Crônica de um coração mais protegido

De tantas brigas pendentes, a vida, em sua simplicidade, me mostra sua beleza. Devagarzinho, vai aposentando minhas luvas de confronto, ornamentando de escudos as minhas paredes. Já não se é mais necessário persistir nessa guerra. É um esforço que não produz ganhos evolutivos. Tenho me limitado, pontuando/separando tudo em minha vida, sem deixar as vírgulas, as reticências mesclarem minhas palavras. Talvez, a produção de meus textos explica, escancaradamente, a diferença entre o meu mundo e o de tantas outras coisas. Venho valorizando o silêncio, a autorreflexão… Quando não, conforto-me no bom e velho rock’n’roll – que é a mesma coisa.

Nesses dias, os sonhos têm me fascinado… Sinto com mais detalhes o seu cheiro, a sua forma, sua finalidade… Ele, desinibido, mostrou minhas memórias “esquecidas”, extravasou suas energias e quis reconstruir minha fortaleza. Os sonhos persistem que eu viva em comunhão com os meus destrates, ao invés de tratá-los como demônios que precisam ser eliminados. Eles querem uma grande reforma. Posso, assim, caminhar com minha subjetividade sem mentir pros meus outros eus, evitando possíveis rebeliões/dissociações.

O quarto me proporcionava silêncio e solidão. Mas, não aquela solidão negativa, sabe? Era algo mais relacionado com uma magia que me equilibrava. Contudo, estou muito exigente. Hoje o quarto não contempla as minhas ambições. O que tem depois da janela consegue, hoje, me seduzir mais, abrandar minha curiosidade e coração. Porque conversar e ouvir (principalmente ouvir) vem me ensinando, de forma modificada, um silêncio mais calmo e, principalmente, sábio. E, então, quando estou em sintonia com um diálogo respeitoso com outrem, consigo fazer o ritual do silêncio e, também, viver a solidão positiva, pois consigo retirar toda a barulheira do meio – esse desserviço pra alma – e deixo, ainda, o cenário branco… E que as nossas conversas figurem esse espaço.

E tenho percebido, assim, que o mundo não é tão complicado, que as conquistas, as respostas (aquelas que amassam nossa agonia e imaturidade) vêm naturalmente. Elas vêm com cuidado. Vêm de mansinho reconhecer seu território. Elas não demoram… sabem, apenas, o momento de chegar. O seu momento! Na verdade, elas que te esperam, e, a partir disso, chegam até você. Elas não gostam de barulho, querem a casa limpa, cheirosa, que o seu trabalho seja caprichoso e, é claro, silencioso. Contemplando isso, meus amigos, vocês ganharão energias novas. Descobrirão que podem mais. Então, vamos descobrir mais sobre a solidão e o silêncio? Eu não sei de muito, ainda, mas confesso que estou gostando de cada chão novo que piso, e o meu coração tem sentido mais a proteção. Vamos?! Garanto que a proposta só enriquecerá nossas almas.

Rômulo Sousa
Acadêmico de Psicologia no CEULP/ULBRA; Estagiário no Serviço de Psicologia - SEPSI; Colaborador no (En)Cena - A Saúde Mental em Movimento.