CAOS: A criança abusada não se resume ao abuso

Nesta terça, 22 de agosto, a Profa. Me. Clea Maria Ballão Lopes, Psicóloga e mestre em Psicologia Clínica com ênfase em Psicanálise, esteve no Congresso Acadêmico dos Saberes em Psicologia ministrando o mini curso ‘Violência e Desenvolvimento Infantil’. Maria atualmente é professora da Universidade Estadual do Centro-Oeste. Durante o minicurso, a psicóloga apresentou brevemente como é desenvolvimento humano para a psicanalise; a importância de o cuidador conversar com a criança antes mesmo de nascer; a importância da construção dos laços de afetividade; a diferença entre desejo e querer; a diferença e importância entre alienação e separação; consequências do abuso infantil; e como se dá a construção da subjetividade.

Maria explanou que a psicanalise não é uma teoria do desenvolvimento. Isto por que o sujeito com o qual trabalha é o inconsciente e não a razão. ´´O que marca o ritmo do desenvolvimento é o desejo do Outro que opera sobre a criança através de seu discurso“, completou. Foi falado também, sobre a importância de a criança ter alguém para comunicar-se. Se ela não tiver o outro para intervir, ela míngua. Ela precisa de um outro da mesma espécie para cuidar dela. Clea citou a importância de a mãe falar com a criança durante a gestação, pois quando a mãe fala ela entende e depois de seu nascimento, a criança se identifica com a voz da mãe e se acalma.

Os laços de afetividade são sempre importantes para o desenvolvimento da criança.  Os laços estabelecem relações construtivas, norteia o processo de  interação e  de boa convivência da criança com seus cuidadores. O mundo esta uma correria. O pouco tempo que se tem, se for dedicado a conversa e afetividade, resulta em mais segurança e confiança para viver no mundo.

Há crianças que querem e outras que desejam. Ballão clarificou a diferença entre desejo e querer. O primeiro não tem um objeto determinado para satisfação pessoal, pode ser qualquer coisa. ´´Algo que desconheço, que não sei o que é, mas que incomoda, traz satisfação, mas é momentânea“, explicou a psicóloga. Já o segundo, tem um objeto determinado para satisfação. Ser desejante é o mover da vida. As pessoa melancólicas e depressivas geralmente não têm desejos, abrem mão de seus desejos, dos sonhos e das idealizações, estão em situação autodestrutiva. Clea explica que a fantasia tem o seu  lado bom, o de desejo e movimentação, ´´mas se ficarmos só nisso, acaba ficando superficial“, diz.

Ballão relatou que nem sempre ser alienado é ruim , pois este constitui o individuo, por isso é importante. Mas ressalta, ´´ Inicialmente fique alienado. Mas não pode durar a vida inteira.“. O bebê se aliena, se oferece de objeto, obedece por medo de perder o amor, mas é preciso ganhar autonomia. A criança que é sempre alienada pode ficar presa a essa alienação, e ainda na fase a adulta não conseguir se desprender . Logo é importante a ausência momentânea dos cuidadores, para que a criança comece a fazer  separação, entender que não é um simbiose e desenvolver autonomia. Cada um tem uma maneira de ser. ´´É importante sermos nós mesmos. Se você tentar sempre ser o outro, você pode se perder“, explica a psicóloga.

Como foi visto, as fases de desenvolvimentos de uma criança influenciam muito em sua formação de identidade, em suas relações sociais, suas escolhas de profissão, escolhas sexuais e várias outras ações. O abuso sexual infantil deixa marcas severas. Alguns sintomas de identificação de abuso sexual são: estresse pós traumático; distúrbios de comportamentos sexual; agressividade ou forte inibição; ansiedade e agitação; insônia e pesadelos; e distúrbios alimentares.

Por fim, foi falado do manejo clinico. A criança não se resume ao abuso. O psicoterapeuta precisa mostrar a criança que  ela tem um outro lugar no mundo, que há outras possibilidades para se reinventar. Ajudar na elaboração desse luto, para que não se repita em sua vida e em gerações futuras. A criança não é ´´A abusada“, foi abusada e tem uma vida inteira pela frente.