medo

A onipresença do medo na modernidade líquida

“O medo tem muitos olhos
E enxerga coisas no subterrâneo.”
Miguel de Cervantes Saavedra
Dom Quixote

Para onde caminhamos? É uma boa pergunta quando compreendemos que estamos diante da fluidez humana. Tudo é líquido e se dissolve rapidamente para, então, começar tudo de novo que levará, por conseguinte, ao fluido. A pergunta se faz necessária quando percebemos que o indivíduo, a espécie e a sociedade estão ‘doentes’, alguns, demasiadamente, ‘doentes’. O pronome ‘onde’ passa a delimitar não o ‘lugar”, mas  um ‘lugar’ para onde caminhamos, cada vez mais distante dos nossos sonhos, se é que continuamos a sonhar sonhos ‘sonháveis’. Quase sempre não sabemos onde estamos, muito menos para onde caminhamos.  Eis o medo que assombra esse indivíduo/espécie/sociedade.

Antes de falar um pouco mais sobre a liquidez humana, recorro ao pensamento moderno que se apropria, a todo custo, da idéia de estabilidade. A hegemonia desse pensamento implica segurança. No entanto, diante da impossibilidade que a pluralidade e a complexidade do real permitem ser elucidadas por tal pensamento, o cordão se rompe – desprendendo-se -, o que gera uma crise intensa, quase inexplicável aos olhos de alguns.

A partir daí, abrem-se oportunidades para o surgimento de novos paradigmas. Novos medos. Penso, então, no paradigma emergente, um dos paradigmas que surge com a crise que estamos enfrentando. Ele é a própria instabilidade. Esse paradigma tende a ser um conhecimento não dualista, o qual se funda na superação das distinções tão familiares e óbvias, que até pouco considerávamos insubstituíveis, tais como natureza/cultura, natural/artificial, vivo/inanimado, mente/matéria, observador/observado, subjetivo/objetivo, coletivo/individual, animal/pessoa. É preciso lembrar que a insegurança, perplexidade diante do complexo, ainda é um aspecto relevante a se trabalhar nesse novo paradigma.

Essa nova sociedade que é pós-moderna para alguns, segunda modernidade para outros, Bauman (2001, p. 12) a conceitua como modernidade líquida. Afirma que o “derretimento dos sólidos”, traço permanente da modernidade, adquiriu um novo sentido e, portanto, foi redirecionado a um novo alvo.
Neste novo cenário, a modernidade é imediata, ‘leve’, ‘líquida’, ‘fluida’ e, infinitamente, mais dinâmica que a modernidade ‘sólida’. A passagem de uma a outra acarretou profundas mudanças em todos os aspectos da vida humana. Nesse contexto, nossa garantia de segurança é mínima. Por isso, adoecemos cada vez mais. Não temos tempo para dispor à saúde física e, muito menos, à saúde mental.

Temos medos: medo de fracassar/medo de vencer e não saber o que fazer; medo de ser feliz/infeliz, embora um dos propósitos para a grande maioria desta tríade – indivíduo/espécie/sociedade – está na busca da tal ‘felicidade’; medo de não alcançar o poder/medo de perder o poder e seus espaços; medo de desastres naturais, pelos quais somos arrematados sem a mínima a chance de sobreviver; e medo de tantos outros medos.

No rol desses medos, o meu mais novo medo é a dificuldade e os conflitos que me consomem no ato de educar minha filha. Como professora que sou, o ato de educar o outro estava longe do meu ambiente familiar. Educar tinha seu horário delimitado, 4 horas em média por dia. Depois retornava para minha zona de conforto. Hoje, essa zona não é mais de conforto, é turbulenta, agitada, dinâmica. Educar para o mundo e não para mim.  ‘Eis a questão que me aflige’.

Inquieta e amedrontada, estou sempre a me questionar como devo educar com toda essa crise que surge com mais força a cada dia. Foucault já dizia que tudo é poder. Eu acrescento, sobretudo, no amor. As relações familiares, pai, mãe e filho/s estão em total crise. Os pais de hoje, filhos de pais que viveram a repressão de uma ditadura, de uma época de falta de liberdade, promovem um verdadeiro carnaval de troca de valores: o que antes era coerção, agora é suprido e abastecido por liberdade em demasia. Pais querem ser amigos de seus filhos com o desejo de substituir consciente ou inconscientemente seus papéis de pai e mãe. A escola, desnorteada e também em crise, não sabe qual é mais o seu papel: educar quem para quê. O que mais a escola recebe hoje é projeto de criança ‘tirana’. Esclareço, neste contexto, a semântica da palavra ‘tirano’: crianças mal educadas, falta de respeito pela imagem do professor, falta de disciplina, enfim, sem limites. Os ‘pais amigos’ repassam à escola a obrigação que lhes cabe: educar. Quando a escola se sente no direito de se apropriar dessa atribuição, ainda que perdida, os ‘pais’ tolhem qualquer decisão por parte desse ambiente. Então, dá-se início ao círculo novamente. Existe também o problema do conceito do que é família nesta modernidade líquida: O que é realmente uma família hoje em dia? Que núcleo familiar é esse que se constrói e desconstrói com a força dos ventos e dos divórcios? E o papel dos avôs, que se vêem bombardeados por tantas transformações? E os filhos desses ‘pais amigos e camaradas’ nesse novo cenário? Como os filhos, resultados de relações homo afetivas, vivem essas novas transformações no ambiente escolar? E mais: Como essas crianças se sentem diante das novas dinâmicas que são desencadeadas por diversas crises, sobretudo, no ambiente tecnológico, social e cultural? Enfim, que escola e família são essas de hoje?

Retomando Bauman, o que está acontecendo hoje é, por assim dizer, uma redistribuição e realocação dos “poderes do derretimento” da modernidade.  E o que fazer quando tudo se tornar líquido, fluido, escorregando pelos dedos?

Não vejo outra alternativa: ou adoeço ou me apodero desse novo paradigma emergente, instável e sempre exigente com as relações de consumo, como uma chance de sobrevivência nessa crise que está apenas começando.

Assim, ‘caminha a humanidade’, construindo e desconstruindo os medos de meus medos, criados por mim ou não. Vale lembrar: o medo é um sentimento conhecido de toda criatura humana. Se existe o bem, existe o mal. Porém, o que mais me amedronta é o caráter de onipresença do medo: ele pode vazar, brotar, fluir de qualquer canto ou fissura de nossa casa, ambiente de trabalho, de toda e qualquer mídia, por fim, do planeta. Mas, continuemos a viver com nossos medos e os novos que virão.

Karylleila Andrade Klinger
Graduação em Letras pela Universidade do Tocantins (1993), mestrado (2000) e doutorado (2006) em Linguística pela Universidade de São Paulo. Atualmente é professora adjunta do curso de Teatro e do Programa de Pós-Graduação em Letras, Mestrado e Doutorado em Ensino de Língua e Literatura, da Universidade Federal do Tocantins. Tem experiência na área de Linguística, com ênfase no ensino do Léxico e em Onomástica/Toponímia.