Diário de uma Mulher Moderna

A reunião está no auge das discussões. Não se pode perder o foco, muito menos desaquecer as calorosas e, nem sempre amistosas, propostas para o lançamento da nova companha. A empolgação e a obstinação pela aprovação iminente de suas ideias faziam com que Laura sentisse o mais alto grau de excitação e adrenalina. Sua mente estava alinhada na órbita do SOL das Criações. Sua galáxia existencial vagava no Universo do Desafio. Meses do seu trabalho e criação estavam sendo avaliados. A obsessão pela vitória, em mais essa batalha de sua vida, não era uma vaidade, mas uma conquista  vital para sua carreira profissional. Seria como dar um passo desse planeta à Lua. E, no meio do caminho, tornar-se uma estrela.

Exatamente, nesse momento crucial e rosa do seu dia, seu celular toca. Ligação da escola de sua filha. Como estava no silencioso, ela não ouviu. O exímio tempo que lhe restava naquela reunião deveria ser consumido com avidez inteligente. Afinal, qualquer interrupção na sua linha de raciocínio teria efeitos devastadores. Naquele momento, aprovar aquela campanha era fundamental para a sua carreira. Era a conquista da sua vida.

Horas de árduas lutas argumentativas depois, a batalha fora vencida. Ela não queria coroação,champagne e nem festa. Bastava-lhe o respeito à verdade inconteste: Laura possuía competência, criatividade e inteligência ímpares. Ela assinaria a campanha do OUTUBRO ROSA. Suas ideias geniais e inovadoras para a conscientização acerca do autoexame e prevenção ao câncer de mama encantaram os investidores. Era a vitória tão duramente conquistada.

Devido o adiantar da hora, mal teve tempo para receber os apertos de mãos e abraços cordiais de congratulações. Era preciso pegar a filha na escola. Saiu correndo da sala, desculpando-se aos presentes e justificando que além de publicitária, era mãe e esposa. E, saiu tão apressadamente, que nem ouviu o comentário de uma colega de trabalho que sussurrou com suave veneno “Melhor se apressar mesmo, porque do jeito que você trabalha, vai acabar perdendo sua família.”

Chegou à escola da filha com 15 minutos de atraso. Percebeu que tudo estava previsivelmente na rotina. Observou as mesmas crianças que esperavam seus pais que também atrasavam, de vez em quando. Mas onde estava sua filha? A resposta foi imediata. O guarda da escola a informou que a menina havia passado mal. A escola havia ligado inúmeras vezes. Como ela não atendera nenhuma das ligações. Seu marido fora informado e ele havia passado na escola mais cedo e a levado. Laura agradeceu e lembrou que havia esquecido de olhar no celular no qual constavam 10 ligações da escola e 20 ligações do  marido. Sentiu um frio na barriga.

Foi correndo para casa. Abriu a porta esbaforida e deparou com o marido sentado no sofá da sala. Perguntou imediatamente “Como ela está?”

A resposta veio amarga “Se atendesse seu celular, você saberia” – disse o marido sem tirar os olhos da televisão.

Laura saiu correndo para o quarto, abriu a porta abruptamente e foi recebida pelo olhar mais carente que já vira na vida. Partiu para a cama da menina e lhe deu o abraço mais comprido que poderia dar, nação sabia ao certo se era comprido pela culpa por não ter atendido ao telefone, ou comprido pela preocupação em ver a filha doente.

– O que você tem, meu amor? – perguntou disfarçando as lágrimas nos olhos.

– Já passou, mãe. Foi só um mal estar. Acho que é por causa do calor que fazia na hora do intervalo. Senti tontura. Falei para professora. Ela ligou, mas a senhora não atendeu. Então, ligaram para o papai. Ele foi me buscar- disse a menina, em meio a um abraço tão apertado que Laura teve a sensação de que as duas eram a mesma pessoa.

– Vou deixar você descansar. A lua já está cantando lá fora. Você consegue ouvir? – perguntou com ar de doçura.

– Mãe, conta história antes de eu dormir – implorou a filha com ar de mais dengo que doença.

– Conto sim. Agora descanse – respondeu Laura em meio a um sonoro e molhado beijo no rosto da filha.

Fechou a porta devagarinho e se dirigiu à sala. Sabia que iria ser travada outra batalha no seu dia-a-dia.

O marido mais seco que nunca, simplesmente, ignora a sua presença. Ela tenta amenizar aquela situação tão constrangedora.

