As noites das vizinhas de Sérgio

A noite chega, no entanto não seria mais uma noite como as outras. Sérgio, cansado de mais um dia de trabalho prepara uma simples refeição, alimenta-se, deita-se em sua cama de solteiro, desmaia e dorme. Nem a sua dor de coluna pode retardar seu sono. À meia noite ele acorda e o silêncio é dominante. Incrédulo com a paz que lhe flertava ele resolve encostar a cabeça na parede, em vão, nada ouve. Agora só resta o barulho que ficou na sua cabeça. Nessa noite Sérgio não dormiu direito, não por falta de silêncio, pois este ele teve até de mais, mas por falta de compreensão, por não entender o motivo do silêncio no quarto de dona Morgana. Ele poderia ter se mudado para outro lugar, entretanto ganhava apenas um salário mínimo, de miséria, uma grande mentira quanto ao esperado nas promessas, e o quarto em que morava era cedido pelo dono da república, seu Ricardo, que tinha uma dívida com o pai de Sérgio e resolvera pagar cedendo ao filho do amigo um abrigo.

A vizinha de quarto de Sérgio, dona Morgana, era uma mulher daquelas que não passava em lugar nenhum que não prendesse pelo menos um olhar. Na verdade a sua força de atração tinha o poder de fazer com que os pensamentos de qualquer homem orbitassem por um tempo em volta de seu corpo. Além do mais ela sabia fazer com que as coisas fluíssem em seu favor. Tinha duas filhas, uma de 13 e outra de 14 anos. Andava atarefada e ainda não tivera tempo suficiente de conhecer bem o novo vizinho, Sérgio. As noites do vizinho eram de curiosidade e revolta. Naquela noite em que ele ouviu gemidos e choro apenas na própria cabeça seguiu-se de uma manhã diferente das outras.

Em todas as manhãs as duas filhas de dona Morgana apresentavam-se bem, por vezes até sorridentes, e era impossível não olhar quão profundos, lindos e brilhantes eram os olhos da mais nova, Karen, olhos castanhos claros e penetrantes, “olhos de mel” e também quão bonita e comunicável era Jacinta. Moças de pele bonita, já se pareciam com mulheres, todavia eram apenas crianças crescidas. Naquela manhã, quando Sérgio saiu para o trabalho após a noite confusa que teve, observou que na frente da república as moças estavam sentadas em um banco, com semblante triste como se tivesse morrido alguém, e mesmo sendo o desejo do rapaz, a vizinha não tinha morrido e muito menos outro parente ou pessoa importante da família dela para que as moças se encontrassem naquele estado.

O que teria acontecido de diferente naquela noite para que agora estivessem tristes aqueles rostos que outrora estavam sempre de bem com a vida? Um estalo espantoso na mente de Sérgio lhe trouxe várias indagações:

Sérgio: – Como é que em todo esse tempo essas moças estiveram sempre bem se todas as noites sua mãe lhes maltratou? Eu mesmo já estou de olhos fundos e ouvidos sensibilizados de tanta maldizência que ouço quase todas as noites mal dormidas destes quinze dias que moro aqui!

Já até denunciei para seu Ricardo, mas ninguém pôde fazer nada porque no final das contas parece que apenas eu ouço, vejo e falo dentro dessa república sobre o que ocorre por aqui! Virei confidente das dores alheias e agora vendo essas moças nesse estado… Só pode ter acontecido algo muito sério.

Tinha acontecido mesmo. Dona Morgana era uma garota de programa de sucesso, ou pelo menos tinha sido. Digo tinha sido porque nos últimos anos os clientes estavam cada vez mais escassos. O consumismo exige sempre o novo e nem sempre o que ainda presta e era difícil custear o vício de drogas e duas filhas. Sérgio praticamente nem via dona Morgana, seus horários de entrada e saída ainda que quizessem dificilmente se encontravam. Ela estava em aperto financeiro e as filhas já não acreditavam mais que sua mãe saia para trabalhar em outra coisa que não fosse na prostituição, mesmo sem entender muito bem a etimologia dessa palavra.

