Mulheres Modernas: Relacionamento Virtual, por que não?

Sempre afirmei que Mulheres Modernas não se limitam a estereótipos. Elas são vanguardistas na sua essência, pois quebram regras, possuem atitude e adoram desafios, principalmente no âmbito do desconhecido.  Encantam-se pelo  mistério.

Por isso, o fascínio pelo virtual seja  um tempero a mais na vida dessas mulheres. Não porque sejam carentes ou irresponsáveis, contudo a  sedução pelo enigmático mundo in ausência representa convite desafiador. E convenhamos que, na contemporaneidade, não acontecem  mais  os saraus românticos retratados nas obras de José de Alencar. Ocasiões em que havia o cortejo às damas e as sutis investidas românticas, na maioria das vezes, arranjadas pelas famílias dos enamorados.

Mulheres Modernas adoram ser cortejadas, mas não se privam de ir à luta da conquista, independente do ambiente ser real ou virtual. Diante desta afirmativa, os relacionamentos virtuais são temática obrigatória nesta série MULHERES MODERNAS. Vamos à narrativa.

Laura sentia-se como um cometa em rota de colisão com o desconhecido. Seus passos se faziam errantes no caminhar da vida que se transfigurava em um túnel escuro e sombrio. Buscava uma saída, uma luz que dissipasse aquele  odor obscuro que exalava dos sentimentos que sufocavam sua alma. As lembranças do seu passado ainda sangravam com o pulsar de um coração destroçado.

Buscava alguém que lhe fizesse sorrir, não queria amar alucinadamente como outrora, bastava voltar a sorrir. Então, a lembrança da existência das  redes de relacionamento virtual surgiu como uma esperançosa possibilidade. E pensou  “ Por que não?

Caminhou lentamente  para o computador como quem dirige em uma rua escura a procura de um endereço de alguém interessante, porém sem saber  nem o nome da rua e nem o número da casa do procurado. A única certeza que tinha era que estava ali sua possibilidade de voltar a ver graça na vida. Por isso considerou que  importante era não desistir.

Então, viu abrir, diante dos seus olhos cansados, uma janela inusitada que dava entrada para uma sala habitada por pessoas desconhecidas. Eram vários nomes, várias falas. Surgiu o medo “ E se alguém a conhecesse?”.  Por isso, ficou algum tempo parada em frente à janela aberta do computador, somente ouvindo as conversas tão entusiasticamente proferidas pelos presentes. Ouvia, também, o clamor de sua alma suscitando a necessidade de voltar a viver. Sentiu que a vida pulsava naquela sala de bate-papo. Foi quando, em um ímpeto de coragem, pulou a janela e entrou na sala. Ficou, a princípio, no cantinho, sentada timidamente, sem conversar com ninguém.

De repente, sentiu uma aproximação que lhe causou espanto. Leu uma mensagem que dizia em tom que lhe pareceu tão agradável “Olá! Boa noite!” Tc de Palmas?”. Lendo isso, seu coração disparou. Hesitou se daria a resposta . Mas, decidiu que a Contenção e o Medo do novo tinham ficado do lado de fora da sala. Ali, ela estava livre e segura.

 As primeiras palavras proferidas suscitaram uma imensa curiosidade em conhecer aquela pessoa tão conflituosamente tentadora com quem ela passara a conversar virtualmente. Suas primeiras impressões foram tão antagônicas. Ela falava de sentimentos e ele, da razão. Ela discorria sobre sonhos, ele, sobre a concretude da vida. Ela sentia o sangue voltar a correr na direção do seu coração; enquanto ele se mostrava impassível como uma rocha imperiosa que desafiava o mar em noite de fúria. Acredito que, definitivamente, foi essa representação de majestosa fortaleza alicerçada na razão que lhe seduziu e a aprisionou. Afinal, eram o Côncavo e Convexo. Um desafio para a previsibilidade da sua rotina existencial. Não sabia ao certo o porquê, mas tinha a certeza de que precisava vê-lo pessoalmente.

Por isso, quando leu escrito em um cantinho da janela “Vou a Palmas amanhã. Podemos conversar um pouco mais?”, Laura nem percebeu quando suas mãos, involuntariamente, escreveram “Quando chegar, ligue-me para esse número”. Nesse momento, olhou para trás e sentiu que a janela estava se fechando, despediu-se e saiu correndo para pular de volta ao túnel da sua vida que, por uma incrível manobra do destino, pareceu menos escuro e sombrio naquela noite.

Previsivelmente, no outro dia, quando Laura o viu pessoalmente, sua timidez a abraçava tão forte que ela mal conseguia respirar. Isso impulsionava seu coração a bater tão forte, como há muito tempo ela não sentia. Porém, sua instabilidade emocional era contrastada com o equilíbrio que emanava daquele homem tão centrado e racional.  A insegurança de Laura desviava seus olhos somente para o prato com as panquecas bolonhesas cuidadosamente arrumadas sobre a mesa e ela passou a concentrar suas observações sobre aquela delícia da culinária. Observando seu interesse, ele lhe esclareceu que ele era de descendência italiana; as panquecas, não. Essa informação tão descontraída  incitou nossa protagonista a esboçar um sorriso. Foi nesse momento que Laura olhou atentamente  para o rosto daquele homem que saia do mundo virtual e se fazia tão real diante dela com sua presença.

E como ela ficou encantada com o seu estilo de mocinho dos filmes hollywoodianos. Aqueles cabelos para o lado lembraram-lhe dos desenhos do PETER PAN. Como ele era graciosamente encantador.

Como estavam próximos à praia, ele a convidou para um passeio no lago. Sua expressão era toda tão convidativa que Laura só conseguiu dizer “Sim”. Na praia, teve a visão impressionante de uma gôndola azul turquesa que lhes esperava ancorada em plena Praia da Graciosa. Só podia ser um sonho porque ela parecia voar, não sentia a areia debaixo dos meus pés. Só, então, percebeu que ele a carregava nos braços. Sentiu a proximidade do  corpo dele como uma descida em uma montanha russa, uma sensação perigosamente alucinante. Ele direcionava a gôndola como um maestro conduz a sinfonia de desejos das noites das paixões mais avassaladoras. Tocou sua mão e lhe convidou para dançar, ali, no limite entre a mansidão do rio e a infinitude do céu. Seus braços  enlaçaram levemente sua cintura, permitindo com que, em determinado momento, tornassem-se um só corpo, em um êxtase de loucura que lhe fez delirar, pois Laura sentiu que tocava as estrelas. Descansou seu corpo nos braços sedutores dos prazeres proibidos.

Percebeu, nesse momento, que a gôndola ancorava novamente na praia. Um olhar com tempo de eternidade foi a sua despedida. Não houve promessas, planos para o futuro ou confissões de amantes. Contudo, Laura descobriu que há relações que são indizíveis por palavras. Vivenciadas somente pelos mistérios do coração. Talvez seja por isso que todas as vezes que ela lhe envia  mensagens por meio de janelas tão distantes, ela sente que está em Vênus e ele, em MARTE. Contudo se orbitam no mesmo espaço, seus futuros encontros são inevitáveis Embora vivam a anos luz de distância.

Para quem está triste com o final dessa história, finalizo com os versos de Vinícius de Moraes “que seja eterno enquanto dure”. A mulher moderna importa-se com o tempo, porém mais relevante é a intensidade dos momentos vividos. Frieza? Não! MODERNIDADE!

Elienai Ferreira de Oliveira
Mestre em Letras, com ênfase em Linguística. Professora de Comunicação e Expressão do CEULP/ULBRA. Amante das Letras e da Literatura. Colaboradora do (En)Cena.