A arte de cuidar e o cuidar na arte

“e, por fim, as cores, que são recursos úteis relativos às intuições e sentidos humanos”

Por Ângela Marques Batista

Psicóloga formada pelo CEULP/ULBRA. Trabalha no CAPS de Porto Nacional e é voluntária do (En)Cena.

As figuras expostas a seguir são frutos de uma oficina terapêutica que acontece nas segundas e sextas-feiras no CAPS de Porto Nacional – TO. Esta atividade iniciou-se em Outubro a partir da organização da agenda de um grupo terapêutico e se expandiu como oficina para todos os usuários do serviço. Trata-se de uma oficina de pintura em muros, onde são utilizados como material a tinta acrílica (tingida com tinta xadrez) e pincéis.

Os muros pintados são aqueles que circundam um serviço, de sede nova e própria, que, primariamente, tem aspectos arquitetônicos hospitalares.

A referente oficina teve como um dos objetivos proporcionar aquilo que na saúde é chamado de Ambiência, que é o tratamento dado ao espaço físico para que este se configure como um espaço acolhedor, onde os elementos do ambiente interagem com o usuário.

Considerando tal oficina como um tratamento dado ao espaço físico, é possível destacar alguns elementos inerentes no processo, como a morfologia – que diz respeito às formas e dimensões que configuram e criam espaços, pensando que cada desenho pintado apresenta sua morfologia própria, seja geométrica, assimétrica ou de qualquer outra espécie -; o cheiro, ou cheiros diversos que compõe o ambiente, seja cheiro de tinta, seja cheiro de gente -; o som – ao constatar que estas oficinas acontecem enquanto são passadas músicas em um aparelho de som e as pessoas cantam e dançam entre uma pincelada e outra -; a sinestesia – que é a percepção do espaço por meio do movimento, assim como das superfícies e texturas, onde é possível destacar que um dos desenhos expostos foi feito por um deficiente visual, que tomado por esta percepção e com o auxílio de outras pessoas pôde “fazer seu trato” no muro -; a arte, como dispositivo de inter-relações e de expressões catárticas, terapêuticas e/ou genuínas das sensações humanas -; e, por fim, as cores, que são recursos úteis relativos às intuições e sentidos humanos, levando-se em consideração os aspectos da cromoterapia.

Dessa maneira, a oficina de pintura em muros como um tratamento de áreas externas que proporcionam um ambiente confortável e acolhedor àqueles que dessas áreas usam, também proporcionam mútuas correlações entre sujeitos e elementos, e sujeitos e sujeitos, num possível e esperado encontro entre a função criativa e a função terapêutica de cada um.

Observação: a exposição das fotos foi concedida por todos aqueles que participaram da oficina, mediante acordo feito em Assembléia Ordinária dos usuários do CAPS – Porto Nacional.

 

 

Referência: Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Núcleo Técnico da Política Nacional de Humanização. Ambiência. Brasília: Editora do Ministério da Saúde, 2010. Disponível em:  http://dtr2001.saude.gov.br/editora/produtos/impressos/folheto/04_1163_FL.pdf Acessado em 27 de Novembro de 2012.