Os sinais mostravam tudo. As roupas que usava ao sair, os telefonemas, os amigos sempre novos da mãe… Os castigos sofridos pelas moças, os quais perturbavam o sono de Sérgio são explicados pela fala de dona Morgana que repetia sempre o mesmo diálogo quase monólogo:

Morgana: – Minhas filhas, na vida a gente tem que ter coragem de fazer o que tiver que ser feito para conseguir continuar de pé. Vocês sabem quantas coisas em certos momentos da vida já tivemos que vender para pagar o aluguel e outras coisas como as roupas bonitas e materias escolares que vocês usam?

Dona Morgana era uma ótima argumentadora.

Morgana: – No fundo meus amores, vocês sabem que eu só quero o nosso bem e um lugar para ficar juntinha com vocês todas as noites e para que estejamos sempre juntas precisamos de dinheiro. Se vocês aceitarem sair comigo hoje ao encontro de dois rapazes legais eu prometo que tudo dará certo. Eu mesma posso ligar pra eles virem aqui buscar a gente e vocês nem precisam se preocupar, pois eles deixarão a gente de volta com segurança.

Diante da recusa das moças a mãe delas se revoltava e as afligia, e mesmo sofrendo maus tratos, pela manhã as moças estavam com semblante até bem por não terem saído com estranhos sabe-se lá pra onde. No entanto um dia algo inusitado aconteceu. Dona Morgana lhes prometera levar ao parque de diversões. Elas iriam se divertir, sentir o algodão doce derreter na língua, viver um momento em família, serem moças e voltarem sendo crianças, ver a cidade do alto da roda gigante sentindo aquele frio na barriga que despenca em risos de alegria de poder desfrutar a melhor fase da vida.

Elas já se viam andando de mãos dadas com a heroína, sua mãe, afinal de contas uma promessa daquelas só podia mostrar que a mãe tinha se arrependido de tudo que fizera de mal. Sendo assim, elas estavam felizes. Lindas. No dia tão esperado Karen usara a maquiagem da mãe. Sua irmã lhe fizera lindas tranças em seus cabelos e para aquela noite especial Karen escolhera um lindo vestido vermelho.
Jacinta, mais aformoseada de corpo parecia mesmo uma moça pronta para namorar, para dar seu primeiro beijo, mesmo que já tinha feito isso na escola. O momento era como se fosse único. E seria. Naquela noite ela estava linda e bem vestida simplesmente porque iria sair com a família, com as pessoas mais importantes da sua vida.

Então um carro para na frente da república, as moças olham bem e tudo que veem é uma senhora simpática e de semblante alegre. Morgana pega nas mãos das filhas e se aproxima. Depois de apresentá-las à sua amiga Joana elas entram no carro e partem. Desconfiadas sentem um frio na barriga até o momento que avistam o parque. Sim! elas realmente foram ao parque. Os brinquedos, aquele tanto de pessoas, as luzes do ambiente pareciam que iluminavam mesmo os sonhos das meninas. Momento como aquele era difícil. Sua mãe linda e de semblante seguro transmitia confiança. Foi o melhor programa que fizeram na vida. Suas expectativas foram ultrapassadas. Elas iriam contar pra todo mundo a noite maravilhosa que tiveram com a mãe e sua amiga.

Ao voltarem para casa Joana percebe que elas estavam sendo seguidas por um carro preto. Tenta fugir, acelera, mas não consegue despistar, parece que não tem jeito. Era como se fosse um filme. A diferença é que Karen e Jacinta não podiam saber se haveria um final feliz. Joana entra cada vez mais em ruas escuras e o que parecia mesmo é que estava se perdendo. O asfalto acaba enquanto a esperança das meninas de escapar não. Os buracos reduzem a velocidade do carro ao passo que a frequência dos batimentos cardíacos das meninas que outrora aceleravam de pura alegria da inocência agora aceleram de pavor e desespero. O frio na barriga não desencadeia mais risos, apenas pontos de interrogações sem sombra de respostas e muito medo. Os dois carros param. Sem saber o que ou o porquê de tudo que estava acontecendo Karen e Jacinta se sentem encurraladas e como a mãe e Joana não tomaram nenhum tipo de atitude tipo correr para se salvarem, as meninas não fizeram nada a não ser grudarem-se em sua mãe e esperar o desfecho de toda aquela situação. A porta do carro que as perseguia se abre e elas observam dois homens saírem. Um deles com uma arma na mão pronuncia um nome familiar:

– Morgana! Hoje você me paga o que me deve nem que seja com a própria vida.

