A intensidade do Agora-Agora-Mesmo

O jornal de hoje é o papel que embrulha do peixe de amanhã
Esse ditado popular habitava os mercados públicos de outrora
Onde peixes, políticos, comerciantes, senhores e escravos
Circulavam, tão misturados e ao mesmo tempo tão distantes

 

Como todo bom ditado ele carrega um “que” de atemporalidade
todavia uma atemporalidade brilhante incrivelmente acelerada
tal paradoxo non-sense ocupa nossos celulares e telas diariamente
o post de agora é a informação ultrapassada do agora-agora-mesmo

 

Nossa doce ilusão de uma memória (digna, asséptica, fidedigna)
Já foi desmantelada por nomes como Bergson, Glauber Rocha e Nietzsche
Mas mesmo assim nos perguntamos se o tão cobiçado cérebro dos anos 90
Alcançará a hercúlea capacidade de armazenamento dos Terabytes

 

Cogitamos também se algum dia essa montoeira de informações esquecidas
Será visitada por algum Ser excêntrico interessado em memórias de outrora
pesquisando arquivos que revelem os estranhos modos
de como seus perversos antepassados embrulhavam os extintos peixes

 

Realmente, pensar em uma memória tão grande chega a dar náuseas
Prefiro, mais uma vez, divulgar o preceito bigodudo-nietzscheano
De que a memória deve ser expelida de nosso corpo como suor

 

E que a informação bombástica divulgada frenético agora-agora-mesmo
nada mais é que o embrulho do peixe de amanhã
(isso se amanhã ainda existir, mar, peixe, mercado)