A Cidade do Silêncio

Existia uma caixa que estava à disposição de guardar as profundas, sinceras e secretas emoções humanas. Lá havia todas as histórias imagináveis: “crimes perfeitos”, traquinagens, amores completos, serenos, e os que poderiam ser vividos, que, injustamente, foram impedidos, banalizados e julgados. Havia muita esperança, ódio, medo, sonhos, vidas guardadas naquela caixa. O “confessionário” – como era chamado – ficava dentro de uma grande sala; não havia nada a não ser esse contagiante objeto.

Na cidade, a desconfiança era o sentimento maior, não havia conversas, cumprimentos, simpatias entre vizinhos e conhecidos de forma solícita. A região sobrevivia de contatos formais, onde casamentos, negócios bancários, mobiliários, dentre outros, eram ações que, de fato, deveriam saciar e estar de bom tamanho para todos. Esse comportamento introspectivo era movido, talvez, para proteger todos de sofrerem possíveis consequências advindas de algum contato.

Era proibido qualquer tipo de música, pois esta proporcionaria alegria, paz, esperança, rebeldia, sabedoria e, principalmente, interação. Era certo afirmar que qualquer nota reproduzida naquele antro, provocaria explosões significativas, das quais poderiam “desrespeitar” a “regra” que era impregnada naquela população. Conseguiam se portar e conformar no silêncio, perfeitamente.

As luzes, as árvores, os parques não tinham emoção, uma decoração que pudesse foguear o coração das pessoas. Não se via crianças brincando na frente das casas, pulando e se divertindo com qualquer bagunça, porque, também, envolveria a interação. Os olhos daquela gente eram parcos, vazios, tristes e caídos. De tantas coisas ruins, a esperança reinava no coração de cada um, quem sabe, a única sensação que mantinha aquele povo a salvo. Porém, sem as outras qualidades, e necessitando, somente, da caixa, a cidade continuaria na escuridão.

Não se sabe quem começou com esse receio, mas era perceptível e assustador à proporção que aquilo tomava cada dia. Existia uma paranoia ali, mas, também, uma crescente carência, uma vontade de papear com alguém, manter relações, originalmente humanas, mas ninguém dava o primeiro passo. Como resultado, pairava o cansaço no ambiente, frente às repetidas e negativas condutas daquele povo. A carência e a falta de coragem fizeram com que todos se apoiassem, então, à caixa.

Com o tempo, esse recipiente foi diminuindo o seu espaço, criando montes de histórias, sorrisos, tristezas, dores e explosões sentimentais. Tudo era extravasado na caixa. Tinha gente que depositava sua história, mas, além disso, sentava do lado, conversava, descarregava seus demônios para o objeto, pois, talvez, não era satisfatória aquela entrega mecânica: por a carta no local; já bastava o comportamento diário do povo daquela cidade. Todos da região, milagrosamente, confiavam nesse instrumento, viam como um cofre que guardava segredos profundos, aqueles que poderiam santificar ou excomungar alguém.

E, então, as cartas tomaram todo o espaço da “santa” caixa. E agora? O que fazer? Onde depositar as angústias, as carências? Em pouco tempo, todos ficaram sabendo da péssima notícia, e tinham que encontrar um meio para que tudo se normatizasse. Mas, como, se o ambiente, as pessoas eram, de fato, a própria solidão? Se nenhuma solução fosse encontrada, o município, literalmente, ganharia o apelido de “A Cidade do Silêncio”; não sendo, apenas, uma alcunha dada por turistas que, sem conhecimento do local, passeavam por lá, no intuito de diversão, e viam, no final, um verdadeiro tédio presente naquele lugar.

O desespero aumentava cada vez que as horas se passavam e não havia solução para a caixa. Apesar da solidão, da caixa cheia, seria conveniente – e trapaceador, também – jogar fora um monte daquelas mensagens, dando espaço para novos desabafos, “terapias”… Mas, por incrível que pareça, além da esperança, a honestidade era outro ponto positivo daquele município, ficando todos os bilhetes intactos, sem com que bisbilhotassem. Então, tudo ficava como estava, aumentando mais a angústia. Entrava e saia gente – de um por um –, na esperança que alguém trouxesse a solução, mas a realidade, a tristeza acompanhava a face de quem saia do local, denotando resultados não tão bons.

De repente, no absoluto desespero, um rapaz foi de encontro à caixa, tentando, pelo menos, desabafar com ela, chorar suas dores, já que as cartas não poderiam ser o meio mais viável. Minutos depois, outro garoto entra na grande sala. Ele adentra tão ansioso que não percebe que já havia alguém no local. Os dois ficam espantados, percebem que o contato pode ser mais que informal, pois as sensações e os sentimentos estão aguçados. No silêncio, as lágrimas rolaram no rosto de ambos, e, logo após, a milagrosa interação:

– O que estamos fazendo de nós? – disse o rapaz que já estava no salão.

– Não sei… Só sei que estamos ficando loucos e depositando o coração, a cidade, todo o espaço numa caixa… E isso não está certo.

– A responsabilidade está toda num objeto, em algo que não tem vida. Enquanto isso, estamos nos acabando, alimentando uma tradição que nem sabemos quem iniciou. Talvez, foram algumas famílias no auge de suas intrigas.

– Não vamos encontrar os porquês dessa insana história, mas, sim, iniciar outra aventura… Alguma que termine bem…

Depois de todas essas verdades expostas, nenhuma palavra a mais caberia naquele momento se não um abraço sincero e apertado. Nesse instante, na inocência e ansiedade de buscar o afago da caixa, uma garota entra no ambiente, vendo toda a cena e, logo após, participando de todo o contexto. Era questão de tempo até todos entrarem no estabelecimento; alguns pela carência de obter contato; outros por curiosidade em ter significativos resultados sobre o problema presente.

A caixa, mesmo “incapacitada” de afagar por completo o vazio de cada um, “aproximou” a todos, fazendo esse individualismo se quebrar, nascendo um novo modelo, um novo ar. O coração – a caixa – daquela cidade batia numa velocidade gostosa, agora, vivia a adrenalina, a aventura, o pulsar… Dias desconhecidos e prazerosos tomavam o espaço. Veio, enfim, a alegria da mocidade banhar toda daquela região.

 

Rômulo Sousa
Acadêmico de Psicologia no CEULP/ULBRA; Estagiário no Serviço de Psicologia - SEPSI; Colaborador no (En)Cena - A Saúde Mental em Movimento.