ecologia

A relação triangular entre ambiente saudável, saúde mental e loucura não é uma conta exata

Fui convidada a um desafio: escrever sobre ecologia, saúde mental e loucura. Como falar de maneira clara sobre temas complexos e atuais? São temas que exigem uma reflexão teórica profunda. E garanto, quem vos escreve não se encontra com essa loucura toda para escrever um texto na profundidade que estas questões merecem e requerem. Ainda assim, o que me disponho é elencar algumas das minhas inquietações.

O primeiro desafio seria falar sobre ecologia. É comum, ao se ouvir o termo ecologia, logo visualizar mentalmente aquelas pessoas que defendem a ecologia, a natureza, o meio ambiente, ou seja, os ecologistas. Tudo isso é bem verdade. Mas é importante também que pensemos ecologia, como a “ciência da morada” e o meio ambiente a própria morada (KLOETZEL, 1998). E a natureza? Outra vez o senso comum! A natureza é conhecida como aquilo que não é artificial. Ou então, natural é o que a natureza fez. E artificial é o que o homem fez, mesmo com a ajuda ou com os recursos da natureza. (CARVALHO, 2003).

Gonçalves (2006, p. 23) vai nos dizer que “toda sociedade, toda cultura cria, inventa, institui uma determinada idéia do que seja a natureza. Nesse sentido, o conceito de natureza não é natural, sendo na verdade criado e instituído pelos homens”.

Então, quando falamos em natureza, não falamos apenas das coisas, ou dos bichos, das plantas, dos rios, das montanhas etc, mas também da maneira como vemos essas coisas, em particular integradas a um conceito que nós criamos: a totalidade a que chamamos natureza (CARVALHO, 2003).

E de que maneira se articulam ecologia e saúde mental e loucura? Aqui, vale recorrer a Isabel Cristina de Carvalho (2004), quando ela diz: “a palavra ecologia, além de designar uma área do conhecimento científico, foi associada aos movimentos e práticas sociais que ganharam as ruas e conquistaram muitos adeptos para o projeto de mudança da sociedade em uma direção “ecológica”. Tratava-se de uma reação, uma oposição mesmo à racionalidade e ao modo de vida da sociedade industrial, tecnocrática, padronizada, consumista. As suas raízes estão nos movimentos de contracultura, que emergiram nos anos 60, na Europa e nos Estados Unidos, cujo marco foi as manifestações estudantis de maio de 1968 na França. A crítica ecológica, então, situa-se entre as vozes contestatórias do estilo de vida contemporâneo denunciando sua face materialista, agressora ao meio ambiente e bélica.

Como podemos ver, trata-se de uma grande loucura tudo isso. Basta assistirmos ao filme Hair, de Milos Forman, lançado em 1979, nos Estados Unidos, cujo enredo é uma crítica ao estilo de vida norte-americano, a Guerra do Vietnã, ao  individualismo no sentido do primeiro eu, eu e eu;  para observarmos as diversas formas de loucuras – a dos hippies, que pregavam Paz e Amor, viver em coletividade e em comunhão com a natureza;  e, a da sociedade americana, de classe média, presa aos valores burgueses de família, propriedade e de consumo.

Então, o modelo de sociedade baseado no tripé mercado, produção e consumo, passou a ser bastante questionado e criticado. Sobretudo, pelas suas mazelas para o meio ambiente, com a visibilidade da degradação ambiental e pelo reconhecimento de que os recursos naturais não são infinitos.

O amadurecimento das discussões em torno da problemática ecológica, denominada crise ambiental evoluiu no sentido de se reconhecer que não era apenas a natureza que estava sendo depredada. A degradação ambiental também afeta a sociedade, daí tratar-se, na verdade, de degradação socioambiental, pois natureza e sociedade estão entrelaçadas.

