Oração do ser utópico

Senhor Deus, princípio criador de todo o infinito, sei que lhe dão muitos nomes e faces, e que também por você muita desgraça ainda é feita, tornando suas lágrimas um infinito pesar. Nunca soube, entretanto, meu senhor, por que lhe chamam assim, no gênero masculino, se toda forma de vida que conheço é gestada e parida no corpo e na alma das fêmeas. Dos homens, pelo que sei, elevam-se a espada, o ódio e o desejo desenfreado de dominação.

Na ânsia de suportar tanto horror e iniquidade volto sempre meus olhos às estrelas, ao firmamento e vejo o espetáculo da vida pulsando em tonalidades infinitas de cores banhando a natureza, a cada raiar do sol, e na fria luz que emerge da gigantesca lua que desponta na manta negra do anoitecer. Nestes momentos tenho a esperança de que vale a pena continuar, apesar de tudo! Senhor ou senhora Deus – sei lá -, que a humanidade possa um dia reerguer-se da estupidez e miserabilidade histórica que entope veias e carrega o sangue de veneno, e o mundo seja finalmente gentil com os famintos, dando abrigo aos desamparados; não por compaixão, mas porque a igualdade viria a ser um princípio vívido nos corações, não mais só um pressuposto criado nas letras com nomes de socialismo ou comunismo.

Mas, ainda assim, se o for, que sejam então impregnados de autenticidade. Sei que quando esse dia chegar, nunca mais choraremos por pequenos anjos tombados em praias, afogados na ignorância, atraso, retrocesso, fundamentalismo ou qualquer outra triste denominação que se queira dar ás bestas-feras que se proclamam duplamente sapiens. As nações ricas, que assim se tornaram à custa da espoliação, pilhagem e escravidão dos povos, dormirão na paz de berços sem muralhas, hoje, erguidos para conter o êxodo de refugiados que vieram cobrar suas quotas na infalível lei da ação e reação. Senhor-Senhora, que o humano possa finalmente vasculhar os poços escuros de seu interior e encontrar o que sempre procurou, mas nunca suportou, isto é, a si mesmo.

Que o vizinho, o governante, os subalternos, os superiores, os afetos e desafetos sejam uma extensão indivisível de cada um. “Só assim ‘bombas sobre o Japão não mais serão necessárias para fazerem nascer um Japão em paz”, não haverá mais partidos corruptos, porcos ou moluscos no poder, pois nós seremos o poder e a encarnação da justiça, finalmente reconhecendo-nos como partes de um todo, cidadãos e cidadãs de um mundo mais justo. Como desejou alguém um dia, salvo engano, seu próprio filho, amaremo-nos uns aos outros como a nós mesmos… Meu senhor, minha senhora-Deus, quando esse dia chegar, “façam a festa por mim”, colham as rosas por mim, lembrem-se de mim, pois há muito já terei ido juntar-me à poeira cósmica dessa e de outras galáxias… Terei cumprido a missão de qualquer ser vivente, que é ao mesmo tempo pequena e sagrada: nascer, viver e simplesmente voltar pra casa.

Que assim seja, amém…

Médico Psiquiatra com pós graduação pela Universidade Complutense de Madrid-Espanha e Servizio di Saluti Mental de Trieste-Itália; especialista em psiquiatria pela AMB e ABP. Mestre em Ciências da Saúde pela UNB.
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