Três mentiras a cada dez minutos

Um determinado pesquisador informou que, através de alguns testes, contabilizou que mentimos cerca de três vezes a cada dez minutos. Discordâncias metodológicas para um lado, senso comum para outro, e estamos nós parados a pensar: “três vezes a cada dez minutos?”.

Antes mesmos que pensemos em como invalidar esta afirmação, nossas mentes já nos colocaram frente a frente com algumas poucas, digamos, inverdades que acabamos de largar por aí. Sejam os quinhentos gramas a menos que vimos em nossa balança (vimos, sim, o ponteiro estava meio quilo a menos, tenho certeza), sejam os dez minutos de atraso por causa do trânsito (sim, porque os dez minutos a mais na cama, estes não contam), começamos compreender que, a contragosto, acabamos de acrescentar algumas mentirinhas a mais aos nossos currículos.

“Mas isso nem é mentira”, logo começamos a transigir. “Isso é só uma, assim, como se diz, bem…”. Mentira, sim, mentira. Até onde eu sei (e minha mãe fazia questão de não me deixar esquecer), mentira não tem tamanho. Não é algo que se diz “até aqui é mentira”, ou “tanto por cento de verdade, o resto é mentira”. Mentira é mentira, e ponto.

Então somos todos mentirosos. Sim, somos. Felizmente somos, até para manter nossa sanidade (e nossas amizades), porque não aguentaríamos tanta sinceridade e verdade em todos os momentos de nossas vidas.

Precisamos justificar a nossa ausência a determinados eventos afinal não é sempre que estamos dispostos ou animados para participar daquele sarau cultural em que, pela milionésima vez, aquele dito intelectual vai recitar aquele spam que encontrou na internet e que alguém disse que era do Fernando Pessoa.

Também necessitamos manter nossa casa em paz quando alguém muito querido nos faz aquela pergunta que já vem grudada com a resposta esperada: “estou bem assim?”. Outra resposta diferente do sim pode gerar resultados muito desagradáveis. Aqui vai um conselho: não tente isso em casa.

Talvez por isso se diga tanto que usamos máscaras: no trabalho, na universidade, em casa, com os sogros, com os amigos do futebol. Sim, buscamos nos fazer queridos, próximos, amáveis e amados, e com isso nos adaptamos um pouco a cada espaço, a casa meio, a cada grupo social com que interagimos.

E é assim que nossas mentiras entram em cena. Quando, para vivermos em relativa paz social, eu, você, a gente encena.

Mas quando isso se torna errado, patológico, anormal?

Ora, é simples, nós sabemos: quando dispomos de mais energia para manter nossas encenações do que gastamos para viver nossos sentimentos; quando temos máscaras tão distantes do que somos verdadeiramente que, quando dois grupos diferentes se cruzam, não sabemos como agir, pois somos duas pessoas diferentes, uma para cada grupo; quando dispensamos mais tempo pensando no que vamos fazer para agradar a alguém do que realmente fazendo algo que verdadeiramente desejamos.

Enfim, quando chegamos ao final do dia e vemos que a plateia para quem encenamos não está nos aplaudindo, que o cenário se transformou em uma grande farsa, e que o palco em que vivemos nossa vida passa a ser mais uma tragédia do que uma comédia dell’arte.

Se a vida é uma grande encenação, que sejamos, no mínimo, os diretores.

Fabiano Fagundes
Bacharel em Psicologia. Graduado, Especialista e Mestre em Ciência da Computação pela UFSC. Professor dos cursos de Ciência da Computação, Sistemas de Informação e Comunicação Social do CEULP/ULBRA