirando só um ar viciado de pretenso saber.

O (En)Cena é um projeto exemplar nessa dinâmica, ele consegue agregar conhecimentos das mais diversas áreas, acadêmicas ou não, e disseminar pela rede virtual, atingindo um elevado numero de pessoas e promovendo mudanças sociais imensuráveis.

(En)Cena – Como Coordenador do Curso de Psicologia, como vê a relação entre a comunicação, a psicologia e os sistemas de informação trabalhados no Portal (En)Cena?

César Ramos – O que nós fizemos com o (En)Cena foi justamente aproveitar estes instrumentais e ninguém melhor do que as pessoas que pesquisam e que trabalham com sistemas de informação e comunicação para entender uma questão que nós da psicologia temos muita dificuldade de entender que é o quanto que a tecnologia molda o nosso comportamento. Unimos os cursos de Sistemas de Informação, Comunicação Social e Psicologia porque acreditamos na força da interdisciplinaridade, na potência criativa de nossos alunos.  Trabalhar um espaço de referência tanto para o estudante como para os profissionais da área de Saúde Mental bem como aos usuários desses serviços é uma tarefa árdua que não compete somente a Psicologia.

A “estranheza” dessa parceria está fundada no olhar segmentado que herdamos da modernidade. Devemos recordar sempre que habitamos o século XXI e que a possibilidade de conexões entre saberes e fazeres são múltiplas. A idéia do (En)cena é trabalhar a cultura produzida por profissionais, por usuários no âmbito da saúde mental, pessoas comuns com seus desejos, com suas vontades, com seus erros e seus acertos. Também é um dispositivo de troca de experiência porque nós percebemos que existem muitas boas práticas no âmbito da Saúde Mental mas que ficam trancadas dentro do seu espaço físico. A nossa idéia com o (En)cena é contribuir para a política nacional de Saúde Mental trazendo a temática para próximo do usuário, do estudante, da população. Pretendemos implicar as pessoas nas questões dos Direitos Humanos fomentando o protagonismo de suas idéias, produções e ações.

(En)Cena – O homem contemporâneo, inserido neste mundo, onde as novas tecnologias reduziram as distancias e modificaram as relações de tempo e espaço e a comunicação, através de diferentes mídias, coloca a informação em tempo real de qualquer parte do planeta, com tudo isto como está a mente do indivíduo, do cidadão do século XXI?

César Ramos – Está acelerada como deve ser. Acredito que a mente, a nossa percepção, o nosso dia a dia, estejam em total compatibilidade com este quadro que você relatou. Agora o que está em incompatibilidade ainda são algumas percepções científicas, por exemplo: a dificuldade de entendimento que algumas áreas da saúde possuem sobre as influencias das tecnologias no nosso meio, em nossa subjetividade, no nosso modo de se relacionar e como elas inclusive produzem novas modalidades de comportamento que na minha percepção não podem ser inferidas automaticamente nas categorias de patologias psíquicas.

Tentarei exemplificar esse processo com dois casos. Primeiramente a questão do déficit em atenção/hiperatividade. Ela começa a surgir (ser diagnosticada) com muita intensidade no final dos anos 90. Uma criança que viveu a sua infância acompanhando este ritmo cultural, a saída do analógico para uma entrada acelerada na questão digital, possui outros modos de se relacionar com a informação. Quando esta criança chega dentro de uma sala de aula onde ainda o que pauta a instituição é um modo diferenciado de relacionamento com a informação, um modo mais analógico, um modo que valoriza uma coisa de cada vez, essa criança vai ter um comportamento diferenciado que será identificado pela instituição como um comportamento errante ou desviante. Ao propagar esse entendimento de que a criança ansiosa por informação e atividades está desviante – e não que a instituição está com dificuldade de assimilar as transformações culturais – patologizamos e medicalizamos indivíduos que na realidade estão mais aptos as novas possibilidades de aprendizagem que seus professores.

O segundo e último exemplo diz respeito às modificações que a era digital trouxeram para nossos ideais de beleza. Pautei essa temática em um Insight do (En)cena. Não podemos esquecer que a era digital facilita a vida do operador da imagem na sua manipulação. As imagens geradas, altamente reformuladas, criaram referenciais de corpos inumanos, nada “naturais”.

Esses novos ideais estéticos dispararam comportamentos, atitudes e estratégias de alcançar a felicidade através do corpo inumano perfeito. O boom de patologias como anorexia e bulimia nos consultórios psiquiátricos e psicológicos no inicio do século XXI revelam que muitas vezes as estratégias utilizadas para alcançar o padrão de beleza podem gerar profundos sofrimentos nas famílias e nos indivíduos. Podemos aferir que as patologias seguem modas totalmente datadas na sua historicidade. Obrigado pela entrevista.

Márcio Di Pietro
Trabalha na área de jornalismo desde 1973. É repórter fotográfico e acadêmico do curso de Comunicação Social do CEULP/ULBRA. Já trabalhou com jornais e revistas da imprensa nacional e está no Tocantins desde 1989, onde participou do processo de implantação do Estado, divulgando a região, registrando suas belezas naturais e os principais eventos.