A arte de esquecer

Minha alma se faz carregar exagerada e desnecessariamente com o meu apego a pessoas, lugares, instituições, coisas e acontecimentos. Sei que já está ficando chato escrever isso, mas é verdade. Sou assim mesmo e, por isso, quero mudar. Quero esquecer pessoas e quinquilharias que, por causa do meu apego a elas, têm-me perturbado a existência: preciso abandoná-las, esquecê-las definitivamente, como se não tivessem existido para mim. Cansei, porque elas me têm sido inútil e demasiadamente pesadas.

Sempre me preocupei de certa forma com o que pensamos, porque acredito que, como dizem, somos o que pensamos. Eis a razão por que muita gente não é lá coisa boa. No entanto, não sou obstinado e, não muito raramente, trato este assunto com um pouco de ironia, tal qual faço com muitos outros. A vida é muito curta, para ser levada tão a sério. E, demais disso, um pouco de ironia – quando não ofensiva, imoral ou vulgar – faz bem àquele que dela se utiliza e às demais pessoas. Eu, pelo menos, penso assim. Nada tenho, todavia, contra quem pensa diferentemente.

“Se somos o que pensamos, acho que sou um lago ou um rio, porque eu só penso água. Danou-se!” – escrevi, ironicamente, dia 5 de junho de 2012, no grupo “Pensamentos”, do Facebook, a que pertenço. Foi uma brincadeira, é claro, mas a verdade, a despeito disso, é que meu interesse pelo assunto tem-se acentuado cada vez mais, embora não saiba dizer se isso é bom ou é ruim. Não sei nem quero saber. Como disse a amiga Valéria Bargmann, ao comentar no Facebook essa minha frase, “o bom é que temos um lago cristalino de ideiase,na maioria das vezes, as pessoas nos curtem”. É isso, Valéria!

Pois bem. Comprei recentemente e li quase de uma sentada o livro A Arte de Esquecer: Cérebro e Memória, do médico e neurocientista argentino naturalizado brasileiro Iván Izquierdo. Gostei muito. “Somos o que lembramos – e também aquilo que não queremos lembrar”, já diz a capa do livro. “Cada um de nós é quem é porque tem suas próprias memórias – ou fragmentos de memórias”, está insculpido na página 16. E (para fazer apenas mais uma citação), à guisa de epígrafe, está lá na página 19: “Nada somos além daquilo que recordamos.”

Caramba! Se, de fato, somos “também aquilo que não queremos lembrar”, a situação se complica, pois eu abri esta crônica afirmando que quero esquecer pessoas e quinquilharias inúteis que se me têm tornado pesadas. Quero esquecê-las, como se nunca tivessem existido para mim, para me sentir livre e leve. Pelo visto, ainda assim estarão comigo, porque continuarei sendo elas. Qual é, doutor Izquierdo?…Não, isso não! Estou fora! Não aceito isso, não! “Cai fora, jacaré, porque aqui ninguém te quer!”

Brincadeiras à parte, entendi muito bem o que Iván Izquierdo quis dizer. Aliás, quis dizer, não: escreveu, afirmando e fundamentando (o que é muito diferente de querer dizer). Claro, ele o disse fundamentadamente, e eu concordo com ele. Quero, por tudo isso, continuar pensando água. Aliás, o mesmo que a Valéria Bargmann quer fazer, segundo afirmou no mesmo comentário doFacebook que citei acima.

Foto: Irenides Teixeira

Sou um lago, ou um rio (de águas cristalinas, espero), porque só penso água. E escrevo baboseiras. Será?!… É brincadeira, penso que não.

Advogado, cronista e blogueiro (http://valdinar.zip.net e http://valdinar.blogspot.com) residente em Marabá, Estado do Pará.
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