– Amor, vou assinar a campanha OUTUBRO ROSA. Por isso, não atendi a ligação e…. – foi interrompida com um movimento de indignação.

– Sua filha deve ser mais importante que qualquer campanha. Eu tive que sair do meu trabalho e buscar a menina. A mãe é você! Espero ainda se lembre disso. –  disse o marido enfurecido.

– Qual o problema de você ter ido buscá-la? Eu estava trabalhando. Então, eu posso interromper meu trabalho e você nunca? – perguntou com afirmação descontente.

– Você é Mãe! – limitou-se a responder o marido.

–  E você é Pai. Direitos iguais, lembra? Ou será que esses direitos só são iguais na hora de pagar as contas? – disse tão defensivamente que nem houve tempo para o arrependimento.

– Vou dormir – disse o marido com ar de descaso (Engraçado como os homens ou aumentam o volume da televisão, ou, simplesmente, dizem que vão dormir quando não tem mais argumentos para discutir)

Laura fez o jantar, serviu a mesa. Ajudou a filha nos trabalhos da escola e…

 …ainda teve forças e carisma para contar as mais lindas histórias até que a filha dormisse.

Quando entrou no seu quarto, o marido parecia dormir. Ela não quis fazer barulho e se deitou mansamente. Quando exausta parecia já começar a sonhar, foi acordada por um sussurro no ouvido “Parabéns pela campanha”. E foi invadida por uma volúpia de carinhos tão intensos que foi impossível não acordar e continuar sendo MULHER.

Mulher Moderna é assim. Boa Mãe. Boa profissional. Boa Dona de casa. Boa esposa e, no final de tudo, ainda boa de cama. Realmente, Mulheres Modernas são admiráveis.

A QUALQUER MOMENTO DEPOIS…..

Laura acorda e olha a sua volta à procura de algo. Vaga pelos cômodos e encontra sua casa, sua filha, seus projetos, seu marido, seu cachorro, o diploma de formatura, tudo assim meio bagunçado mesmo, mas…. e a sua FELICIDADE? Onde estava?

No casamento? Nos olhos da filha? Na profissão? Na casa recém-construída? Não sabia ao certo. Só precisava encontrá-la e URGENTE!

Então, começou a arrumar as malas. E resolveu levar pouca coisa: as fotos da juventude, o gosto pela liberdade, o amor ao desafio que impulsionava sua vida, aquela íntima vontade de AMAR que como já disse Drummond “lhe paralisava o trabalho”, e, claro, sua filha.

Nessa hora, o marido acorda e pergunta, de forma tão previsível, “Nenhuma MULHER consegue ser MODERNA, INDEPENDENTE, CASADA e FELIZ?”

A resposta foi imediata “MULHER MODERNA, INDEPENDENTE E FELIZ RESPEITA A SI PRÓPRIA. NÃO NOS ALIMENTAMOS DE CONVENÇÕES SOCIAIS. SEXO BEM FEITO NÃO NOS SILENCIA. NÃO TEMOS MEDO DO NOVO. QUEBRAMOS REGRAS. SENDO MÃES, FILHAS, PUTAS ou SANTAS, SOMOS MULHERES MODERNAS CAPAZES DE MUDAR O FINAL DO ENREDO DE NOSSAS HISTÓRIAS A QUALQUER HORA, TEMPO OU LUGAR. Como estou fazendo agora”

Então, reflitamos “Quem disse que sua vida não pode ter outro final?”. Esperei 24 horas para finalizar essa crônica. Fui julgada, mal interpretada, mas precisei ter autocontrole para finalizar essa série de MULHERES MODERNAS. Por quê? Para comprovar que MULHER MODERNA foge da previsibilidade. Afinal, somos muito mais inteligentes e surpreendentes do que sonha “nossa vã filosofia”.

Nós temos a sensibilidade, apuro cognitivo e decisão ímpares. Por isso somos MULHERES MODERNAS, donas de nossa história. Histórias de luta, lágrimas, vitórias, derrotas, sonhos, decepções e conquistas. Realmente, não nascemos de contos de fadas. Somos GUERREIRAS dignas de toda admiração.

Elienai Ferreira de Oliveira
Mestre em Letras, com ênfase em Linguística. Professora de Comunicação e Expressão do CEULP/ULBRA. Amante das Letras e da Literatura. Colaboradora do (En)Cena.