A loucura da razão do capitalismo de produzir e criar necessidades de consumo visando lucro, por meio do uso intensivo dos recursos naturais e da concentração de riquezas, tem gerado boa vida para poucos e pobreza e miséria para milhares. De modo que a loucura se instala na ganância e na ausência do acesso aos recursos e oportunidades para a garantia de sobrevivência de milhares de famílias mundo a fora.

Daí, que entendo a ecologia, no sentido de movimento ecologista, que atua no sentido da construção de ambientes saudáveis, que seria a possibilidade e o direito de todas as pessoas de viver e morar com dignidade, de respirar ar puro, beber água potável, passear em lugares com paisagens notáveis, apreciar monumentos naturais e culturais, de serem respeitadas nas suas diferenças, etc. Defender esses direitos é um dever de cidadania, e não uma questão de privilégio. Todavia, muitas vezes, a defesa desses direitos é concebida como uma loucura, uma insanidade, utopia.

Então penso que a relação triangular ambiente saudável, saúde mental e loucura não é linear e nem uma conta exata. Contudo, é possível que em ambientes saudáveis haja saúde mental e a loucura possa ser compreendida, na dimensão em que ela, a loucura, propicia saltos à condição humana.

Como é possível ter saúde mental em meio ao mundo atual? Primeiro, o termo saúde mental também é dinâmico. Até pouco tempo saúde mental era o contrário de doença mental. Hoje, a saúde mental é definida como a capacidade humana de estar de bem consigo e com os outros, de aceitar as exigências da vida, saber lidar com as boas emoções e também com as desagradáveis: alegria/tristeza; coragem/medo; amor/ódio; serenidade/raiva; ciúmes; culpa; frustrações.

Digo isso, porque me situo numa sociedade moderna ocidental, onde a ciência, a técnica e a informação são elementos chaves de poder e dominação, com a tendência a que outras formas de expressão do ser humano sejam preteridas pela sociedade. Ou seja, o que não estiver dentro dos padrões sociais, é considerado desvio, anomia, doença social, patologia. Logo, deve ser tratado como tal. O que faz muito mal para a criatividade, para a espontaneidade, para a liberdade, para a vida humana.

Tudo isso é muito louco, porque em meio a uma série de normas, padronizações de condutas e comportamentos, exigências e competitividade, concorrências, corrupção, desonestidade etc, existe também o espaço para a cooperação, solidariedade, amizade, honestidade, etc. E não são espaços paralelos, bem definidos por si só. São espaços de mútua convivência.

E logo me lembrei de Lya Luft, no seu livro “Múltipla Escolha”. Ela diz que a coerção social é muito poderosa, e o espírito de manada, o desejo de nos adequarmos ao grupo, à tribo não é ruim, mas quando é excessivo nos infantiliza e nos inibe no nosso crescimento enquanto indivíduos e sociedade. A imposição cultural é muito forte, vinda de modelos que,  em geral, são impossíveis e, muitas vezes, desastrados. Aceitar as diferenças, essa dança dos desiguais que é a vida, o convívio, a família, o trabalho, etc, é um tipo de sabedoria que a gente devia buscar.

Penso que a questão ecológica trouxe para a sociedade atual a capacidade de enxergar o outro na sua amplitude, esse outro é o humano e não humano. E nessa medida, possibilitar a conjunção ser humano-natureza, que havia sido cortada no Iluminismo, com o império do progresso e da razão.

E finalizo soltando as asas, pois, enquanto escrevia, não sei por que me veio à memória a música Dancing Days, de Lulu Santos: “abra suas asas, solte suas feras, caia na gandaia, entre nessa festa. E leve com você, seu sonho mais louco, eu quero ver seu corpo lindo leve e solto. A gente às vezes sente, sofre, dança sem querer dançar…Na nossa festa vale tudo, vale ser alguém como eu, como você…”

Cientista social, Mestre em desenvolvimento e meio ambiente. Doutoranda em ciências sociais (UFRN).
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