Instrumentos velhos formam magnificas orquestras

Todos os dias eu gosto de passar pela casa de minha mãe. É um lugar em que me sinto viva. Mais que isso, é um lugar que busco vida, me alimento.

Ao olhar o rosto marcado de minha mãe eu me realizo e desejo sempre ter a coragem e a perseverança dela. Eu a ouço dizer sempre que não há mais sentido e que velho não deveria viver, porque não servem para mais nada, ao ouvi-la dizer isso eu então penso: se ela soubesse como a música que ela toca faz bem a minha alma…

Então eu a olho como um instrumento velho, largado no canto ou em um baú qualquer. Esquecido lá por anos, esse instrumento produz música, não importa o tempo que passe.

Assim são as pessoas. Assim são os idosos. Não importa se os largam, se os deixam. A música vai sempre existir, talvez não com a mesma imponência. No entanto, mesmo em um ritmo mais lento ela ainda nos faz levantar do chão e nos faz levitar ao som dos acordes tocados.

Duvido que tenha coisa mais magnífica do que ouvir uma idosa contar causos. Não existe beleza maior do que ver uma velhinha rodeada de crianças contando histórias de sua infância…

E ao ver tantos velhinhos reunidos e demonstrando tanta vida sinto a magia da música, sinto a magia dos instrumentos juntos formando uma grande orquestra. Ao começar os acordes é como se todo o ambiente subisse ao céu e assim sentimos Deus nos tocar.

E então mais uma vez eu vejo a importância de se ouvir os outros. Todos os idosos apenas desejam ser ouvidos. Desejam ter alguém que os escute e lhes dêem um pouco de atenção. Nada além. Somente querem se deixar tocar por quem os rodeiam e assim eles darão a melhor música que conseguimos ouvir e sentir.

Por que então tantos instrumentos velhos esquecidos nos cantos?

Talvez seja a ilusão de que os novos instrumentos farão uma melodia melhor. Talvez a ilusão de que terão uma orquestra mais perfeita.

Apenas ilusão.

A música que minha velha mãe toca é a mais bela e perfeita que posso ouvir. E ao pensar que um dia posso acordar e não mais ouvi-la deixam meus olhos mareados e meu coração apertado. Por isso quero sim tocar e ouvir todos os instrumentos velhos que encontro por aí.

Se todos nós assim fizermos, com certeza ao final teremos uma magnífica orquestra.

Rosely Camargo
Filha de Paraíso do Tocantins, membro fundadora da Academia de Letras de Paraíso do Tocantins - ALP. Autora dos livros: Meus Rabiscos (2004) e Com os Olhos da Alma (2013).
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