Depois daquelas palavras com ton de ameaça, o desespero das meninas aumenta ainda mais. Na verdade palavras não podem expressar o que elas sentiram naquele momento, quando a boca de sua mãe que tantas vezes fora usada para lhes dizer “eu amo vocês” agora tinha as palavras obstruídas pelo cano de um revólver. Segurada pelos cabelos e de joelhos, Morgana implora para falar um pouco com as filhas. O clima desarmou totalmente as meninas que agora viam sua mãe namorar a contragosto a própria morte. Em prantos, mãos trêmulas, maquiagem borrada… Morgana então diz:

– Minhas filhas, meus anjos! Vocês são as maiores dádivas que Deus me deu para cuidar. Este homem veio cobrar uma dívida e quer receber hoje e eu não tenho dinheiro para pagar. Eu sei que não tenho sido boa para vocês, mas quero que me perdoem por tudo de mal que fiz.

As meninas a abraçam, choram, beijam e declaram o quanto a amam. Morgana continua a falar:

-Eu sempre fiz tudo por vocês e sei que vocês fariam qualquer coisa por mim. Não fariam Karen e Jacinta?

Elas então respondem:

– Qualquer coisa mamãe…

A cena parecia Dramaturgia. Lágrimas, suor, desfiguração dos rostos em tamanho desespero. As meninas já não agem pela razão, apenas pelo instinto de sobrevivência delas e da pessoa que mais amam. Sua provedora. Estavam simplesmente inertes, a mercê da sorte. Então o homem que estava com a arma na mão se assegura do sucesso da investida enquanto o outro se aproxima das meninas. Paralisadas, sentem-se como se as únicas partes do corpo a funcionar fossem os pulmões e o coração. O cara da arma ordena que Morgana se afaste um pouco das meninas e ela então se afasta a um metro de distância. Karen e Jacinta nunca conheceram o carinho do pai e agora as mãos daquele estranho de olhos famintos deslizavam em seus corpos. A sensação de repugnância delas naquela situação era terrível. Se podessem sumir dali, gritar por socorro, gritar a dor que a carne lhes reclamava… só podiam chorar feito meninas, afinal de contas era isso que elas eram mesmo.

Para eles estavam ali duas boas mercadorias que podiam pagar a dívida de Morgana. Então todas são colocadas no carro dos bandidos. Joana vai na frente com o motorista enquanto que Morgana, suas filhas e o cara da arma vão atrás. Chegam numa casa que as meninas só tinham visto em revista ou internet. Naquele momento, nada tinha sentido para aquelas pobres almas femininas. Aquelas duas pobres almas femininas. Alguém as esperava ansiosamente. Morgana é levada para os fundos da casa praticamente arrastada pelos cabelos. Ela seria trazida de volta sã e salva, assim as meninas foram asseguradas mesmo sem ter noção do que poderia significar essa tal de segurança. Não precisavam saber fazer nada. Apenas estar ali era o suficiente. Então tudo aconteceu…

Num momento tão terrível e confuso Jacinta ainda conseguiu fazer uma reflexão. Não conseguira entender o porquê da amiga da mãe ter sido levada até aquela casa sem esboçar praticamente nenhuma reação de medo ou sofrer humilhação. Porém o que importava depois daquele momento para as meninas é que apesar da pior noite de suas vidas elas tinham sido despensadas vivas e com sua mãe. Tinham conseguido. Salvaram a mãe.

Depois de alguns dias do ocorrido as noites de Sérgio passaram a ser de sossego e descanso. Ele passou a dormir tão bem que nem se importava mais quando via aqueles rostos sem brilho de menina no banco da frente da república do seu Ricardo. O rapaz podia ter até sonhos maravilhosos. Karen e Jacinta também dormiam. Mal, muito mal. Também podiam sonhar, porém só tinham pesadelos. O desejo de ter a mãe por mais tempo em casa agora tinha sido realizado, no entanto, agora eram elas que não tinham tempo para estar em casa.

E assim mais uma noite chega. Ricardo ainda deve ao pai de seu inquilino. O Sérgio, cansado de mais um dia de trabalho, prepara uma simples refeição, alimenta-se, deita-se em sua cama de solteiro, recebe uma visita, nova, e depois desmaia e dorme. Não sente mais dor de coluna e ronca feito um porco. A vida continua para todos como se nada acontecesse. Afinal de contas o problema estava bem ao lado e não dentro do quarto de Sérgio que agora dorme.